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CharadeQuando Regina Lampert (Audrey Hepburn) regressa a Paris de uma estância de esqui, para pedir o divórcio ao marido Charles, encontra a casa completamente vazia e descobre que ele foi assassinado. No funeral, três homens sinistros, Tex (James Coburn), Scobie (George Kennedy) e Gideon (Ned Glass), surgem para se certificar da morte de Charles. Logo de seguida, Regina é chamada por Hamilton Bartholomew (Walter Matthau) da CIA, que lhe conta que Charles foi morto por dinheiro que ele e os outros três roubaram na Segunda Guerra Mundial. Agora eles acreditam que ela o tem, e a sua vida está em perigo. Com Regina está apenas Peter Joshua (Cary Grant), um homem que ela acabou de conhecer, e parece estar sempre no lugar certo para a ajudar, mas que talvez não seja quem diz ser.

Análise:

Em 1963, Stanley Donen voltava a reunir-se com Audrey Hepburn, de novo em Paris, seis anos depois de “Cinderela em Paris” (Funny Face, 1957). Curiosamente, tal como então Hebburn filmara dois filmes ao mesmo tempo na capital francesa – sendo o segundo “Ariane” (Love in the Afternoon, 1957) realizado por Billy Wilder, – também agora a estadia em Paris resultava em dois filmes simultâneos da actriz, sendo o segundo “Quando Paris Delira” (Paris – When it Sizzles, 1964) de Richard Quine.

Actuando também como produtor, através da sua Stanley Donen Films, o realizador afastou-se agora do musical em que tentara encaixar Hepburn seis anos atrás, e que afinal era o género que o tornara famoso nos anos 50. Em vez disso, Donen decidiu-se por um thriller de crime e mistério, bem ao jeito de Alfred Hitchcock. Tal a atmosfera e modo de se comportar dos personagens, o filme seria mesmo mais tarde apelidado de «the best Hitchcock film that Hitchcock never made». Tudo partiu de uma história de Peter Stone e Marc Behm, intitulada “The Unsuspecting Wife” que, após rejeição, foi publicada em livro por Peter Stone como “Charade”, que subsequentemente o adaptou ao cinema.

A reforçar a ligação ao mestre britânico do suspense, está a presença do seu actor preferido, Cary Grant. De referir que Grant já por duas vezes fora convidado a trabalhar com Audrey Hepburn, a primeira em “Sabrina” (1954) e a segunda no supracitado “Ariane”, ambos de Billy Wilder. A razão de Grant para a recusa era a diferença de idades, e por sentir que, então acima dos 50 anos, não deveria voltar a fazer papéis românticos. Curiosamente, ambos os actores escolhidos para o substituir (Fred Astaire no primeiro filme, Gary Cooper no segundo) seriam mais velhos que Grant. Mais uma vez, em “Charada”, Grant começara por recusar o seu papel, mas modificações no argumento, feitas por Peter Stone, tornando a personagem Audrey Hepburn naquela que procura a relação à qual a de Grant inicialmente resiste, convenceram-no a aceitar. O resultado seria, para além de uma química perfeita em ecrã, uma agradável surpresa para o veterano Grant, que diria mesmo mais tarde «All I want for Christmas is to make another movie with Audrey Hepburn», filme esse que nunca viria a acontecer.

Mas por sorte temos “Charada”, uma comédia criminal, cheia de reviravoltas e momentos de suspense, em torno da morte de Charles Lampert, que deixa a viúva Regina (Audrey Hepburn), que por acaso lhe ia pedir o divórcio, a braços com meia dúzia de pertences, um mistério quanto à morte do esposo e, pior que tudo, um bando de possíveis assassinos no seu encalce por julgar que ela esconde um quarto de milhão de dólares. Estes são Tex (James Coburn), Scobie (George Kennedy) e Gideon (Ned Glass), antigos companheiros de Charles na Segunda Guerra Mundial, quando teriam desviado tal quantia, que Charles terá escondido até agora. Esta é a história contada por Hamilton Bartholomew, da CIA, que quer que Regina espie para si. Ao mesmo tempo esta é abordada por Peter Joshua (Cary Grant), que ela conhecera em férias, e surge agora como seu protector. Só que cedo Regina percebe que Peter Joshua não é quem diz ser, mas sim, Alexander Dyle, irmão de Carson Dyle o quinto companheiro dos ladrões, morto aquando do roubo.

De mentira em mentira, de pista em pista, os ladrões vão morrendo um após o outro, sem se saber onde está o dinheiro, e qual deles possa saber mais sobre isso. É uma estrutura como a popularizada por “And Then There Were None” de Agatha Christie, na qual se percebe que o sobrevivente será o assassino. Por isso, quando apenas Regina e Dyle, que entretanto confessa ser um ladrão chamado Adam Canfield, sobrevivem, ela desconfia que seja ele o verdadeiro assassino, até se perceber que o verdadeiro Carson Dyle está ainda vivo.

Hitchcock definiu as regras do suspense quando explicou que, mais que criar um mistério que no fim seja revelado com pompa, é preferível tornar o público cúmplice do que se passa, para este ansiar com as reacções dos personagens. É isso que o filme de Stanley Donen faz, senão vejamos. Logo após o mistério ser apresentado, descobrimos que o personagem de Grant está em conluio com os três ladrões. Fica a curiosidade de ver como ele engana Regina. Só que logo depois ela recebe um telefonema avisando que Peter Joshua é Alexander Dyle. Agora ela sabe quem ele é, e nós sabemos que ela sabe, resta saber o que resultará daí. Resulta que a verdade é descoberta, e quando pensamos que estamos seguros, é revelado (a nós e a Regina) que o falecido Carson Dyle não teve irmãos. Voltamos a questionar tudo, e a desconfiar do personagem de Grant, e das suas intenções para com Regina.

É esta a estrutura do enredo, que de mentira em mentira nos vai fazendo desconfiar de tudo, ao mesmo tempo que avança com a morte de cada um dos personagens principais, que depois surgem sempre em pijama, nem que seja afogados no sono!!!, para desespero do cómico e paciente inspector Grandpierre (Jacques Marin). Tudo isto nos chega com um humor fino, hitchcockiano, de diálogos perfeitos e acutilantes como numa screwball comedy, onde cada frase parece ter várias leituras, cheias de humor negro e insinuações sexuais.

Aqui, brilham, como não podia deixar de ser, Audrey Hepburn e Cary Grant, que mesmo fazendo um casal um tanto ou quanto inusitado, funcionam na perfeição. Neles o cinismo das suas posições logo se torna cândido, e o perigo que atravessam, oportunidade para uma reacção de fino humor. Seja verbal seja fisicamente, ambos estão no seu melhor, em papéis que foram aperfeiçoando (ela na pose aristocrata de quem caminha sempre, com inocência e graciosidade, dois palmos acima da terra, ele como o galã capaz de uma classe fria, mas capaz de se auto-parodiar quando menos o esperamos).

Também de modo hitchcockiano, o filme termina numa perseguição apoteótica e emotiva, num cenário que Hitchcock aprovaria (um teatro vazio, como usou nalguns dos seus filmes), com o vilão a morrer numa aparatosa queda. Se mais provas da homenagem ao mestre do suspense forem necessárias, atente-se na cena em que Audrey Hepburn e Cary Grant se beijam repetidamente, enquanto atendem um telefone, numa nítida evocação do famoso beijo de Cary Grant e Ingrid Bergman em “Difamação” (Notorious, 1946).

Destaque ainda para a presença de Walter Matthau, que mesmo nos papéis (supostamente) sérios acrescenta uma camada de comicidade, para a música de Henry Mancini, e para o genérico inovador de Maurice Binder. Pela negativa fica a infeliz escolha da voz que dobra o pequeno actor que interpreta Jean-Louis Gaudet, e que destoa de tudo o que se possa esperar.

O filme recebeu excelentes críticas, e é habitualmente citado em listas de melhores comédias de sempre. Grant e Hepburn foram ambos nominados para os Globos de Ouro, e a canção-tema de Henry Mancini e Johnny Mercer foi nomeada aos Oscars da Academia.

O filme recebeu excelentes críticas, e é habitualmente citado em listas de melhores comédias de sempre. Grant e Hepburn foram ambos nominados para os Globos de Ouro, e a canção-tema de Henry Mancini e Johnny Mercer foi nomeada aos Oscars da Academia.

“Charade” foi alvo de um remake no filme “A Verdade Sobre Charlie” (The Truth About Charlie, 2002) de Jonathan Demme, protagonizado por Mark Wahlberg e Thandie Newton.

Produção:

Título original: Charade; Produção: Stanley Donen Films; Produtor Executivo: Arthur Carroll; País: EUA; Ano: 1963; Duração: 113 minutos; Distribuição: Universal Pictures, J. Arthur Rank Film Distributors (Reino Unido); Estreia: 5 de Dezembro de 1963 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Stanley Donen; Produção: Stanley Donen; Produtor Associado: James H. Ware; Argumento: Peter Stone [a partir de uma história de Peter Stone e Marc Behm]; Música: Henry Mancini; Canção “Charade”: Johnny Mercer (letra), Henry Mancini (Música); Fotografia: Charles Lang [cor por Technicolor]; Montagem: Jim Clark; Direcção Artística: Jean d’Eaubonne; Figurinos: Hubert de Givenchy; Caracterização: Alberto De Rossi, John O’Gorman; Efeitos Especiais: Wally Armitage [não creditado], Brian Gamby [não creditado], Garth Inns [não creditado]; Direcção de Produção: Léopold Schlosberg.

Elenco:

Cary Grant (Peter Joshua), Audrey Hepburn (Regina Lampert), Walter Matthau (Hamilton Bartholomew), James Coburn (Tex Panthollow), George Kennedy (Herman Scobie), Dominique Minot (Sylvie Gaudet), Ned Glass (Leopold W. Gideon), Jacques Marin (Inspector Edouard Grandpierre), Paul Bonifas (Mr. Felix), Thomas Chelimsky (Jean-Louis Gaudet).

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