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The Children's HourKaren Wright (Audrey Hepburn) e Martha Dobie (Shirley MacLaine) são duas jovens professoras, amigas desde a faculdade, que dirigem uma escola privada para raparigas de famílias abastadas. No entanto uma nuvem ensombra a escola, quando o Dr. Joe Cardin (James Garner), o médico assistente da escola, propõe casamento a Karen, deixando Martha de mau humor. Tal é notado pela sua tia, a dramática ex-actriz Lily Mortar (Miriam Hopkins) que ensina etiqueta e acusa Martha de ser ciumenta. Isto é ouvido pelas alunas, em particular pela maldosa Mary Tilford (Karen Balkin) que distorce o que se passou para convencer a sua avó (Fay Bainter) a tirá-la da escola. O boato de que Karen e Martha são amantes propaga-se, levando ao fecho da escola, e ao desespero das duas amigas.

Análise:

Em 1934, na Broadway, estreava “The Children’s Hour”, uma peça de teatro de Lillian Hellman que, apesar do tema polémico (a discriminação contra a homossexualidade feminina), conseguiu quase 700 apresentações. Ainda assim, Lillian Hellman ficou fora das candidaturas ao prémio Pulitzer. Dois anos mais tarde, o sucesso da peça inspirava o filme “Três Corações Iguais” (These Three, 1936) de William Wyler, com Miriam Hopkins, Merle Oberon nos principais papéis femininos, e um argumento da própria Lillian Hellman. Por representar uma versão demasiado polida da história original, numa Hollywood nos tempos áureos do Código de Hays, William Wyler não desistiu da ideia de um dia a voltar a filmar a história, agora de forma mais fiel à peça original.

Tal veio a acontecer já nos anos 60, com o Código nos seus últimos dias, no filme “A Infame Mentira”, que Wyler filmou a preto e branco, com o apoio da independente The Mirisch Company. O filme contou com as participações de Audrey Hepburn e Shirley MacClaine, em papéis que se diz terem antes sido previamente oferecidos às mais velhas Katharine Hepburn e Ingrid Bergman. Com argumento de John Michael Hayes, era também a segunda vez que Audrey Hepburn trabalhava com Wyler, o realizador que a lançara em “Férias em Roma” (Roman Holiday, 1953). Tanto Hepburn como MacClaine eram actrizes conhecidas pelos seus dotes cómicos, curiosamente ambas tendo seus zénites com o mestre Billy Wilder. Era portanto um risco para ambas as actrizes dar o salto para papéis dramáticos de tal complexidade, e passíveis de gerar anticorpos com um público ainda muito conservador.

“A Infame Mentira” começa como uma história simples de duas amigas, Karen (Audrey Hepburn) e Martha (Shirley MacLaine), que gerem uma escola privada para raparigas. A escola mal paga as despesas, e a juntar ao stress de a gerir, está a presença de Dr. Joe Cardin (James Garner), o médico assistente, que propõe casamento a Karen. Na iminência de ver a amiga partir, Martha perde as estribeiras com a sua tia, a mimada e dramática ex-actriz Lily Mortar (Miriam Hopkins) que ensina etiqueta. Na discussão, Lily acusa a sobrinha de ter uma fixação doentia por Karen, o que é ouvido por algumas das raparigas. Os boatos chegam a Mary Tilford (Karen Balkin), a mais manipuladora e mentirosa das miúdas, que, para escapar à escola, distorce tudo o que viu e ouviu, transformando Karen e Martha em amantes.

Tal leva a avó de Mary, Mrs. Amelia Tilford (Fay Bainter), a retirar a neta da escola, e a levar todos os os outros pais a fazer o mesmo. Com a reputação estragada, e apenas com o apoio de Joe, Karen e Martha resolvem processar Mrs. Tilford por difamação, mas perdem o processo, com a consequência de o caso ganhar dimensão nacional.

Embora Joe fique sempre ao lado das duas amigas, Karen sabe que mesmo ele já teve dúvidas, e com essa sombra no pensamento acaba por quebrar o noivado. Apercebendo-se de que tudo começou no seu comportamento, e assumindo que no fundo sempre amou Karen, Martha não consegue mais viver com a vergonha que sente e suicida-se. Mesmo depois de, após a confissão da amiga de Mary, Rosalie (Veronica Cartwright), que fora chantageada por ela, Mrs. Tilford, percebendo que foram todos enganados pela neta, tente limpar o nome das duas professoras.

Não evitando desta vez os verdadeiros sentimentos de Martha (escondidos no filme de 1936), que aqui vemos como ciumenta, e deitando sempre mais um olhar apaixonado a Karen, nem evitando a difícil cena final de suicídio, o remake de William Wyler ganha um ambiente bem mais negro e polémico que a versão anterior tentara fazer.

Sendo ainda em 1961 um tema do qual não se podia falar abertamente, o filme percorre, no entanto, um equilíbrio instável entre duas ideias. Aquela que hoje, no bem mais liberal século XXI nos saltará à mente, é a da discriminação perante duas mulheres que talvez se pudessem amar. Mas aquela que mais parece interessar a William Wyler e John Michael Hayes é a da difamação por mentira.

Assim, o que está em causa no filme de Wyler nunca é tanto o direito das duas mulheres à sua privacidade, ou à origem dos seus sentimentos. O que conta é fundamentalmente a mentira da pequena Mary (que lhe deveria valer o título de criança mais mal intencionada da história do cinema), e o seu efeito devastador sobre duas mulheres inocentes, numa sociedade fechada. Trata-se quase de um paralelo com o infame caso dos julgamentos de Salém, onde por histeria colectiva, muitas mulheres perderam a vida por algo que hoje não poderia ser crime.

Basta ver como se defendem os personagens. Karen e Martha negam por se tratar de uma infame mentira, que descreve algo que as duas condenariam igualmente, caso o testemunhassem noutras pessoas. Joe defende as duas professoras por se recusar acreditar em tal possibilidade. Karen rejeita Martha (dir-se-ia mesmo com nojo), quando esta lhe confessa que entretanto percebeu que sempre a amou. Finalmente, Martha, não conseguindo conviver com a sua descoberta em relação a si própria, não lhe resta senão o suicídio, que assim deixará Karen viver em paz. E note-se que a própria Karen recusa casar com Joe, pelo medo de que no fundo ele pudesse acreditar que ela alguma vez foi capaz de um gesto homossexual que fosse (ou será que devemos ver nesse gesto almo mais arrojado, como o também Karen se aperceber de nutrir sentimentos por Martha, e queria por isso ficar só com ela?).

Por isso, o que em 1961 pareceu um filme revolucionário, que veio colocar a homossexualidade feminina no léxico dos cinéfilos, hoje parece algo envergonhado, que ajuda a propagar a rejeição da ideia e dos homossexuais, numa história onde o mais importante é desfazer a mentira, e fazer no final pagar (com a própria vida) aquela que caiu em tentação. Mas pode ainda ser defendido que há muito mais nas entrelinhas, pois afinal era através delas que o mais importante tinha que ser dito. Será que devemos ver na quebra do noivado um sinal de que também Karen se apercebera de nutrir sentimentos por Martha, e queria por isso ficar só com ela?

Note-se ainda o pudor como durante a maior parte do filme todas as insinuações e revelações são feitas em surdina. Mary sussurra as acusações ao ouvido da avó porque não as consegue dizer alto (e por isso, não as ouvimos). Karen descobre qual é a acusação quando sai pela porta para a ouvir da boca de um dos pais, ficando nós do lado de dentro, com Martha, sem saber o que se passa. E mais importante, não somos levados ao tribunal, com uma elipse que nos colocar já a jusante do julgamento e veredicto.

O resultado é um filme, que, ainda que deixando transparecer muita ambiguidade quanto ao tema, tem o mérito de provocar e fazer pensar, com ideias certamente inovadoras em Hollywood. Nele está a herança do teatro, de temas pesados, em ambientes fechados, oncisos e claustrofóbicos, deixando de lado acção e espectacularidade, para se centrar no mais importante, os sentimentos das duas protagonistas. E nesse campo Audrey Hepburn e Shirley MacClaine mantêm o filme à altura, com interpretações sérias, mostrando-se tão à vontade no registo melodramático, como antes se mostraram no cómico ou no romântico. Por fim, o filme ganharia imenso se a pequena Mary de Karen Balkin não fosse tão irritantemente exagerada.

Como notas finais, acrescente-se que no papel da tia Lily, Merle Oberon regressava à peça depois de ter sido Karen no filme de 1936. Consta que a outra protagonista, Miriam Hopkins, terá recusado o papel de Mrs. Tilford. Não indicado no filme, mas sim na peça, o livro que as alunas lêem às escondidas e que terá sugerido a Mary a ideia do lesbianismo é “Mademoiselle de Maupin” do francês Théophile Gautier (publicado em 1835).

O filme foi nomeado para cinco Oscars da Academia, e três Globos de Ouro (entre eles um para Shirley MacClaine e para William Wyler) não tendo vencido nenhum desses prémios.

Produção:

Título original: The Children’s Hour; Produção: The Mirisch Company; Produtor Executivo: Walter Mirisch [não creditado]; País: EUA; Ano: 1961; Duração: 108 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 19 de Dezembro de 1961 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: William Wyler; Produção: William Wyler; Produtor Associado: Robert Wyler; Argumento: John Michael Hayes [a partir de uma adaptação de Lillian Hellman baseada na sua própria peça]; Música: Alex North; Fotografia: Franz Planer [preto e branco]; Montagem: Robert Swink; Direcção Artística: Fernando Carrere; Cenários: Edward G. Boyle; Figurinos: Dorothy Jeakins; Caracterização: Emile LaVigne, Frank McCoy; Direcção de Produção: Allen K. Wood.

Elenco:

Audrey Hepburn (Karen Wright), Shirley MacLaine (Martha Dobie), James Garner (Dr. Joe Cardin), Miriam Hopkins (Mrs. Lily Mortar), Fay Bainter (Mrs. Amelia Tilford), Karen Balkin (Mary Tilford), Veronica Cartwright (Rosalie Wells), Mimi Gibson (Evelyn), Debbie Moldow, Diane Mountford, William Mims (Mr. Burton), Sally Brophy (Mãe de Rosalie), Hope Summers (Agatha, Criada de Mrs. Tilford).

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