Etiquetas

, , , , , , , ,

Green MansionsFugindo de uma revolução em Caracas, que lhe tira tudo o que tem e lhe põe em risco a própria vida, Abel (Anthony Perkins) tem um plano. Vai procurar o ouro mítico da selva amazónica, para poder financiar uma contra-revolução. Abel começa por ser aceite numa tribo índia, por gestos de coragem, para aprender sobre uma selva proibida onde habita um demónio feminino. Pensando que não passa de um embuste para afastar curiosos, Abel vai entrar nessa selva para descobrir Rima (Audrey Hepburn), uma mulher que vive com o avô (Lee J. Cobb) em estado selvagem, pura em relação ao mundo exterior.

Análise:

Mel Ferrer é principalmente conhecido como actor, ligado a figuras de porte aristocrático que desempenhou nos anos 50 e 60 no cinema de Hollywood. Mas Ferrer deixou também uma mão cheia de filmes realizados por si, por vezes a meias com outros realizadores e onde nem sempre foi creditado. Entre os três filmes para cinema em que o seu nome surge como único realizador, destaca-se sobretudo “A Flor que não Morreu”, protagonizado pela sua então esposa, a actriz Audrey Hepburn.

Escrito por Dorothy Kingsley, a partir de um romance de William Henry Hudson, um autor fascinado com mitos de tribos perdidas na selva amazónica, “A Flor que não Morreu” foi filmado nos locais que descreve, isto é, a selva amazónica de Guiana, Venezuela e Colômbia, na qual foi recolhida grande parte dos planos, intercalados depois com os grandes planos dos actores, em estúdio, numa combinação equilibrada e credível.

Pressente-se um certo fascínio de Mel Ferrer pela paisagem natural, que colocará o seu filme praticamente no âmbito do chamado «realismo mágico», que impregna vários elementos da história, e principalmente a sua protagonista, que aqui surge como uma figura que transcende este mundo.

Mas se a personagem de Audrey Hepburn é o mistério que move a história de “A Flor que não Morreu”, essa história é a de Abel (Anthony Perkins), um jovem fugido de Caracas onde ocorreu uma revolução. Com sede de vingança, e raiva por tudo o que perdeu, Abel tem um plano, internar-se na selva em busca do ouro que o ajude a financiar uma contra-revolução. No caminho encontra uma tribo índia que o acolhe pela coragem demonstrada, e lhe fala de uma selva proibida, por nela viver um demónio feminino. Por curiosidade, Abel vai então entrar nessa selva, e descobrir a jovem Rima (Audrey Hepburn) que, juntamente com o avô Nuflo (Lee J. Cobb), vive numa espécie de paraíso terrestre, em total inocência e comunhão com a natureza.

Só que a chegada de Abel vai perturbar o equilíbrio entre avô e neta, com Rima a fazer perguntas sobre o mundo exterior e a descobrir que a terra da sua mãe é ali bem perto. Por isso Abel decide deixá-los, sendo então vítima de Kua-Ko (Henry Silva), o filho do chefe índio, que, para ganhar o respeito do pai, mente acerca de Abel, decidindo matar o demónio feminino que supostamente matara o seu irmão mais velho. Abel consegue fugir, mas não a tempo de salvar Nuflo e Rima da fúria de Kua-Ko e seus guerreiros.

Começando de um modo bem realista, com uma fuga de um tiroteio, a história de “A Flor que não Morreu” é quase que uma viagem de encontro ao citado «realismo mágico», em que cada acto nos afasta cada vez mais do nosso mundo secular, moderno e pragmático. Abel começa por vestir (literalmente) novas roupagens numa visita ao último entreposto antes da selva. Passa depois por rituais iniciáticos que lhe valem o respeito da tribo índia. Vive com eles num progressivo afastamento do mundo seu conhecido. Interna-se na selva, que é verdadeiramente um mundo desconhecido, exótico e mágico. E finalmente conhece Rima, uma mulher que podia ser uma fada, pelo modo como surge, se move, comporta ou pelo panteísmo em que acredita.

Desde a sua entrada na selva, rodeado pelo verde, pela magia da natureza, pela comunhão de Rima com tudo em volta, Abel sente-se transportado para um mundo mágico, que temos dificuldade em saber se é ou não real. E nesse mundo, feito de uma enorme inocência, Abel é confrontado com as crenças de Rima, de um misticismo naturalista (note-se o pânico do avô, quando Rima pede ao espírito da mãe que não o aceite no paraíso), em que fala com a sua mãe, acredita na magia da natureza, e em lendas antigas. Rima é um protótipo do proverbial homem natural, em estado puro, já trazido para a literatura, por exemplo com Tarzan (de Edgar Rice Burroughs) ou Mowgli (de Rudyard Kipling). Em troca, Abel tem para lhe transmitir, esperança acerca da sua ligação com a sociedade, e o conceito de amor.

Mas o precipitar dos acontecimentos, como que uma maldade que entra neste paraíso (seja a cobardia do avô, a incredulidade do próprio Abel, ou a maldade dos índios de Kua-Ko) deitará tudo a perder… ou não. O final fica, curiosamente, em aberto quando, após a suposta morte de Rima, Abel ouve a sua voz. Recordando a lenda da flor que não morre, quer por fim acreditar, e volta a ver Rima que, como um anjo, o chama docemente. Verdade, pura imaginação, ou apenas a prova de que também Abel morreu ao lutar com Kua-Ko e encontra Rima agora no paraíso? Ficará ao critério de cada um.

Com uma história simples, e um ritmo deliberadamente lento e contemplativo, Mel Ferrer quer decididamente envolver-nos no fascínio que sente, quer pela paisagem natural, quer por Audrey Hepburn. Nunca tão diáfana como neste filme, Hepburn (que só surge no filme com 25 minutos decorridos) é, ela própria, uma beleza natural, que escapa ao mundo dos humanos. Com poucos diálogos, impressiona com o olhar, com os seus gestos leves, e com uma presença sempre etérea. Por contraste, Anthony Perkins, um produto do Actors Studio, é visceral e grosseiro, para nos dar um personagem que entendemos como 100% real e com os pés na terra, mas que dificilmente acreditamos como um homem capaz de se deixar fascinar pela natureza mágica do mundo romântico em que mergulha.

Dado o seu material tão incomum, e uma história onde o misticismo excede o drama e a acção, “A Flor que não Morreu” seria um fracasso comercial. Nem mesmo a presença de Hepburn, os cenários luxuriantes, ou a belíssima fotografia de Joseph Ruttenberg o puderam salvar. Tal fracasso cortou pela raiz a ideia de Mel Ferrer de realizar vários outros filmes protagonizados pela esposa.

Como curiosidade refira-se que a banda sonora inclui uma peça original do compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos.

Produção:

Título original: Green Mansions; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1959; Duração: 100 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 19 de Março de 1959 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Mel Ferrer; Produção: Edmund Grainger; Argumento: Dorothy Kingsley [a partir do livro William Henry Hudson]; Música: Bronislau Kaper, Heitor Villa-Lobos, Sidney Cutner [não creditado]; Fotografia: Joseph Ruttenberg [filmado em CinemaScope, cor por Metrocolor]; Montagem: Ferris Webster; Direcção Artística: William A. Horning, E. Preston Ames; Cenários: Henry Grace, Jerry Wunderlich; Figurinos: Dorothy Jeakins; Caracterização: William Tuttle; Efeitos Especiais: A. Arnold Gillespie, Lee LeBlanc, Robert R. Hoag; Efeitos Visuais: Cliff Shirpser; Coreografia da Sequência Marake: Katherine Dunham.

Elenco:

Audrey Hepburn (Rima), Anthony Perkins (Abel), Lee J. Cobb (Nuflo), Sessue Hayakawa (Runi), Henry Silva (Kua-Ko), Nehemiah Persoff (Don Panta), Michael Pate (Padre), Estelle Hemsley (Cla-Cla).

Anúncios