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ScroogedFrank Cross (Bill Murray) é um executivo de televisão, a preparar a programação da noite de Natal, que, para desagrado dos seus colaboradores, é fria de valores clássicos, e cheia de sensasionalismo. Tal oposição vale mesmo o despedimento de um dos seus colaboradores (Bobcat Goldthwait), ao mesmo tempo que Frank trata com indiferença a sua paciente secretária (Alfre Woodard), que é quem trata das suas prendas de natal. Tudo muda com a visita de três fantasmas de Natal, que o levarão a natais passados, presente e futuros, para lhe mostrar o quanto alienou relações humanas, nomeadamente Claire (Karen Allen), a mulher que sempre amou e nunca quis compreender.

Análise:

Um dos reis da comédia dos anos 80, Bill Murray viu em 1988 o filme “SOS Fantasmas” servir como mais um veículo da sua forma peculiar de humor histriónico, que ele desenvolvia desde os velhos tempos da série televisiva “Saturday Night Live”. Com um título português que nada tem a ver com o original, e tenta apenas lembrar-nos que estamos na presença do protagonista de “Os Caça-Fantasmas” (Ghost Busters, 1984) de Ivan Reitman, outra comédia emblemática da mesma década, é afinal uma versão moderna do clássico conto de Dickens “A Christmas Carol”, conto que neste filme é várias vezes mencionado como se se chamasse “Scrooge”.

Realizado por Richard Donner, um realizador que se destacava por filmes de acção e aventura, como os dois filmes da série “Arma Mortífera” (Lethal Weapon, 1987 e 1989) que realizou imediatamente antes e depois este filme de Natal, não se estranha por isso que “SOS Fantasmas” seja dominado pela velocidade, a do argumento, a da acção e claro a da prosódia de Bill Murray.

E é sobre Murray que se centra toda a história, que é a de um Scrooge moderno, no mundo da televisão. Ele é Frank Cross, o presidente de uma estação televisiva que, na febre pelo seu trabalho, deixou sempre de lado as relações humanas, seja a ex-namorada Claire (Karen Allen), ou o irmão Earl (Brian Doyle-Murray, irmão real de Bill Murray). Apenas com os olhos nos índices de audiências, Frank esqueceu já qualquer humanidade, e por isso não conhece os problemas da sua fiel secretária Grace (Alfre Woodard), e é capaz de despedir o assistente Elliot (Bobcat Goldthwait) na véspera de Natal.

É então que, tal como no conto de Dickens que ele vai produzir ao vivo na noite de Natal, Frank começa a ser visitado por espíritos. Primeiro o do seu ex-colega Lew Hayward (John Forsythe) que lhe anuncia três fantasmas que lhe mostrarão Natais passados, presente e futuros. De modo bem violento e histérico, Frank vai sendo levado por episódios do seu passado por um taxista psicótico (David Johansen), assiste ao que se passa em casa de Grace e do seu irmão, guiado por uma violenta fada (Carol Kane) e testemunha a sua própria cremação, guiado pela personagem da Morte.

O resultado é a completa transformação de Frank, que recupera a antiga namorada Claire, re-contrata Elliot, é fundamental para a recuperação da saúde do filho de Grace, e acima de tudo, muda completamente a noite de Natal de todos aqueles que ele obrigara a ficar a trabalhar na emissão em directo. O filme termina com um discurso histérico e emotivo de Frank, de auto-penitência e sobre a beleza do Natal e a necessidade de todos nos reencontrarmos nas relações humanas tantas vezes negligenciadas.

É, no fundo, a história de Dickens, mas neste caso em vez da avareza pelo dinheiro e trabalho, temos o mundo acelerado dos tempos modernos, o frenesim da televisão e de tudo o que é plástico e superficial, em detrimento das relações humanas e valores tradicionais. Frank Cross representa assim o homem moderno, desligado do espírito natalício que trocou por valores materiais, sem tempo para cultivar os lentos prazeres, e as relações longas, ou compreender sequer o significado de humanidade, por obsessão com a velocidade de uma carreira e do aplauso de quem nem conhece.

Tudo isto é-nos veiculado por um Bill Murray que começa em histeria (com os seus subalternos), passa por várias fases de paranóia e desespero (nas mãos dos fantasmas), para acabar num enorme histrionismo (perante os seus empregados e toda a audiência). O filme é, por isso, Bill Murray, com os seus ritmos e maneirismos a dominar cada cena, misturando humor e exagero.

Há já nele algo que faz lembrar o futuro “O Feitiço do Tempo” (Groundhog Day, 1993) de Harold Ramis (ele próprio um dos Caça-Fantasmas), onde um Bill Murray mais polido também tem de passar por várias experiências fantásticas que o tornarão um ser humano mais decente, naquela que foi uma das comédias românticas mais populares dos anos 80.

“SOS Fantasmas” é, ainda hoje, um filme que provoca reacções díspares, desde aqueles que elogiam o ritmo e reinvenção da história, aos que acusam Bill Murray de passar para além do bom gosto, numa interpretação exagerada. Tornou-se ainda assim um dos marcos na carreira cómica do actor, e um símbolo dos anos 80, que capta na perfeição.

Produção:

Título original: Scrooged; Produção: Paramount Pictures / Mirage Productions; Produtor Executivo: Stephen J. Roth; País: EUA; Ano: 1988; Duração: 101 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 23 de Novembro de 1988 (EUA), 23 de Dezembro de 1988 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Richard Donner; Produção: Richard Donner, Art Linson; Produtor Associado: Jennie Lew Tugend; Co-Produção: Raymond Hartwick; Argumento: Mitch Glazer, Michael O’Donoghue [inspirado pelo conto “A Christmas Carol” de Charles Dickens]; Música: Danny Elfman; Orquestração: Steve Bartek; Fotografia: Michael Chapman [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Montagem: Fredric Steinkamp, William Steinkamp; Design de Produção: J. Michael Riva; Direcção Artística: Virginia L. Randolph; Cenários: Linda DeScenna; Figurinos: Wayne A. Finkelman; Caracterização: Bari Dreiband-Burman, Thomas R. Burman; Efeitos Especiais: Allen L. Hall; Efeitos Visuais: Eric Brevig; Direcção de Produção: Raymond Hartwick.

Elenco:

Bill Murray (Frank Cross), Karen Allen (Claire Phillips), John Forsythe (Lew Hayward), John Glover (Brice Cummings), Bobcat Goldthwait (Eliot Loudermilk), David Johansen (Ghost of Christmas Past), Carol Kane (Ghost of Christmas Present), Robert Mitchum (Preston Rhinelander), Nicholas Phillips (Calvin Cooley), Michael J. Pollard (Herman), Alfre Woodard (Grace Cooley), Mabel King (Gramma), John Murray (James Cross), Jamie Farr (Jacob Marley), Robert Goulet (Robert Goulet), Buddy Hackett (Scrooge), John Houseman (John Houseman), Lee Majors (Lee Majors), Pat McCormick (Ghost of Christmas Present – TV), Brian Doyle-Murray (Earl Cross), Mary Lou Retton (Mary Lou Retton).

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