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Det regnar på vår kärlekNuma estação de comboios, após perder o seu comboio, com bilhete comprado com as sua últimas coroas, Maggi (Barbro Kollberg) encontra David (Birger Malmsten), o qual está quase sem dinheiro. Combinam em juntar esforços para passar a noite num mesmo quarto, após o que se tornam amantes. Depois caminham junto à linha até uma tempestade os forçar a procurar abrigo. Mas a casa onde entram tem dono (Ludde Gentzel), que os denuncia, para depois hospedar como inquilinos. Maggi e David têm então esperança de conseguir uma vida normal, mas começam a perceber que tudo na sociedade são obstáculos.

Análise:

No seu ano de estreia como realizador, logo após completar “Crise” (Kris, 1946), Ingmar Bergman filmou e estreou uma segunda longa-metragem, “Chove no Nosso Amor”. Mais uma vez com argumento seu, baseado numa peça de teatro (“Bra mennesker”, literalmente “Boas Pessoas”, de Oskar Braaten), Bergman filmou nos arredores de Estocolmo, uma história de um par romântico, de outsiders, que se encontram sozinhos contra o mundo.

Eles são Maggi (Barbro Kollberg) e David (Birger Malmsten), que se encontram fortuitamente numa estação de comboio. Ela gasta as últimas coroas num bilhete que nem sequer é para o destino final, encurtado em função do parco dinheiro. Ele tem apenas 5 coroas, o suficiente para pedir um abrigo no Exército de Salvação, mas que teme não lho dêem se aparecer sozinho e sem bagagem. Explicando o papel da bagagem na credibilização de uma pessoa, David convence Maggi a partilhar um quarto consigo, pois como pretensa família serão aceites sem perguntas. No decorrer da noite acende-se a paixão, e o par decide continuar o caminho em conjunto.

David começa por ir procurar emprego junto de um antigo patrão, sendo quase escorraçado por contas antigas. Caminhando ao longo da linha o casal é colhido por um dilúvio, abrigando-se num velho chalé sem saber que este tem dono. O dono é o sinistro Per Håkansson (Ludde Gentzel), que primeiro os denuncia à polícia, e depois lhes propõe o arrendamento do chalé. Maggi e David decidem então ficar, e ele encontra emprego na estufa do senhor Andersson (Douglas Håge). Pouco tempo depois Håkansson propõe ao casal que compre o chalé, sob pena de os expulsar. Estes acedem, mesmo com Maggi a ter de contar a David que está grávida, já o estava antes de o encontrar, e não quer que ele assuma compromissos sem saber disso. David decide casar com Maggi e comprar o chalé, mas as coisas começam a correr mal. Por problemas burocráticos o casamento fica quase impedido, Maggi dá à luz um nado-morto, e o governo envia a notícia de que o chalé e a zona circundante estão marcados para serem terraplanados para construção de novos bairros.

David agride o funcionário do governo (Gunnar Björnstrand), e é levado a tribunal, onde a vida dissoluta do casal (ele com passado criminoso, ela com um parto suspeito, ambos a viver em pecado) é escalpelizada. Absolvidos, vêem o senhor Håkansson tirar-lhes o chalé, e ficam de novo sem nada, tentando recomeçar a sua vida noutro lugar.

Com a história de um casal que se afirma sozinho contra o mundo da normalidade e da legalidade que teima em tentar sufoca-los, Ingmar Bergman parece quase em território Noir, com anti-heróis bem definidos, e que nunca tenta glorificar. Talvez por isso se vejam algumas sombras do Expressionismo Alemão em “Chove no Nosso Amor”, nomeadamente nas sequências do parto e do tribunal. Esse Noir de amantes em fuga seria reaproveitado dois anos mais tarde no bem mais mediático “Filhos da Noite” (They Live by Night, 1948) de Nicholas Ray.

Em “Chove no Nosso Amor” a atmosfera não é tão evocativa de tragédia anunciada como no filme de Ray, conseguindo aqui e ali trazer alguma luz de boa disposição. E a luz é mesmo a palavra-chave, numa história que começa num desespero de dois jovens perdidos (ela grávida, sem que o saibamos, viajando à deriva com sonhos esfumados. Ele saído da cadeia, sem que o saibamos, e sem projectos), e tem todo o primeiro acto passado de noite, sob uma chuva copiosa.

É com a esperança, que chega no acolhimento pelo pouco confiável senhor Håkansson, que vemos a luz do sol. O casal ganha um lar, emprego, dinheiro, e projectos. Ou como dizem nessa altura, «Antes não tínhamos nada nosso, agora já temos dívidas, como os casais normais.» E é essa confrontação com a normalidade, e com aquilo que é esperado de um casal do seu tempo, que o filme, e os protagonistas terão de medir forças. Revelam-se sempre o elo mais fraco. É isto uma afirmação política de Bergman, insurgindo-se contra o Estado sempre presente e normativo da social-democracia sueca?

No emprego, David sofre com as desconfianças da esposa do patrão que o imagina a roubar tudo. Em casa, o casal é enganado várias vezes por um senhorio traiçoeiro. Quando se tentam casar, são imersos em burocracia que os paralisa, e por fim destituídos da habitação por um estado insensível e desumano. O resultado de todas estas colisões dá-se no tribunal, onde do advogado de acusação ao funcionário do governo, passando pelos actuais e antigos patrões de David, reverendo e funcionário do registo civil, todos parecem atestar que o casal é um perigo para a comunidade e para si próprios.

Surge aí a figura mais enigmática do filme. O homem do guarda-chuva, cujo nome nunca conhecemos, e que víramos já em várias ocasiões a narrar a história (na introdução e a meio do filme), e por duas vezes a interagir com David, aconselhando-o (tanto quando este recebe a notícia da gravidez de Maggi, como quando a visita no hospital), torna-se agora advogado de defesa, argumentando com factos que só nós, público, poderíamos conhecer. Tal torna-o numa figura quase irreal, que no final do filme é tratado pelo casal como anjo, e que podemos imaginar como uma influência da formação teatral de Bergman.

Assim, embora contra tudo e contra todos, David e Maggi mostram que se têm um ao outro, e é esse amor, que lhes vale a tal protecção angelical, e que, mesmo desprovido de meios e dinheiro, mantém a esperança num futuro melhor. É ainda uma palavra de Bergman contra a solidão que parece ser o tema subliminar do filme. É a fuga à solidão que une David e Maggi, e é essa mesma fuga que faz David aceitar a gravidez de Maggi. É ainda a solidão que parece moldar a personalidade enganosa do senhorio, sinal de desumanidade, que trespassa depois para as instituições, que nada parecem entender do calor humano.

Filmando já com mais segurança que no filme de estreia, Bergman arrisca na transição entre interiores e exteriores, variedade de planos, e maior intensidade dramática dos seus protagonistas. Esta começa (como seria imagem de marca da sua carreira) a tornar-se central no desenvolvimento da história. Mesmo que um pouco rudes e pouco polidos, os protagonistas merecem um olhar cândido do autor, que toma partido deles contra o mundo que está a denunciar. É ainda assim uma realização pesada, presa à concepção teatral, com uma câmara que segue os protagonistas como um olhar vindo da audiência.

Era ao mesmo tempo uma tentativa de libertação da estatal Svensk Filmindustri, com a qual Bergman teria para sempre uma relação amor-ódio. O resultado seria elogiado pela crítica de então, que via em Bergman uma nova voz a ter em conta.

Produção:

Título original: Det regnar på vår kärlek [Título em inglês: It Rains on Our Love]; Produção: Sveriges Folkbiografer; País: Suécia; Ano: 1946; Duração: 95 minutos; Distribuição: Nordisk Tonefilm; Estreia: 9 de Novembro de 1946 (Suécia), 13 de Março de 1989 (Cinemateca Portuguesa, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Lorens Marmstedt; Argumento: Herbert Grevenius, Ingmar Bergman [a partir da peça de teatro “Bra mennesker” de Oskar Braaten]; Música: Erland von Koch; Fotografia: Göran Strindberg, Hilding Bladh [preto e branco]; Montagem: Tage Holmberg; Design de Produção: P. A. Lundgren.

Elenco:

Barbro Kollberg (Maggi), Birger Malmsten (David Lindell), Gösta Cederlund (Homem do Guarda-chuva), Ludde Gentzel (Per Håkansson), Douglas Håge (Andersson), Hjördis Petterson (Sra. Andersson), Benkt-Åke Benktsson (O Promotor Público), Sture Ericson (Kängsnöret), Ulf Johansson (Stålvispen), Julia Cæsar (Hanna Ledin), Gunnar Björnstrand (Sr. Purman), Erik Rosén (Juiz), Magnus Kesster (Folke Törnberg, Reparador de Bicicletas), Åke Fridell (Reverendo).

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