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HamnstadGösta Andersson (Bengt Eklund) é um marinheiro que volta a terra, para ficar, cansado de longas viagens. Com dificuldade em dar-se, prefere ler a sair com os amigos. Mas numa das saídas, Gösta encontra Berit Holm (Nine-Christine Jönsson), uma rapariga a recuperar de uma depressão e tentativa de suicídio. Os dois começam uma relação, mas Berit tem algo que a ensombra e precisa contar a Gösta, sob o risco de o perder. O seu comportamento promíscuo levou a que a sua mãe a entregasse a uma casa de correcção ainda menor, da qual Berit escapou, tendo tido já muitos namorados. Resta a Gösta decidir o quão importante é isso para si.

Análise:

De volta à estatal Svensk Filmindustri (SF), Ingmar Bergman teve como seu quinto filme a adaptação do livro “Guldet och murarna” de Olle Länsberg, filmado na região de Gotemburgo, e representando uma história passada numa cidade portuária, local de agitação, mudança e constantes viagens. Era uma altura em que a SF, agradada com “Uma Luz nas Trevas” (Musik i mörker, 1948) queria de volta o mesmo Bergman que despedira após o fracasso de “Crise” (Kris, 1946). Bergman, tentado pelas melhores condições oferecidas, terá submetido o argumento do que seria “A Prisão” (Fängelse, 1949), rejeitado pela SF. O realizador aceitou então passar ao argumento de Olle Länsberg, mantendo o projecto “A Prisão” de pé, pois continuaria a filmar (quase em paralelo) na Terrafilm de Lorens Marmstedt.

Com interpretações de Bengt Eklund e Nine-Christine Jönsson, “Cidade Portuária” é o entrelaçar de duas histórias pessoais. De um lado temos Gösta (Eklund), um marinheiro acabado de chegar de mais uma missão no mar, mas que quer mudar de vida e assentar raízes em terra. Pouco interessado nas saídas fúteis dos amigos marinheiros, Gösta tem dificuldade em dar-se, por descrença nas relações humanas, até se deixar intrigar por Berit (Jönsson). Esta é uma jovem que vive com a sua mãe, mas nem sempre assim foi. Depois de algumas escapadelas amorosas ainda menor, e com um pai constantemente ausente, Berit acabou entregue a instituições de reforma de jovens. Aí, sempre que podia, e inserida no espírito das outras jovens, que sonhavam com aventuras, Berit vai voltar a fugir e viver outras relações ilícitas. Hoje trabalha, automaticamente, resiste aos assédios e está a sair de uma tentativa de suicídio.

Tal vai chegar a Gösta na forma dos piropos e piadas jocosas que Berit recebe constantemente, sempre que estão juntos. Depois de ver o exemplo da amiga Gertrud, que acaba por engravidar, e pedir-lhe dinheiro para um aborto clandestino, Berit decide contar a Gösta da sua vida de relações fugazes, a qual faz com que ainda agora a sua mãe a trate com desprezo. É inicialmente um duro golpe para Gösta, que não consegue esquecer que Berit teve muitos homens antes dele, mas que aos pouco entende que a jovem apenas procurava amor, e o encontrou nele. Gösta aceita então Berit de volta.

Já longe das convenções teatrais, Ingmar Bergman filma agora com verdadeira linguagem cinematográfica, incluindo vários flashbacks, uma multitude de cenários, travellings pela cidade e porto (num início que parece quase um documentário sobre a rotina portuária). O filme ganha por isso em dinâmica a tudo o que Bergman filmara antes, mesmo que torne os personagens um pouco mais limitados.

E se Nine-Christine Jönsson nos dá uma Berit frágil, temerosa, depressiva, mas ainda assim terna e sonhadora, Bengt Eklund é mais austero e inescrutável. Destacam-se por isso os momentos em que o seu Gösta quase se nos dirige, como que pedindo que fiquemos do seu lado. Ambos nos dão uma história humana e realista, sem romantismos poéticos.

Pelo meio fica de novo a crítica de Bergman à sua sociedade, aqui na forma do comentário sobre as instituições de reforma juvenil, que o filme descreve como incapazes, e caminhos para uma decadência moral. Contra isso temos o amor inocente de duas pessoas, que mais uma vez parecem estar sozinhos contra o mundo. Não falta também o conflito entre pais e filhos, tão comum em Bergman, aqui com mais uma bofetada filial, a exemplo do que já acontecera em “Barco para a Índia” (Skepp till India land, 1947).

O filme teria algum sucesso, deixando a Bergman as portas da SF abertas para maiores voos.

Produção:

Título original: Hamnstad [Título em inglês: Port of Call]; Produção: Svensk Filmindustri (SF); Produtor Executivo: Gösta Ström; País: Suécia; Ano: 1948; Duração: 97 minutos; Estreia: 11 de Outubro de 1948 (Suécia), 15 de Março de 1989 (Cinemateca Portuguesa, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Harald Molander; Argumento: Olle Länsberg, Ingmar Bergman [a partir do livro “Guldet och murarna” de Olle Länsberg]; Música: Erland von Koch; Fotografia: Gunnar Fischer [preto e branco]; Montagem: Oscar Rosander; Design de Produção: Nils Svenwall; Direcção de Produção: Gösta Ström.

Elenco:

Nine-Christine Jönsson (Berit Holm), Bengt Eklund (Gösta Andersson), Mimi Nelson (Gertrud), Berta Hall (Mãe de Berit), Birgitta Valberg (Mrs. Vilander, Assistente Social), Sif Ruud (Mrs. Krona), Else Merete Heiberg, Britta Billsten (Prostituta), Harry Ahlin (Skåningen, Companheiro de Gösta), Nils Hallberg (Gustav), Sven-Eric Gamble (Eken), Yngve Nordwall (O Supervisor), Nils Dahlgren (Pai de Gertrud), Hans Strååt (Mr. Vilander, Comissário de Polícia), Erik Hell (Pai de Berit).

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