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The Nun's StoryEm 1930, na Bélgica, Gabrielle van der Mal (Audrey Hepburn), a filha do Dr. Pascin Van Der Mal (Dean Jagger), decide seguir a vocação de freira, para aplicar os seus conhecimentos de medicina nas missões no Congo Belga. Mas antes disso, Gaby, agora chamada Irmã Luke, terá de aprender as regras de humildade e obediência que guiam as freiras. A sua conduta é uma constante luta entre o orgulho na necessidade de se exceder nos objectivos, e as regras do convento. O contraste torna-se mais óbvio quando, no Congo, o ateu Dr. Fortunati (Peter Finch) lhe explica que a sua vocação científica está travada por regras conventuais sem sentido para um espírito curioso e rebelde. O regresso à Bélgica e a invasão Nazi precipitarão a sua decisão.

Análise:

Filmado na Bélgica, em Itália e na República Democrática do Congo, “A História de Uma Freira” foi a adaptação de Fred Zinnemann, do romance “The Nun’s Story” de Kathryn Hulme, inspirado na história verídica de Marie-Louise Habets. Tratava-se de um tema delicado, lidando com a visão interior da vocação religiosa das freiras católicas, e as questões de fé e obediência atravessadas pela protagonista, que assustou inicialmente Hollywood. Terá sido a chegada de Audrey Hepburn ao projecto, então já uma estrela internacional, que abriu as portas a Zinnemann, o qual escolhera inicialmente Ingrid Bergman, a qual considerando-se muito velha para tal papel, aconselhou Hepburn, que o aceitou sem hesitação, tendo este passado a ser um dos seus filmes preferidos.

Ainda assim, Zinnemann tinha nas mão um filme difícil, sem grande acção, nem acontecimentos marcantes, feito da viagem interior da sua protagonista, através de episódios vulgares sem muito de extraordinário. Mas essa protagonista era Audrey Hepburn, a qual, talvez para surpresa geral, deixava o terreno confortável das comédias românticas e personagens por quem todos nos queremos apaixonar, para encarnar uma freira, num percurso de busca de serenidade, obediência e disciplina.

E é em Audrey Hepburn que “A História de Uma Freira” começa a marcar pontos. Ela é Gabrielle van der Mal, filha do Dr. Pascin Van Der Mal (Dean Jagger), um médico que educara a filha, na Bélgica, como cientista. Futura irmã Luke, Gaby deseja a vida simples de obediência e devoção, em missões africanas onde possa ajudar os desafortunados. Mas se, por um lado, o seu conhecimento científico a tornam a candidata ideal, por outro, as suas superioras detectam nela algum orgulho que decidem que tem primeiro de ser quebrado. Começam aqui as dúvidas da irmã Luke, que cada vez menos compreende a obediência a que é sujeita. A sua questão nunca é de fé ou devoção. A irmã Luke aceita o celibato, observa as regras, aprende a respeitar o silêncio interno, mas não compreende que possa ser preterida apesar das suas qualificações. Esforça-se por ser a melhor, mas isso pode ser entendido como orgulho. Procura agradar a Deus, mas também isso pode ser visto como sinal se superioridade. Procura e aceita as suas penitências, mas até isso pode ser visto como alguma soberba.

As suas dúvidas crescem, sobretudo, quando já em África, priva de perto com o Dr. Fortunati (Peter Finch), um ateu que vê nela uma excelente enfermeira, que não devia deixar que o hábito lhe tolhesse os movimentos que certamente seriam mais úteis ao serviço da medicina. Quando a Irmã Luke começa a entender a sua missão como devendo ser puramente médica, colide com a sua regra de obediência onde o papel da religião (que inclui pausas para orações, mesmo que a meio de uma cirurgia) deve ser prioritário face ao da ajuda aos outros.

Se Audrey Hepburn é o grande trunfo do filme, tal deve-se ao modo sóbrio como compõe a sua irmã Luke. A freira de Audrey Hepburn é discreta, humilde, ávida para aprender as regras do convento, e genuinamente perturbada quando a sua avidez e empenho podem ser confundidos com soberba e falta de humildade. Sem histrionismos ou tiques convencionais, Hepburn marca pela ausência de traços distintivos na sua actuação, impondo-se pelo que não diz ou não mostra, numa interpretação de extremo equilíbrio onde um meio olhar ou sorriso são de uma expressividade crescente, e cada vez mais pungente à medida que o filme progride e as suas dúvidas nos tocam.

Mesmo limando algumas arestas mais cortantes do livro original, Fred Zinnemann dá-nos um retrato respeitoso da regra religiosa, não comentando fé ou devoção daquele corpo religioso, mas não hesitando em mostrar-nos alguns aspectos peculiares que poderão sempre perturbar qualquer mente mais curiosa ou livre como a da irmã Luke permanecia. Com sobriedade e uma fotografia luminosa (e a curiosidade de usar um corpo de ballet para as cenas em que um vasto conjunto de freiras preenche os planos), Zinnemann consegue uma obra onde, quase sem acção, as lutas interiores da sua protagonista estejam sempre em primeiro plano, de uma forma apaixonante.

Ainda assim o filme foi criticado por aqueles que não tentaram aceitar a premissa inicial, questionando-se, ao invés, sobre os porquês da devoção da protagonista, e a improbabilidade de eles próprios poderem viver num mundo tão diferente. Essa não pode ser nunca a questão de Zinnemann, que apenas nos quis mostrar (e conseguiu-o na perfeição), a evolução interior de uma freira, que apesar de uma enorme vontade de pertencer a um mundo diferente do laico, viu no seu espírito crítico, curiosidade e valor científico um obstáculo intransponível.

“A História de Uma Freira” seria nomeado para dez Oscars, incluindo o de Melhor Actriz, Melhor Filme, e Melhor Realizador e Melhor Argumento Adaptado. Não venceria nenhum, mas seria um enorme sucesso de bilheteira.

Curiosidade ainda para o facto de Audrey Hepburn ter preparado o seu papel com a própria Marie-Louise Habets (a antiga freira sobre a qual a história se baseia), de quem se viria a tornar amiga íntima.

Produção:

Título original: The Nun’s Story; Produção: Warner Bros.; País: EUA; Ano: 1959; Duração: 151 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 18 de Junho de 1959 (EUA), 4 de Novembro de 1959 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Fred Zinnemann; Produção: Henry Blanke, Fred Zinnemann [não creditado]; Argumento: Robert Anderson [a partir do livro homónimo de Kathryn Hulme]; Música: Franz Waxman; Fotografia: Franz Planer [cor por Technicolor]; Montagem: Walter Thompson; Direcção Artística: Alexandre Trauner; Cenários: Maurice Barnathan; Figurinos: Marjorie Best; Caracterização: Alberto De Rossi; Direcção de Produção: Chuck Hansen, Julien Derode (Bélgica e Congo), Orazio Tassara (Itália).

Elenco:

Audrey Hepburn (Irmã Luke, Gabrielle van der Mal), Peter Finch (Dr. Fortunati), Edith Evans (Madre Reverenda Emmanuel, Bélgica), Peggy Ashcroft (Madre Reverenda Mathilde, Congo), Dean Jagger (Dr. Pascin Van Der Mal), Mildred Dunnock (Irmã Margharita, Perceptora das Postulantes), Beatrice Straight (Madre Christophe, Sanatório), Patricia Collinge (Irmã William, Professora no Convento), Rosalie Crutchley (Irmã Eleanor), Ruth White (Madre Marcella, Escola de Medicina), Barbara O’Neil (Madre Didyma, Hospital de Guerra), Margaret Phillips (Irmã Pauline, Estudante de Medicina), Patricia Bosworth (Simone, Postulante que Desiste), Colleen Dewhurst (Arcanjo Gabriel, Sanatório), Stephen Murray (Padre Andre, Capelão no Convento), Lionel Jeffries (Dr. Goovaerts, Escola de Medicina Tropical), Niall MacGinnis (Padre Vermeuhlen, Leprosaria), Eva Kotthaus (Irmã Marie, Sanatório), Molly Urquhart (Irmã Augustine, Congo), Dorothy Alison (Irmã Aurelie, Feira Martirizada, Congo), Jeanette Sterke (Louise, Irmã de Gabrielle), Errol John (Illunga, Converso Africano), Diana Lambert (Lisa, Resistência), Orlando Martins (Kalulu, Servo Africano).

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