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Love in the AfternoonClaude Chavasse (Maurice Chevalier) é um detective especializado em casos de infidelidade, o que ele trata com tanto profissionalismo como o asco que sente pelo mundo que investiga, e que tenta manter longe da sua filha, a inocente violoncelista Ariane (Audrey Hepburn). Só que, às escondidas, ela lê os relatórios do pai como se fossem romances. É assim que Ariane percebe que a vida do playboy Frank Flannagan (Gary Cooper) está em perigo, acorrendo ao seu hotel para o salvar de um marido ciumento (John McGiver). Mais que agradecer-lhe, Flannagan vê em Ariane mais uma vítima para o seu grande número de conquistas. Só que ela, disposta a impressioná-lo, finge ser também uma conquistadora inveterada sem interesse romântico nos homens que conquista.

Análise:

“Ariane” foi um de três filmes que Billy Wilder estreou em 1957, sendo os outros dois “A Águia Solitária” (The Spirit of St. Louis, 1957) e “Testemunha de Acusação” (Witness for the Prosecution, 1957). Tem sido visto como uma espécie de homenagem ao seu mentor (para quem Wilder trabalhou como argumentista) Ernst Lubitsch, nomeadamente tocando o filme “A Oitava Mulher do Barba Azul” (Bluebeard’s Eighth Wife, 1938), também escrito por Wilder, e também protagonizado por Gary Cooper, que tem algumas semelhanças de enredo com “Ariane”.

Billy Wilder, que é, de certa forma, uma espécie de sucessor de Lubitsch, no que diz respeito à elegância com que filmava o que se convencionou chamar a comédia sofisticada de enredos rebuscados e inteligentes, acrescentou ao toque do mestre a sua acutilância de diálogos e uma subversão quase subliminar, presente de modo provocante. É o caso deste “Ariane”, na sua primeira colaboração com I. A. L. Diamond, que passa pela construção de um personagem feminino que elabora para si uma reputação de predadora sexual.

Com base na dupla Cooper-Hepburn, Wilder conta a história simples de Frank Flannagan (Gary Cooper), um playboy que usa as suas inúmeras viagens de negócios para viver relações amorosas ilícitas, como a que envolve a Madame X (Lise Bourdin), casada com Monsieur X (John McGiver, na sua estreia em cinema), que procura um detective privado para descobrir o que faz a esposa na sua ausência. O detective é Claude Chavasse (Maurice Chevalier, um actor que trabalhara também várias vezes com Lubitsch), que descobre a relação amorosa, o que leva o marido traído a ir matar o playboy. Só que, ouvindo tudo, a romântica e inocente Ariane Chavasse (Audrey Hepburn), filha do detective, decide avisar Flannagan. No processo passa ela a ser vítima da conquista do playboy. Só que para se sentir ao seu nível, também Ariane pretende ter uma história de dezenas de conquistas fugazes, em relações que para ela são apenas físicas. Provando do seu próprio veneno, Flannagan começa a sentir cada vez mais ciúmes, acabando ele próprio por contratar Chavasse, que vem explicar toda a história.

Com a subversão termos uma rapariga que cria a reputação de ter no seu passado duas dezenas de conquistas passadas, nas quais os homens eram usados para seu prazer puramente físico, Wilder inverte a lógica masculina, numa história de amor e adultério. Se um Gary Cooper libertino seria algo normal, o interesse deste por uma Audrey Hepburn predadora era já um passo arriscado, que só Wilder, com a sua inteligência e humor subtil, conseguia levar a bom porto. Há depois todo o imaginário voyeurista de portas e janelas, histórias de conquista sexual, e claro, a presença do detective que tudo observa e fotografa, narrando mesmo em voz off, num sinal de omnisciência que guiará a própria conclusão da história.

São muitos os momentos que insinuam as relações sexuais tidas no Hotel Ritz, por exemplo com Ariane a procurar os sapatos após um encontro, na tradicional saída dos ciganos após “Fascination”, ou na recorrente linha «… hits the spot», aplicada a Flannagan por piada à frase de então da Pepsi-Cola, que seria uma empresa sua. Com medo dessas implicações, foi posteriormente acrescentada a linha (não falada no filme, mas dobrada com Flannagan de costas), quando o playboy vai a casa do detective «I can’t get to first base with her», assegurando que Ariane continuava virgem.

Seja nas narrações em off de Chevalier, nas réplicas argutas da jovem Ariane, no desespero de Flannagan, ou no rocambolesco de algumas situações como a presença perene dos ciganos, ou nos equívocos de Monsieur X, é sempre um humor fino que guia os diálogos e o evoluir do enredo, mesmo que saibamos estar a caminhar um percurso que só pode levar a tristeza e corações partidos. Aceitamo-lo como um prova de crescimento da rapariga que nunca antes amou, e que no seu romantismo ingénuo lia os relatórios do pai sobre casos sórdidos, como se de romances se tratasse.

Novamente, Audrey Hepburn era emparelhada com um homem muito mais velho (28 anos neste caso), depois de Humphey Bogart em “Sabrina” (1954), também de Wilder, e de Fred Astaire no supracitado “Cinderela em Paris”, o que causa alguma perplexidade quanto ao realismo da história. Fora, aliás, essa a razão que levara Cary Grant (por sinal mais novo que Cooper) a rejeitar o papel. Os receios eram fundados, pois foi mesmo essa diferença de idades a causa da menor aceitação por parte do público e crítica, tornando o filme num relativo fracasso.

Não obstante, hoje “Ariane” é considerado uma das obras maiores de Billy Wilder, exemplo do seu bom gosto narrativo, diálogos inteligentes e situações elegantemente provocantes. Obviamente muito disto apenas funciona devido à presença de Audrey Hepburn, que compõe uma Ariane ao mesmo tempo frágil e aventureira, romântica e dominadora, elegantemente graciosa e sempre cativante, perante um Gary Cooper com algumas dificuldades em expressar mais que o seu fascínio e surpresa, porventura genuínos perante o magnetismo da jovem actriz.

Produção:

Título original: Love in the Afternoon; Produção: Billy Wilder Productions; País: EUA; Ano: 1957; Duração: 130 minutos; Distribuição: Allied Artists Pictures (EUA), Les Artistes Associés (França), United Artists (RFA); Estreia: 29 de Maio de 1957 (França), 19 de Novembro de 1958 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Billy Wilder; Produção: Billy Wilder; Produtor Associado: William Schorr, Doane Harrison, Lee Katz [não creditado]; Argumento: Billy Wilder, I. A. L. Diamond [a partir do livro “Ariane, jeune fille russe” de Claude Anet]; Música: F. D. Marchetti, Maurice de Feraudy, Henri Betti, Andre Hornez, Charles Trenet, Matty Malneck; Adaptação Musical: Franz Waxman; Fotografia: William C. Mellor [preto e branco]; Montagem: Léonide Azar, Chester W. Schaeffer [não creditado]; Direcção Artística: Alexandre Trauner; Cenários: Oliver Emert [não creditado]; Figurinos: Jay A. Morley Jr. [não creditado], Hubert de Givenchy [não creditado]; Caracterização: John G. Holden [não creditado]; Direcção de Produção: Edward Dodds [não creditado].

Elenco:

Gary Cooper (Frank Flannagan), Audrey Hepburn (Ariane Chavasse), Maurice Chevalier (Claude Chavasse), John McGiver (Monsieur X), Van Doude (Michel), Lise Bourdin (Madame X), Olga Valéry (Hóspede do Hotel com um Cão), Os Ciganos (Os Próprios).

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