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Kiş UykusuAydın (Haluk Bilginer) é um antigo actor de teatro, agora retirado, dirigindo um hotel na região rural da Capadócia, e vivendo das rendas cobradas aos inquilinos de antigas moradias arrendadas. Enquanto prepara um livro sobre a história do teatro turco, Aydın depara-se com os problemas da família do iman Hamdi (Serhat Mustafa Kılıç), e vai vendo crescer os conflitos com a sua irmã, a divorciada Necla (Demet Akbağ), e com Nihal (Melisa Sözen), a esposa vinte anos mais nova. Por entre esses confrontos, Aydın percebe que a imagem de intelectual razoável, moderado e moderno, que tem de si, não corresponde à forma como é visto pelos outros.

Análise:

Com “Sono de Inverno” (cujo título original significa “Hibernação”), Nuri Bilge Ceylan dava-nos o seu mais longo filme até então, numa duração de três horas e um quarto, que, segundo o realizador, foi um penoso processo de montagem a partir de muitas mais horas. Filmado na Capadócia, no centro da Anatólia, o filme destaca-se mais uma vez pelo uso da paisagem natural, e terá levado seis meses a filmar, após Ceylan adiar as filmagens várias vezes para esperar que Haluk Bilginer, o protagonista, estivesse livre dos seus compromissos com o teatro. Destaca-se ainda a raridade que é Ceylan usar música, aqui o Andantino da Sonata em La maior, D959, de Franz Schubert. Esta surge a espaços, timidamente, apenas para pontuar alguns momentos, como epílogo ou introdução a novas cenas.

Inspirado pelo conto “The Wife” (A Esposa) de Anton Tchekov, e com piscares de olho a Tolstoi e Dostoievski, “Sono de Inverno” capta o mundo isolado da ruralidade turca, onde tempo e espaço se distinguem dos da grande cidade, e as comunidades têm um sentido de auto-suficiência (material e espiritual) que as torna pequenos universos fechados sobre si próprias.

Numa destas comunidades pontifica Aydın (Haluk Bilginer), um antigo actor de teatro, agora retirado, dirigindo um hotel, vivendo das rendas cobradas aos inquilinos das inúmeras propriedades que lhe deixou o seu pai, e escrevendo para jornais locais, enquanto prepara um livro sobre a história do teatro turco. Conhecemos Aydın numa viagem pelas suas propriedades, com o motorista Hidayet (Ayberk Pekcan), que os coloca em litígio com o pequeno Ilyas (Emirhan Doruktutan), e o seu pai Ísmail (Nejat İşler), irmão do seu inquilino Hamdi (Serhat Mustafa Kılıç), o iman (sacerdote muçulmano) local, com rendas em atraso.

Mas Aydın prefere ignorar essas vicissitudes, que deixa a cargo dos seus subordinados, preferindo escrever artigos para o jornal, onde fala de moralismos e valores. Sentindo-se sempre um passo acima de todos à sua volta, Aydın é surpreendido pela irmã Necla (Demet Akbağ) que lhe confessa que o vê como um pretensioso que julga sempre conseguir racionalizar tudo para impor as suas posições, mas no fundo apenas quer sentir-se superior, em posição de julgar todos os outros.

A ideia será mais tarde corroborada pela esposa Nihal (Melisa Sözen), uma mulher muito mais jovem, que não mostra já nenhum carinho pelo marido, depois de citados incidentes que anteriormente mancharam o casamento. Nihal dirige uma associação de caridade que reúne fundos para melhorias em escolas locais, até Aydın se intrometer para explicar com paternalismo que tudo o que ela faz é errado, e precisa da mão dele. A discussão decorrente leva Aydın a decidir apressar uma viagem a Istambul para fazer pesquisa para o seu livro, enquanto Nihal leva parte do dinheiro para dar à família de Hamdi, apenas para o ver ser queimado com desprezo por Ísmail. Entretando Aydın, que nunca viajou, regressa, confessando interiormente que já não consegue estar longe de Nihal, mesmo que nunca lho possa dizer.

Desta vez, com mais tempo ainda (se é que alguma vez filmou alguma coisa de modo apressado), Nuri Bilge Ceylan traz-nos mais uma história simples, quase sem ocorrências, mas de nuances complexas, como são sempre os seus personagens. Tudo se centra na figura de Aydın, um velho actor, agora retirado, rico, e pessoa admirada na região. Aydın é-nos apresentado como uma pessoa que é superior aos problemas comezinhos (como na forma como lida com a pedrada do pequeno Ilyas, e subsequente subserviência do tio deste, o iman Hamdi), que trata os outros com elevação, e alguém seguro da sua posição. Esse prestígio e distância dá a Aydın uma forma de intervir, também ela distante, escrevendo nos jornais. A sua crónica fala de ética e moral, muitas vezes inspirada em situações reais, como o iman Hamdi, que o espanta pela sua demasiada simplicidade.

Mas esta pose de classe e superioridade moral de Aydın (que em turco significa «intelectual») é desmontada aos poucos durante o filme. Primeiro pela sua irmã Necla, que embora admire alguns dos seus textos, e capacidade retórica do irmão, percebe que na maior parte dos casos ele escreve sobre algo em que não é perito. Fica a questão, é legítimo opinar-se em público fora do nosso campo de formação? Quando o verniz estala entre os dois irmãos, Necla acusa Aydın de ter um ego que encontra sempre uma forma de se justificar. Tal é intensificado pelas discussões entre Aydın e a esposa, a jovem Nihal, que em tempos o terá amado, mas que agora o suporta numa relação de instável equilíbrio diplomático.

E se inicialmente nos parece estranho como um homem dócil e razoável como Aydın é tratado com tanta frieza por uma esposa que, visivelmente, lhe deve muito, aos poucos percebemos que Aydın não hesita em mostrar essa superioridade, constantemente diminuindo o valor da esposa (por exemplo na forma como se intromete nas suas organizações de caridade).

O filme é então marcado por longos diálogos (que aliam um enorme realismo a uma qualidade literária) que, ao jeito de Ceylan, vão do insignificante ao importante, numa acutilância que não deixa nada de fora. É essa a justificação da extensão do filme, como uma escalpelização científica dos vários confrontos verbais (Aydın com a família de Hamdi, com a irmã ou com a esposa). Todos parecem começar de forma banal, para aos poucos (virtude do extremo realismo do autor) se tornarem quase incómodos para quem os vê, dado o modo como nos mostram as fraquezas de cada interveniente, e em que tantas vezes nos podemos rever. A tal não são alheias, claro, as soberbas interpretações de Haluk Bilginer e Melisa Sözen.

E é lentamente, por entre situações banais, que Aydın (que é sempre o personagem central – note-se como logo no início quase que temos a câmara a entrar na sua cabeça), aos nossos olhos, passa de homem razoável, superior e benevolente, a alguém que se defende conscientemente, afastando-se por defesa e incapacidade de se dar, racionalizando e argumentando de modo a sair por cima, não hesitando em humilhar os outros (intencionalmente ou não, fica ao critério de quem o observa), para se justificar, e manter a sua posição. É que a ideia que Aydın tem de si não é, afinal, a que os outros têm dele, e conviver com isso poderá não ser fácil.

É, afinal, como Ceylan tanto gosta, mais uma história de pessoas imperfeitas, com complexidades e defeitos, entre eles a incapacidade de os aceitar, e de comunicar (veja-se como Aydın nos confessa em off que a sua fraqueza é não poder viver já sem Nihal, mas nunca lho dirá). É, por isso, mais uma história sobre a distância que nos separa uns dos outros, e por vezes de nós próprios, filmada na extensa Capadócia, onde Ceylan, através da paisagem desolada e alterações climáticas (que começa num seco Outono, e termina num branco Inverno), nos apresenta personagens e situações. Como sempre, a fotografia é de cortar o fôlego (quer em interiores, quer em exteriores), aqui com o trunfo da vastidão da Anatólia central, em particular das tradicionais casas esculpidas na rocha da Capadócia. E como sempre, não é de acção explícita, situações marcantes ou pontos de não retorno que a história se constrói. É sim de diálogos lentos, olhares tristes, silêncios eloquentes e gestos reprimidos.

No final fica um retrato da Turquia rural, das relações tradicionais entre os mais abastados e as populações pobres, mas fica principalmente um ensaio que desmonta o quanto podemos estar enganados sobre nós próprios, já num estado em que somos incapazes de desfazer os erros de uma sobranceria e ego criados por anos de afastamento (note-se como Aydın e Nihal nunca se tocam ou usam aliança durante o filme) silencioso em relação ao que nos rodeia.

“Sono de Inverno” estreou no Festival de Cannes, onde venceu a Palma de Ouro, sendo o filme mais longo de sempre a fazê-lo. O filme foi pré-nomeado para os Oscars, mas não passaria à competição final. Devido ao realismo das cenas envolvendo uma captura de cavalos, Nuri Bilge Ceylan veio a enfrentar processos criminais devido a este filme.

Haluk Bilginer

Produção:

Título original: Kiş Uykusu [Título inglês: Winter Sleep]; Produção: Zeyno Film / Memento Films Production / Bredok Film Production / Arte France Cinema / Mars Entertainment Group / Imaj; Produtor Executivo: Sezgi Üstün; País: Turquia / França / Alemanha; Ano: 2014; Duração: 196 minutos; Estreia: 16 de Maio de 2014 (Cannes Film Festival, França), 13 de Junho de 2014 (Turquia), 8 de Janeiro de 2015 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Nuri Bilge Ceylan; Produção: Zeynep Özbatur Atakan; Co-Produção: Alexandre Mallet-Guy, Mustafa Dok; Argumento: Ebru Ceylan, Nuri Bilge Ceylan [a partir do conto “The Wife” de Anton Tchekhov, com diálogos inspirados em Tchekov, William Shakespeare, Fiódor Dostoievski e Voltaire]; Música: Franz Schubert; Fotografia: Gökhan Tiryaki [Digital]; Montagem: Nuri Bilge Ceylan, Bora Gökşingöl; Direcção Artística: Gamze Kuş; Caracterização: Monika Münnich, Anke Thot; Guarda-roupa: Onur Uğurlu; Efeitos Visuais: Jean-Michel Boublil; Direcção de Produção: Tamer Basaran, Ali Imran Kocaaslan.

Elenco:

Haluk Bilginer (Aydın), Melisa Sözen (Nihal), Demet Akbağ (Necla), Ayberk Pekcan (Hidayet), Serhat Mustafa Kılıç (Hamdi), Nejat İşler (Ísmail), Tamer Levent (Suavi), Nadir Sarıbacak (Professor Levent), Mehmet Ali Nuroğlu (Timur, Hóspede Turco), Emirhan Doruktutan (Ilyas), Ekrem Ilhan (Atci Ekrem), Rabia Özel (Fatma), Fatma Deniz Yildiz (Sevda), Masaki Murao (Erkek), Junko Yokomizo (Kadin, Turista Japonesa).

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