Etiquetas

, , , , , , , , ,

KrisNuma pequena cidade de província onde nada acontece, Ingeborg Johnson (Dagny Lind) é uma professora de piano que vive com a sua filha adoptiva Nelly (Inga Landgré), que acabou de fazer 18 anos. Quem chega entretanto é Jenny (Marianne Löfgren), a verdadeira mãe de Nelly, que a trata por tia, pois aquela nunca esteve presente na sua educação. Com Jenny chega o seu amante mais jovem, Jack (Stig Olin), que tenta logo seduzir Nelly. Esta, fascinada pelo mundo da cidade oferecido por Jenny, e querendo fugir à prisão que sente na proposta do vizinho e veterinário Ulf (Allan Bohlin), segue com Jenny e Jack, para desgosto de Ingeborg, que vê a saúde começar a fugir-lhe.

Análise:

Ingmar Bergman estreou-se no cinema em 1946, com o filme “Crise”. Filho de um pastor luterano (mais tarde capelão do rei), Bergman, confessando-se em problemas com a sua fé, teve sempre neste tema um dos pontos de referência da sua carreira artística. Esta começou ainda na universidade, onde cursou literatura, para se envolver desde logo no teatro, escrevendo peças e participando como assistente de encenação. Aos 24 anos dirigiu a sua primeira peça, e desde o ano anterior (1941) escrevia já para cinema, desde a revisão de argumentos de outros, até à adaptações de sua autoria. Foi em 1945 que a companhia estatal Svensk Filmindustri (SF) o convidou para realizar o seu primeiro filme, sobre, como quase sempre aconteceria na sua carreira, um argumento seu.

“Crise”, adaptado da peça de teatro de Leck Fischer “Moderhjertet” (em português, Coração de Mãe) é hoje considerado uma obra menor do autor sueco, e foi marcado por problemas de juventude, levando à descrença do próprio Bergman. Por isso, a última parte da produção foi supervisionada pela antiga glória do cinema sueco Victor Sjöström, que se tornou um amigo e espécie de mentor para Bergman.

A história, introduzida por um narrador em off, que a apresenta como «quase uma comédia», contrapõe a vida simples, e sem ocorrências, de uma pequena cidade do campo (na idílica Dalarna), à vida apressada e cínica da grande cidade. Nesse confronto, a crise do título tanto pode ser uma crise de valores, como de fé no caminho a trilhar, por que passam todos os personagens, os quais têm a dada altura que rever quem são.

Figura central é a jovem Nelly (Inga Landgré), que tem 18 anos, e vive com a mãe adoptiva, Ingeborg Johnson (Dagny Lind), uma pacata professora de piano, e é cortejada pelo vizinho Ulf (Allan Bohlin), um veterinário de província. O equilíbrio rompe-se com a chegada de Jenny (Marianne Löfgren), a verdadeira mãe de Nelly, que nunca esteve presente na sua educação, e por isso é tratada por tia. Jenny quer levar Nelly consigo para a cidade, prometendo uma vida de animação e luxos. Com Jenny chega Jack (Stig Olin), o seu gigolo, que logo seduz Nelly, que prefere a sua sofisticação e romantismo de cinema, aos modos antiquados de Ulf.

No segundo acto vemos Nelly como assistente do salão de sua mãe, visitada por Ingeborg, agora doente, com poucos anos de vida, e que verifica com os seus olhos, que perante o luxo que tem, Nelly dificilmente voltará. Numa conversa com Jack, Ingeborg constata que ele é narcisista e egocêntrico, que vê Nelly apenas como uma âncora, o que retrata bem a cidade e o que esta fará sobre Nelly. Ao mesmo tempo Ingeborg vive atormentada pela ideia que é no seu próprio bem, e não no de Nelly, que ela pensa, ao querer a filha adoptiva de volta.

Segue-se o terceiro acto, em que Jenny descobre Jack na cama com a filha, e o expulsa de casa. No confronto, Jack denuncia Jenny como vivendo através da juventude dos outros, primeiro a dele, como amante mais novo, e agora a da filha. Saído de casa, e sem projecto de vida, Jack suicida-se. Finalmente, no epílogo, Nelly desgostosa com o que viu na cidade volta a casa, onde é recebida em alegria por Ingeborg, e volta a dar a Ulf esperanças quanto a um casamento, que devolva a ambos a pacatez que é, afinal, a da cidadezinha onde cresceram.

De um modo que evoca o teatro, Bergman conta uma história dividida em actos facilmente definidos pelos espaços e momentos em que se encerram. A acção decorre quase sempre entre quatro paredes (casa de Ingeborg, baile, salão de Jenny, estação de comboios, comboio), com pequenos apontamentos exteriores, apenas para introduzir um tema (planos gerais sobre as duas cidades, como as que abrem e fecham o filme). Excepções são apenas a cena do beijo entre Nelly e Jack, com consequente confronto com Ulf, e por fim a descoberta do corpo de Jack (numa rua filmada em estúdio), curiosamente as duas cenas de transição para Nelly.

Embora filmando ainda com uma técnica limitada (planos bastante convencionais, numa dinâmica um pouco rígida, descobrindo ainda o poder da montagem), Bergman introduz já alguns dos temas que marcarão a sua carreira. Estes são a constante busca interna (com crises de fé – num sentido lato, e não necessariamente religioso), o papel da traição (seja a traição romântica, seja a de valores), e o efeito causado por momentos marcantes como os são a morte e a doença. Fá-lo ainda de um modo muito literal e explícito, levando a que os seus personagens tenham que nos guiar com palavras pelos momentos que atravessam.

Servido de actores competentes, mas em interpretações pouco brilhantes, “Crise” é, por isso, apenas um prólogo para uma extensa carreira, na qual se começavam já a definir alguns dos temas base. O filme passou despercebido do grande público, o que não incomodou Bergman, que queria apenas ganhar experiência, e viria a dizer que, neste ponto, se necessário, até a lista telefónica ele filmaria.

Produção:

Título original: Kris [Título em inglês: Crisis]; Produção: Svensk Filmindustri (SF); Produtores Executivos: Harry Malsted, Ragnar Carlberg; País: Suécia; Ano: 1946; Duração: 93 minutos; Estreia: 26 de Fevereiro de 1946 (Suécia), 13 de Dezembro de 2000 (Cinemateca Portuguesa, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Harald Molander, Victor Sjöström; Argumento: Ingmar Bergman [baseado na peça de teatro Moderhjertet” de Leck Fischer]; Música: Erland von Koch; Fotografia: Gösta Roosling [preto e branco]; Montagem: Oscar Rosander; Design de Produção: Arne Åkermark.

Elenco:

Inga Landgré (Nelly), Stig Olin (Jack), Marianne Löfgren (Jenny), Dagny Lind (Ingeborg Johnsson), Allan Bohlin (Ulf), Ernst Eklund (Tio Edvard), Signe Wirff (Tia Jessie).

Advertisements