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My Fair LadyEliza Doolitle (Audrey Hepburn) é uma pobre vendedora de flores em Covent Garden, grosseira e mal-educada, que consegue a atenção do professor Higgins (Rex Harrison), um especialista em fonética, pelo seu cockney quase imperceptível. Em conversa com o amigo, o coronel Bickering (Wilfrid Hyde-White), Higgins aposta que consegue transformar Eliza numa dama de inglês e maneiras perfeitas em seis meses. Eliza muda-se para casa do professor, onde sofre com o ritmo das lições e o abuso do misógino Higgins. Mas ao mesmo tempo que vai refinando o seu comportamento e pronúncia, Eliza começa a nutrir sentimentos por Higgins, que a vê como uma simples cobaia.

Análise:

Se há tema que tem sempre acompanhado a produção artística humana é o tema universal do Pigmalião, que nos foi legado numa alegoria pelos antigos gregos, na história de um escultor que se apaixonou pela estátua de mulher que concebeu como a mais pura forma de beleza. Essa ideia, presente em tantos livros e filmes, for modernizada na peça “Pygmalion” de George Bernard Shaw, onde o escultor passa a um arrogante professor de fonética, e a sua criação é a transformação de uma vulgar vendedora de flores, numa dama da alta sociedade. A peça foi estreada em 1913, e terá, por sua vez sido influenciada pela vitoriana peça de W. S. Gilbert “Pygmalion and Galatea” estreada em 1871. Houve, em 1938, uma primeira adaptação da peça ao cinema, no filme “Pigmaleão” (Pygmalion, 1938), de Anthony Asquith, com Leslie Howard e Wendy Hiller. Mas o sucesso popular chegaria quando, baseados na fama da peça de Shaw, Alan Jay Lerner e Frederick Loewe conceberam o musical “My Fair Lady” para a Broadway, estreado em 1956- Com Rex Harrison no principal papel masculino e Julie Andrews no feminino, a peça foi um sucesso estrondoso, tornando-se o musical com maior longevidade na Broadway, no seu tempo. Claro, que a ideia de o passar ao cinema não estaria longe.

Foi isso que pensou Jack Warner, que comprou os direitos para cinema da peça, por um valor record, e entregou a produção ao consagrado George Cukor, para que este reconstituisse no ecrã toda a magia do palco.

Com Audrey Hepburn no papel da protagonista Eliza Doolittle, em vez de Julie Andrews (na altura desconhecida fora da Broadway), Cukor, um cineasta conhecido pela forma elegante com que tirava das suas actrizes interpretações magníficas, construiu um filme que retém todas as características do musical, desde a obediência aos números musicais (na ordem original), à construção de cenários. Quase todo o filme se passa na casa do Professor Higgins (de novo Rex Harrisson), com as excepções sendo a zona de Covent Garden, as corridas de Ascott, a rua onde Higgins mora, o baile da embaixada, e a casa da mãe de Higgins. Todos estes espaços são construídos em estúdio, e nalguns deles (por exemplo Ascott ou a varanda da casa de Mrs. Higgins) o espaço surge-nos completamente estilizado, num irrealismo propositado que nos faz crer estarmos num palco.

É nestes espaços que decorre a história de Eliza Doolittle, uma rapariga vulgar de Covent Garden, que fala um cockney quase imperceptível, e que leva o professor Higgins (Harrison), especialista em fonética, a apostar com o amigo coronel Bickering (Wilfrid Hyde-White) que a consegue transformar numa dama em seis meses. Atraída pela ideia de ser alguém com mais classe, Eliza aceita, e vai viver para casa de Higgins, suportando um ritmo selvático, e os constantes abusos de linguagem de Higgins que a vê como uma cobaia sem sentimentos.

O resultado é a completa transformação de Eliza, que entretanto começa a nutrir sentimentos por Higgins. Só que este, um perfeito misógino, não considera mais que o triunfo, que obtém no baile da embaixada, onde Eliza passa por uma princesa húngara que domina o inglês melhor que os próprios ingleses. Ferida por não continuar a passar de uma experiência, Eliza considera a proposta do jovem apaixonado Freddy Eynsford-Hill (Jeremy Brett, o mesmo que décadas depois ficaria famoso pelo papel de Sherlock Holmes na afamada produção da BBC), e refugia-se em casa da mãe do professor (Gladys Cooper), que toma o seu partido contra o filho. É só ao sentir a falta de Eliza, que Higgins percebe que afinal sente algo por ela.

Ao contrário da peça, onde Higgins perde a Eliza devido à sua intransigente arrogância e falta de sentimentos, no filme, o final é feliz, se bem que muito forçado. A isso alia-se, como possível ponto negativo, o facto de a voz de Audrey Hepburn ser dobrada nas canções pela de Marni Nixon (exceptuando “Just You Wait”, em que Hepburn canta tudo menos a secção central). Hepburn não tem a voz tecnicamente dotada de Nixon (ou de Julie Andrews), mas o filme ganharia em expressividade, como aliás se nota na divertida interpretação de “Just You Wait”. As restantes canções na voz de Hepburn podem ser hoje encontradas, mostrando que nalgumas a sua voz não conseguia cantá-las com a qualidade exigida, se bem que numa ou noutra (em particular ” Wouldn’t It Be Loverly?” e mesmo a secção central de “Just You Wait” manter a sua voz no filme talvez tivesse sido a melhor opção).

Já Rex Harrison, quase sem cantar (as suas canções são um misto de declamação e leve entoação melódica) venceria o Oscar de Melhor Actor por uma interpretação absolutamente irrepreensível, como o arrogante e intratável professor Higgins, que mostra ser um oponente perfeito para a deliciosa Eliza Doolittle de Hepburn. Como curiosidade aponte-se que Harrison não quis fazer o habitual playback dos musicais, e por isso usou um microfone sem fios, inovador na época. E é da relação entre Higgins e Eliza, feita de situações jocosas, e números musicais divertidos, que o filme evolui, tal como Hepburn evolui deliciosamente da irrequieta maltrapilha do início para a pose aristocrata do final. Com base em canções inesquecíveis, coreografias divertidas e diálogos inspiradíssimos (não esquecer todas as cenas com o pai de Eliza – quer cantadas, quer faladas, – numa interpretação maravilhiosa de Stanley Holloway, também ele parte do elenco original da peça da Broadway), “Minha Linda Lady” é sempre entusiasmante e cómico, num equilíbrio poucas vezes conseguido no cinema, e em mais um papel inesquecível de Audrey Hepburn. Por fim destaque ainda para o impressionante guarda-roupa, que se tornaria uma referência na moda de então.

O êxito do filme de George Cukor foi total, conseguindo aprovação da crítica e do público, e tendo recebido doze nomeações aos Oscars, vencendo oito, entre eles Melhor Filme e Melhor Realizador (além do já citado Oscar para Rex Harrison). A estes prémios “Minha Linda Lady” juntou o BAFTA de Melhor Filme, e os Globos de Ouro de Melhor Filme, Realizador e Actor. Curiosamente o Oscar de Melhor Actriz desse ano iria para Julie Andrews por outro musical, “Mary Poppins” de Robert Stevenson, segundo muitos, por despeito pela sua não inclusão no filme de Cukor.

Produção:

Título original: My Fair Lady; Produção: Warner Bros.; País: EUA; Ano: 1964; Duração: 173 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 21 de Outubro de 1964 (EUA), 4 de Dezembro de 1964 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: George Cukor; Produção: Jack Warner; Argumento: Alan Jay Lerner [a partir do seu libreto do musical “My Fair Lady”, adaptado da peça “Pygmalion” de Georg Bernard Shaw]; Canções: Frederick Loewe (música), Alan Jay Lerner (letras); Música Adicional: Frederick Loewe, André Previn [não creditado]; Orquestração: Alexander Courage, Robert Franklyn, Albert Woodbury; Arranjos Vocais: Robert Tucker; Direcção Musical: André Previn; Fotografia: Harry Stradling Sr. [filmado em Super Panavision 70, cor por Technicolor]; Montagem: William H. Ziegler; Design de Produção: Cecil Beaton; Direcção Artística: Gene Allen, Malcolm C. Bert [não creditado]; Cenários: George James Hopkins; Figurinos: Cecil Beaton, Michael Neuwirth [não creditado]; Caracterização: Gordon Bau; Coreografia: Hermes Pan (baseada na coreografia de palco de Herman Levin); Direcção de Produção: Sergei Petschnikoff.

Elenco:

Audrey Hepburn (Eliza Doolittle, voz nas canções dobrada por Marni Nixon), Rex Harrison (Professor Henry Higgins), Stanley Holloway (Alfred P. Doolittle), Wilfrid Hyde-White (Coronel Hugh Pickering), Gladys Cooper (Mrs. Higgins), Jeremy Brett (Freddy Eynsford-Hill, voz nas canções dobrada por Bill Shirley), Theodore Bikel (Zoltan Karpathy), Mona Washbourne (Mrs. Pearce), Isobel Elsom (Mrs. Eynsford-Hill), John Holland (Mordomo).

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