Etiquetas

, , , , , , , , , ,

Jo Stockton (Audrey Hepburn) é uma jovem empregada de uma livraria, intelectual, e estudiosa da obra do filósofo francês Emile Flostre (Michel Auclair), que um dia vê a sua loja ser invadida pelo staff da revista de moda Quality, dirigida por Maggie Prescott (Kay Thompson). O objectivo é fazer uma sessão fotográfica, em cujo processo a loja fica virada do avesso. Para traz, a ajudar Jo, fica o fotógrafo Dick Avery (Fred Astaire), que logo se convence que Jo é a mulher ideal para a capa da revista. Após convencer Maggie disto, basta convencer Jo a ir com eles a Paris para desfiles de moda, usando a ideia de lhe possibilitar encontrar conhecer Emile Flostre. Mas quando Jo conhece Flostre, que logo a tenta conquistar romanticamente, Dick percebe que tem ciúmes.

Análise:

Em 1957 Audrey Hepburn participaria no seu primeiro musical. Então já com direito a nome no topo do cartaz, Hepburn foi mesmo motivo para convencer Fred Astaire a fazer este filme para a Paramount, ao mesmo tempo que era a presença da lenda dos musicais que convencia Hepburn a desejar o filme. Ao que consta, mesmo não sendo primeira escolha (o realizador Stanley Donen teria preferido Cyd Charisse), Hepburn tudo fez para garantir o papel, incluindo desistir da possível presença em “Gigi” (1958) de Vincente Minnelli.

Com cenários reais filmados nas ruas de Paris, a produção decorreu ao mesmo tempo que Audrey Hepburn filmava (também em Paris) o seu filme seguinte, “Ariane” (Love in the Afternoon, 1957) de Billy Wilder. Era ainda uma forma de a actriz estar próxima do seu marido, Mel Ferrer, que filmava “Helena e os Homens” (Elena et les hommes, 1956) de Jean Renoir, contracenando com Ingrid Bergman. “Cinderela em Paris” ficou ainda notado por utilizar muitos técnicos da MGM (a grande especialista em musicais românticos), logo desde o produtor Roger Edens, o realizador Stanley Donen, associado a algumas das grandes obras daquela casa, particularmente na sua associação com Gene Kelly, e claro pela presença de Fred Astaire, que também coreografou as sequências musicais. Para muitos isto faz de “Cinderela em Paris” mais um musical da MGM, mesmo que com a chancela da Paramount.

O filme é adaptado do musical da Broadway “Wedding Bells” de Leonard Gershe, que também escreveu o argumento. Existe habitualmente alguma confusão comparando-o com um anterior “Funny Face” (1935) de Busby Berkeley, também adaptado de um musical da Broadway, no qual Fred Astaire participou, mas que nada tem a ver com a história de Gershe. Para complicar ainda mais, ambas as produções partilham algumas das canções.

“Cinderela em Paris” conta-nos a história de Jo Stockton (Audrey Hepburn), uma jovem empregada de uma livraria, de ideais fortes, que se dedica a cultivar o seu espírito e a estudar a obra do filósofo francês Emile Flostre (Michel Auclair). Avesso a isso é o mundo da moda, e da revista Quality, dirigida por Maggie Prescott (Kay Thompson), que um dia irrompe pela livraria, sem autorização, para a usar como pano de fundo de uma sessão fotográfica. Quem vem com ela é o fotógrafo Dick Avery (Fred Astaire), que desde logo percebe que Jo tem mais potencial que qualquer modelo profissional da revista. Depois de convencer tanto a direcção da revista, como Jo, que quer muito conhecer Emile Flostre, Dick consegue levar Jo para Paris, onde deverá ser motivo da apresentação da nova colecção do designer Paul Duval (Robert Flemyng). Mas quando Jo conhece Flostre, Dick percebe que tem ciúmes, e por entre o conflito de agendas, a nostalgia que Jo já sente por ter de voltar à sua vida normal e a ameaça de Flostre que afinal é um vulgar conquistador, Dick e Jo percebem que se amam.

Alicerçado em canções de George e Ira Gershwin, e com diversas cenas cantadas e dançadas (ora por Hepburn, ora por Astaire, ora por Thompson, às vezes em duo ou em trio) “Cinderela em Paris” começa por surpreender ao vermos que Audrey Hepburn também dança e canta. Se a sua voz não é dada a grandes prodígios (mas bem vistas as coisas, nem a de Fred Astaire é), o seu corpo de bailarina traz-nos uma surpreendente agilidade em sequências de dança moderna, que contrastam com os pas-de-deux feitos de elegância subtil com Fred Astaire.

Àparte a música e a coreografia, “Cinderela em Paris” é uma normal comédia romântica, em que passamos por todos os lugares comuns: homem e mulher encontram-se e colidem; algo os leva a aproximar; há uma velada consciência de que ambos sentem uma atracção pelo outro; surgem obstáculos (neste caso a presença de Flostre); e finalmente há a conclusão óbvia com o casal a reunir-se.

No caso do filme de Donen, temos alguns factores difíceis de digerir quanto ao argumento. Por um lado partirmos de Audrey Hepburn como um proverbial patinho feio, que a muito esforço se torna uma modelo, quando todos vemos nela algo que só os personagens parecem não ver. Por outro a química entre Hepburn e Astaire (embora ambos estejam no seu melhor) não resulta, e o facto de Astaire ser 30 anos mais velho que Hepburn não ajuda a convencer o público do arrebatamento da sua relação.

Mais ainda, pode-se argumentar que a grade falácia que tolda o filme está na própria personalidade de Jo. A personagem de Hepburn começa como uma mulher de ideias fortes, intelectual, que preza a cultura e crescimento pessoal, desprezando o mundo fútil da aparência e da moda. Nesse sentido, o contrastante mundo da revista Quality é satirizado na imbecilidade dos seus modelos, ou no modo desrespeitador com que Maggie e o seu staff atropelam Jo e os seus livros por duas vezes. Mas basta uma ida a Paris e algumas passagens de modelos, para que as coisas mudem. Jo parece fascinada pela sua descoberta de feminilidade, e aos poucos torna-se a mulher que todos os homens (principalmente o personagem de Fred Astaire) gostariam que ela se tornasse. É após completar essa transformação e abdicar das pretensões intelectuais (onde o filósofo francês não é mais que um Don Juan de segunda), que o casal se pode unir. No ar fica a ideia de que afinal a sátira foi à mulher independente e intelectual, que a ordem natural das coisas conseguiu que se transformasse em mais uma ávida leitora de revistas de moda. O que mudou na vida de Jo para que essa transformação ocorresse? Simplesmente encontrou o amor, numa visão perfeitamente machista do mundo, onde nenhum homem pode ter comportamentos que não tenham por base a conquista barata.

Pelos factores mencionados antes, apesar das bonitas sequências em Paris, e do humor e elegância de Audrey Hepburn, que surpreende a cantar e dançar, “Cinderela em Paris” está longe de ser muito inovador ou criativo, quer como comédia romântica, quer como musical. O filme passou relativamente despercebido perante o público até que, em 1964, quando Audrey Hepburn interpretou o fabuloso musical “Minha Linda Lady” (My Fair Lady) de George Cukor, o filme de Donen ganhou uma segunda vida.

Não obstante as críticas, “Cinderela em Paris” recebeu quatro nomeações para os Oscars (Argumento Original, Guarda-roupa, Fotografia e Direcção Artística), alem disso, Stanley Donen foi nomeado pela Directors Guild of America e para uma Palma de Ouro em Cannes, e Leonard Gershe foi nomeado pela Writers Guild of America.

Finalmente, o filme foi mais uma peça no firmar da imagem icónica de Audrey Hepburn, quer pela sua silhueta esguia vestida de negro na sua sequência de dança, quer pelas fotos estilizadas na qual o seu rosto é apresentado à revista no início do filme.

Produção:

Título original: Funny Face; Produção: Paramount Pictures; País: EUA; Ano: 1957; Duração: 103 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 13 de Fevereiro de 1957 (EUA), 25 de Dezembro de 1957 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Stanley Donen; Produção: Roger Edens; Argumento: Leonard Gershe; Música e Letras: George e Ira Gershwin; Música e Letras Adicionais: Roger Edens, Leonard Gershe; Direcção Musical: Adolph Deutsch; Orquestração: Conrad Salinger, Van Cleave, Alexander Courage, Skip Martin; Fotografia: Ray June [filmado em VistaVision, cor por Technicolor]; Montagem: Frank Bracht; Direcção Artística: Hal Pereira, George W. Davis; Cenários: Sam Comer, Ray Moyer; Figurinos: Edith Head, Hubert de Givenchy [vestidos de Audrey Hepburn]; Caracterização: Wally Westmore; Coreografia: Eugene Loring, Fred Astaire; Efeitos Visuais: John P. Fulton; Direcção de Produção: Frank Caffey [não creditado].

Elenco:

Audrey Hepburn (Jo Stockton), Fred Astaire (Dick Avery), Kay Thompson (Maggie Prescott), Michel Auclair (Prof. Emile Flostre), Robert Flemyng (Paul Duval), Dovima (Marion), Suzy Parker (Bailarina – Think Pink), Sunny Hartnett (Bailarina – Think Pink Number), Jean Del Val (Cabeleireira), Virginia Gibson (Babs), Sue England (Laura), Ruta Lee (Lettie), Alex Gerry (Dovitch), Iphigenie Castiglioni (Armande).

Anúncios