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Skepp till india landJohannes (Birger Malmsten) é um marinheiro que, após sete anos no mar, volta à Suécia, para procurar Sally (Gertrud Fridh), a mulher que ama. Mas Johannes encontra uma Sally com perturbações mentais, fora de si e irada contra ele. Tal motiva a sua revisita ao passado, sete anos antes quando trabalhava no barco do pai, o despótico capitão Blom (Holger Löwenadler), que tratava Johannes, a sua mãe e os empregados tiranicamente, trazendo inclusivamente a dançarina de cabaré, Sally, como sua amante. Após muita humilhação, e motivado pela sua paixão por Sally, Johannes faz finalmente frente ao pai, e sai para procurar uma carreira sua.

Análise:

Pela terceira vez em três filmes, Ingmar Bergman partia de uma peça de teatro para construir o seu argumento, ele que se consideraria sempre um homem do teatro, mais que do cinema. Esta era “Skepp till India land” do pouco conhecido dramaturgo Martin Söderhjelm.

Trabalhando pela segunda vez com Birger Malmsten, o protagonista do seu anterior “Chove sobre o Nosso Amor” (Det regnar på vår kärlek, 1946), Bergman conta uma história marcada por conflitos familiares e uma tensão criada pela presença despótica de um chefe de família que consegue castrar tudo à sua volta.

Contado em flashback, após um prólogo que nos mostra o reencontro de Johannes (Birger Malmsten) e Sally (Gertrud Fridh), a qual está visivelmente perturbada emocionalmente, ao ponto de ter a sua sanidade em risco, o filme debruça-se sobre os acontecimentos de sete anos antes. Nesse flashback vemos como Johannes, de amor-próprio ferido, por ser corcunda, vive subjugado pelo pai, o despótico capitão Blom (Holger Löwenadler), que o trata com desprezo, o mesmo fazendo com a esposa Alice (Anna Lindahl), e os empregados, no pequeno barco de salvamentos que lhes serve de casa. Para cúmulo da humilhação, Blom, que descobre estar a cegar e quer viver o pouco que lhe resta da sua visão, traz consigo a dançarina de cabaré, Sally, com quem planeia ir viajar pelo mundo.

As tensões são constantes, com Blom a usar o seu carisma, e fraqueza dos familiares, para constantemente os humilhar. Por entre os conflitos, Johannes e Sally acabam por se apaixonar, o que dá a Johannes a força necessária para fazer frente ao pai, e sair para se tornar um marinheiro de pleno direito. Tal mudança na dinâmica familiar apressa a loucura de Blom, que acaba por tentar matar o filho, e destruir o barco, suicidando-se depois. Johannes acaba por viajar pelo mundo durante sete anos, na esperança de um dia voltar e reatar a sua relação com Sally.

Percebe-se em “Um Barco para a Índia” (onde a Índia surge como um destino mítico e um desejo de mudança, um exotismo que nunca se irá atingir) a génese de algo que constituiria o cerne da obra de Bergman, os conflitos inter-pessoais, em relações familiares autofágicas e doentias. Pai e filho confrontam-se (talvez evocando as más relações que Bergman sempre teve com o seu próprio pai) pela afirmação do seu espaço pessoal, confrontam-se por uma mulher (Sally), e confrontam-se na forma de se expressar fisicamente, o pai na sequência do teatro, em que luta com outros, atraindo Sally, o filho por pura força sexual, conquistando Sally depois de quase a violar. No entanto, crueza e falta de subtileza com o que o tema é tratado, e mesmo o final feliz que parece muito forçado, tornam o filme num ensaio ainda muito verde daquilo que estava para vir.

Destaca-se porém a libertação de Bergman em direcção a uma linguagem mais cinematográfica, com a quebra da unidade temporal, presente no uso do flashback, a ausência da divisão clássica em actos claramente definidos, e um maior uso da luz e dos exteriores, num intercalar complexo, e onde não deixam de marcar presença algumas sombras de expressionismo.

Produção:

Título original: Skepp till India land; Produção: Sveriges Folkbiografer; Produtor Executivo: Allan Eklund; País: Suécia; Ano: 1947; Duração: 91 minutos; Distribuição: Nordisk Tonefilm; Estreia: 22 de Setembro de 1947 (Suécia), 14 de Março de 1989 (Cinemateca Portuguesa, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Lorens Marmstedt; Argumento: Ingmar Bergman, [a partir da peça de teatro de Martin Söderhjelm]; Música: Erland von Koch; Fotografia: Göran Strindberg [preto e branco]; Montagem: Tage Holmberg; Design de Produção: P. A. Lundgren.

Elenco:

Holger Löwenadler (Capitão Alexander Blom), Anna Lindahl (Alice Blom), Birger Malmsten (Johannes Blom), Gertrud Fridh (Sally), Naemi Briese (Selma), Hjördis Petterson (Sofi), Lasse Krantz (Hans), Jan Molander (Bertil), Erik Hell (Pekka), Åke Fridell (Dono da Casa de Espectáculos), Douglas Håge (Guarda Alfandegário).

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