Etiquetas

, , , , , , , , , ,

Breakfast at Tiffany'sNa Manhattan dos anos 60, Holly Golightly (Audrey Hepburn) é uma acompanhante de luxo, habituada a longas noitadas, festas desregradas e pretendentes ricos. Sem acreditar em relações humanas, Holly vive uma vida demasiado superficial e efémera para se preocupar sequer em decorar o seu apartamento. É por ela que se vai deixar fascinar o novo vizinho, o escritor desinspirado Paul Varjak (George Peppard), mantido por uma patrona rica (Patricia Neal), que descobre o quanto de inocente e frágil existe numa mulher que é uma aparente predadora sem princípios. Resta convencê-la de que é possível amar e acreditar nas relações, o suficiente para lhe dar uma hipótese, ou pelo menos para dar um nome ao gato que com ela vive.

Análise:

Com origem no romance de Truman Capote, publicado em 1958, Blake Edwards realizou, três anos depois, aquela que viria a ser uma das comédias românticas mais populares de Hollywood, e um dos veículos mais eficazes na propagação do mito Audrey Hepburn.

Consta que isso foi fortuito, pois era exigência de Capote que o papel de Holly Golightly fosse para Marilyn Monroe, que declinou por não sentir que fosse bom para a sua imagem interpretar uma prostituta. Audrey Hepburn foi escolhida à revelia de Capote, o mesmo acontecendo com o realizador Blake Edwards, que substituiu o inicialmente escolhido John Frankenheimer a pedido da própria Audrey.

Como o título em português indica, o filme de Blake Edwards fala-nos de uma prostituta de luxo, Holly Golightly (Audrey Hepburn), acompanhante de homens de dinheiro, pronta para os seduzir por mais uma nota, e mais pronta ainda para os abandonar quando eles se tornam chatos. A história começa quando Paul Varjak (George Peppard) se muda para o mesmo prédio, para ser logo seduzido pelo espírito livre e inocente de alguém que leva uma vida tão irresponsavelmente promíscua. Curiosamente, Paul, um escritor em busca de inspiração, é mantido pela amante rica Emily Eustace “2E” Failenson (Patricia Neal), que vai ao ponto de lhe escolher o guarda-roupa e decorar o apartamento, mas mesmo assim não vê semelhanças em ambos, procurando desde o primeiro momento interferir na vida de Holly.

Fascinado, intrigado, surpreso, Paul vai assistindo ao quotidiano de Holly, desde a descoberta de que ela visita um mafioso na cadeia, ou que casou aos 14 anos, tendo fugido do marido muitos anos mais velho, que ainda hoje a quer. Estando ao seu lado, por amizade, Paul vai-se deixar apaixonar por aquela personalidade tão irreverente e cheia de vida, mesmo sabendo que para ela o que conta é quem lhe pode dar o próximo cheque, já que não acredita em mais nada que no dinheiro que recebe pelos seus serviços.

“Boneca de Luxo” tem o condão de nos trazer uma personagem diferente. Superficial, materialista, despegada de qualquer relação emocional que a prive de ganhar mais uma nota de 50 dólares em troca de falsos afectos por patronos em busca de uma aventura passageira, Holly Golightly parece uma vulgar mulher a horas, sem valores nem princípios. Por isso abandonou a família pela cidade, por isso nem dá nome ao seu gato, por isso aceita ser correio de mensagens de um mafioso preso, fingindo serem boletins meteorológicos, por isso não decora a casa, por isso o seu lugar preferido é a joalharia Tiffany, e por isso nem sabe como gasta o dinheiro, ou porque este desaparece.

Mas Holly Golightly é mais que isso. É a mulher que chora pelo irmão distante, que se comove na inquietude indefesa do seu gato, que acredita inocentemente na amizade com um novo vizinho, mesmo que todos os homens sejam «ratazanas», e que se contenta com um olhar para a tal montra da Tiffany para que isso lhe abrilhante o dia, quando tudo parece negro.

É esse misto de inocência e experiência de vida, de uma sexualidade assumida, e ainda assim sincera nos seus gestos, que nos traz à memória a famosa Lulu de G. W. Pabst em “A Boceta de Pandora” (Die Büchse der Pandora, 1929), imortalizada por Louise Brooks, também ela símbolo de liberdade sexual, irreverência contra valores, numa extrema inocência e simplicidade. Nas palavras do seu amigo, e agente de Hollywood, O. J. Berman (Martin Balsam), Holly é falsa, mas é uma falsa genuína, pois acredita no que é. Complexo? Talvez, mas certeiro na descrição da personalidade complexa de Holly Golightly.

E é ao percebermos isso, ao deixarmos de a julgar, como Paul Varjak, que aprendemos sobre a beleza que existe em Holly, a mulher que tem medo de se dar, que tem medo de amar, porque teve sempre de lutar e roubar para ter algo seu, e teve sempre que fugir para não ser enjaulada. Se Paul e nós nos vamos percebendo isso ao longo do filme, Holly percebe-o à chuva, ao perder o gato, e ao recuperá-lo, numa cena em que transfere para o animal aquilo que na verdade ela própria sente, a necessidade de pertencer a algo, e ter quem com ela fique, alguém em quem possa confiar.

E se o personagem é complexo, fascinando-nos pela jovialidade, pela comicidade, pela sua confusão interior, e pela inocência e espontaneidade natural, quem mais que Audrey Hepburn conseguiria vestir a pele de Holly Golightly com tal eficácia? Ao seu lado George Peppard é apenas o chão onde ela caminha, numa interpretação que é alta, mas pisa com delicadeza. A tal acresce uma realização delicada de Blake Edwards, poucas vezes tão devedor das lições da velha Hollywood que começava já a desaparecer. Aqui Edwards, com os duplos sentidos (quer verbais, quer visuais – veja-se como Holly e Paul andam sempre ou a cair na cama um do outro ou a penetrarem pela casa um do outro, ou ajudarem-se um ao outro a vestir), situações de embaraço e graciosidade natural, revela-se como um bom aluno de Billy Wilder.

O filme afasta-se um pouco da personagem de Capote (principalmente devido ao seu desenlace), mas cria uma nova personalidade para Audrey Hepburn, que ficaria para sempre ligada à sua imagem de ecrã. Como se não bastasse, toda a sua imagem, e guarda-roupa (mais uma vez de Guivenchy) ajudariam a aumentar o seu estatuto como ícone de moda internacional.

O resultado foi uma obra muito elogiada pela crítica, como uma das comédias dramáticas mais bem conseguidas de sempre, mesmo que pouco de credível se possa encontrar nos personagens ou situações.

Destaque ainda para a presença de Mickey Rooney (que quase não contracena com ninguém, sendo um filme dentro do filme), como o irascível e cómico vizinho japonês Yunioshi, bem como para o tema musical “Moon River”, escrito especialmente para a voz de Audrey Hepburn, por Henry Mancini e Johnny Mercer.

“Boneca de Luxo” foi nomeado para cinco Oscars, incluindo o de Melhor Actriz. Venceria o de Melhor Banda Sonora Original e de Melhor Canção (Moon River). O filme venceu ainda os Globos de Ouro de Melhor Filme e Melhor Actriz, e Henry Mancini venceu um Grammy pela banda sonora do filme.

Produção:

Título original: Breakfast at Tiffany’s; Produção: Jurow-Shepherd Production; País: EUA; Ano: 1961; Duração: 115 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 5 de Outubro de 1961 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Blake Edwards; Produção: Martin Jurow, Richard Shepherd; Argumento: George Axelrod [a partir do livro homónimo de Truman Capote]; Música: Henry Mancini; Canção ‘Moon River’: John Mercer e Henry Mancini; Fotografia: Franz Planer, Philip H. Lathrop [não creditado] [cor por Technicolor]; Montagem: Howard A. Smith; Direcção Artística: Hal Pereira, Roland Anderson; Cenários: Sam Comer, Ray Moyer; Figurinos: Edith Head, Hubert de Givenchy (Guarda-roupa de Audrey Hepburn), Pauline Trigere (Guarda-roupa de Patricia Neal); Caracterização: Wally Westmore; Efeitos Visuais: John P. Fulton.

Elenco:

Audrey Hepburn (Holly Golightly), George Peppard (Paul Varjak), Patricia Neal (Emily Eustace “2E” Failenson), Buddy Ebsen (Doc Golightly), Martin Balsam (O. J. Berman), José Luis de Vilallonga (José Da Silva Pereira), John McGiver (Vendedor da Tiffany’s), Alan Reed (Sally Tomato), Dorothy Whitney (Mag Wildwood), Beverly Powers [como Miss Beverly Hills] (Stripper), Stanley Adams (Rusty Trawler), Claude Stroud (Sid Arbuck), Elvia Allman (Bibliotecária), Orangey (Gato), Mickey Rooney (Mr. Yunioshi).

Anúncios