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Ingmar Bergman nos anos 60

Texto de Jorge Saraiva

Estávamos em 1973 e eu tinha dezasseis anos e não gostava especialmente de cinema. Um dia, a minha irmã e uns amigos levaram-me ao Cinema Pathé, em Lisboa (perto da Praça do Chile) para ver o filme “Lágrimas e Suspiros” de um realizador sueco chamado Ingmar Bergman. Eu que na altura gostava do “Jesus Christ Superstar” e coisas similares, fiquei completamente traumatizado. Só não me vim embora a meio, porque tive vergonha de desagradar às outras pessoas.

Com os anos, comecei a gostar muito de cinema e a refinar as minhas preferências. Mas o trauma do Bergman ficou. Falavam-me muito bem dos seus filmes, mas eu lembrava-me do “Lágrimas e Suspiros” e mantinha a aversão. Andei assim, quase vinte anos, mas a situação incomodava-me. No final da década de 80, a RTP2, na altura em que tinha uma excelente programação de cinema, passou um extenso ciclo de filmes de Bergman. Resolvi, por descargo de consciência, gravá-los em VHS, talvez para um dia os poder ver. E esse dia acabou por chegar.

Tive a sorte de que o primeiro filme que vi dele, foi o genial “Um Verão de Amor” (1951), que Jean-Luc Godard considerava como «o mais belo de todos os filmes». O efeito foi absolutamente devastador. O que eu tinha estado a perder, por pura teimosia! Assaltou-me então a curiosidade de saber qual a imagem de Bergman melhor se encaixava em mim. E comecei a ver os filmes que previdentemente tinha gravado. E o deslumbramento foi total.

Desde essa altura tornei-me um incondicional de Ingmar Bergman. “Lágrimas e Suspiros” foi um dos últimos que (re)vi e, curiosamente, um dos que mais gostei. Percebi que ter ido ver o Lágrimas e Suspiros aos 16 anos foi completamente contraproducente.

Para quem está habituado a ver filmes segundo os padrões restritos da lógica de Hollywood, o cinema de Ingmar Bergman é um desafio. A sua obra pouco tem em comum com o chamado cinema mainstream. Nem nos temas escolhidos, nem na estrutura dos argumentos, nem na direcção dos actores, nem nos ritmos de desenvolvimento dos próprios filmes. O seu cinema é tão profundamente original (embora Bergman tenha reconhecido a influência do realizador do dinamarquês Carl Dreyer na sua obra) que se afirma que ele, só por si, representa todo um pilar do cinema escandinavo em geral e do cinema sueco em geral. Em Bergman não há bons e maus numa visão maniqueísta e estereotipada. Todas as personagens são densas e complexas, plenas de hesitações, dúvidas e contradições; todas as situações e interacções por elas criadas, suscitam profundas reflexões. Bergman não é um cineasta místico (talvez com excepção de “A Fonte da Virgem”). O que lhe interessa é a dimensão antropológica, a reflexão sobre a natureza humana, numa visão que remete para a psicologia e, sobretudo para a Filosofia. A Psicanálise e a filosofia existencialista são influências evidentes. Interessa-lhe em particular o universo feminino, nos seus mistérios e contradições. Grande parte das suas obras, tem personagens femininas como figuras centrais, independentemente das respectivas idades. Para isso serviu-se ao longo da sua extensa carreira, de um naipe de actrizes excepcionais que ele próprio moldou e transformou em verdadeiras musas do cinema europeu. Entre elas, Maj-Britt Nilsson (que o acompanha nos seus primeiros filmes), Harriet Andersson, Bibi Andersson e, sobretudo Liv Ullmann que o acompanhou durante grande parte da sua carreira, sobretudo a partir de “A Máscara” e até “Saraband”, a sua última longa metragem, de 2003. Curiosamente, só em “Sonata de Outono”, conseguiu dirigir a sua compatriota Ingrid Bergman (com quem não tinha nenhuma relação familiar), numa altura em que a actriz já estava no ocaso da sua carreira.

Bergman transformou o cinema numa arte, mais do que num ofício. Uma arte isolada, feita de luzes e sombras. Um cineasta de silêncios entre as palavras. De planos fixos e insistentes, muitas vezes dolorosos, onde as imagens substituem muitas vezes as palavras. E onde os rostos, muitas vezes filmados em grandes planos, expressam toda a complexidade da vida humana.

Para concluir uma lista pessoal dos meus dez filmes favoritos de Ingmar Bergman.
1) Um Verão de Amor – 1951
2) Fanny e Alexandre – 1982
3) Morangos Silvestres – 1957
4) Luz de Inverno – 1963
5) Lágrimas e Suspiros – 1972
6) A Máscara – 1966
7) O Sétimo Selo – 1957
8) Sonata de Outono – 1978
9) O Silêncio – 1963
10) Saraband – 2003

Textos adicionais
A lista de filmes

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