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The Bishop's WifeHenry Brougham (David Niven) é um bispo preocupado em angariar fundos para a construção de uma catedral, o que, em vésperas de Natal, lhe deixa pouco tempo para a esposa Julia (Loretta Young) e a filha Debby (Karolyn Grimes). Como resposta a uma das suas preces, surge Dudley (Cary Grant), que se apresenta como um anjo, que vem ajudar o bispo. Mas para desagrado do bispo, Dudley passa o tempo a divertir-se com a sua esposa e filha, levando-o a pensar no quanto tem negligenciado a família em função dos seus projectos.

 

Análise:

O então independente Samuel Goldwyn (O “G” da MGM) produziu em 1947 o filme natalício “O Mensageiro do Céu”, veículo para mais uma interpretação carismática de Cary Grant, aqui numa realização de Henry Koster.

Ao contrário da inocência da história, a produção do filme foi um mar de problemas, com elenco e equipa técnica a serem completamente remodelados a meio. Tudo começou como um projecto de William A. Seiter para David Niven, Dana Andrews e Teresa Wright, mas o resultado levou ao despedimento do realizador. Trazido Henry Koster, este não se mostrou satisfeito com o argumento de Robert E. Sherwood e Leonardo Bercovici. Goldwyn conseguiu então que os reputadíssimos Billy Wilder e Charles Brackett remodelassem o argumento, mesmo sem serem creditados. Entretanto a gravidez de Teresa Wright retirou-a do filme. Para o seu lugar, Goldwyn obteve Loretta Young, mas por troca com Dana Andrews. Este foi, por sua vez, substituído por Cary Grant, o que levaria à troca do seu papel com o inicialmente atribuído a David Niven (o anjo).

Nada dessa confusão transparece no resultado final, que é uma história coesa e filmada com rigor, com diálogos deliciosos, e situações comoventes, mostrando-nos uma ideia bem concisa, o quanto, para atingirmos os fins que julgamos necessários, nos esquecemos que é nas coisas simples que a nossa acção mais conta, e a maior felicidade reside.

Essa lição chega-nos, em vésperas de Natal, quando o bispo episcopaliano Henry Brougham (David Niven) tenta angariar fundos para a construção de uma ansiada catedral, mas não consegue vencer a oposição dos seus mecenas, que têm ideias egoístas, como dedicar capelas aos seus entes queridos. Neste processo, Henry, foi-se desligando dos amigos, como o professor Wutheridge (Monty Woolley), e mesmo das tarefas familiares, como brincar com a filha Debby (Karolyn Grimes), ou acompanhar a esposa Julia (Loretta Young) a um restaurante, compras de Natal, ou um simples passeio pela cidade.

Desesperado, o bispo reza por ajuda, e surge-lhe o estranho anjo Dudley (Cary Grant). Dudley não é o que se poderia esperar de um anjo. É mordaz, manipulador, sem muito respeito por aqueles que ajuda. Dir-se-ia que a sua ajuda é mais indesejada que desejada, como cedo o percebe o incrédulo bispo, que não entende como pode Dudley ajudá-lo nalguma coisa. Mas o charme de Dudley é inegável (ou não fosse ele Cary Grant em toda a sua classe), e por onde passa todos cativa e todas derrete. Inclusivamente a esposa do bispo, que começa a acompanhar para todo o lado, devido aos constantes cancelamentos do marido.

Seja na visita a uma igreja para ouvir um coro, num almoço num restaurante especial, ou numa fuga para patinar no gelo, Dudley espalha o bom humor, trazendo de volta alegria onde antes havia tristeza, preocupação e ansiedade. Claro que aos poucos o próprio bispo vai sentida ameaçada a sua posição, quer junto da família, quer dos paroquianos, com a principal mecenas a ceder nas exigências depois de uma visita de Dudley. Mas claro, tudo termina em bem, com os intentos conseguidos, o anjo recolocado, e os Brougham reunidos, agora que as coisas importantes do dia a dia lhes foram tão claramente recordadas.

Vivendo quase totalmente da presença espirituosa de Cary Grant e do seu anjo tão charmoso quanto petulante, “O Mensageiro do Céu” lembra um pouco “Do Céu Caiu uma Estrela” (It’s a Wonderful Life, 1946) de Frank Capra, também com um anjo (sem asas) a vir à terra ajudar um ser humano. Mas o filme de Koster introduz um outro elemento, o da ambiguidade do próprio anjo. De facto, tal como ao bispo, custa-nos um pouco a perceber se o anjo o está a ajudar, mesmo que por linhas tortas, ou terá ele caído na tentação de ter uma vida normal, feita desses tais pequenos momentos de alegria e espontaneidade que tantas vezes menosprezamos. Como se ao ver aquilo que não lhe é permitido, o anjo se sentisse com maior legitimidade para o valorizar, desejar e, porque não, viver.

Mesmo com Dudley a assumir essa tentação, no final sabe quando sair de cena, com os seus assuntos resolvidos, mas deixando-nos o amargo de boca de sentir que algo no filme ficou por resolver.

“O Mensageiro do Céu” foi nomeado para cinco Oscars, incluindo os de Melhor Filme e Melhor Realizador, tendo vencido apenas o do Melhor Som. Embora não tenha pago as despesas de uma produção longa e com tantos percalços, o filme tornou-se um clássico de Natal, sendo várias vezes adaptado à rádio, inclusivamente com a presença de Cary Grant e Loretta Young. Em 1996 foi a vez do remake “Espírito do Desejo” (The Preacher’s Wife) de Penny Marshall, com Denzel Washington, Whitney Houston e Courtney B. Vance.

Produção:

Título original: The Bishop’s Wife; Produção: The Samuel Goldwyn Company; País: EUA; Ano: 1947; Duração: 110 minutos; Distribuição: RKO Radio Pictures; Estreia: 9 de Dezembro de 1947 (EUA), 23 de Dezembro de 1948 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Henry Koster; Produção: Samuel Goldwyn; Argumento: Robert E. Sherwood, Leonardo Bercovici, Billy Wilder [não creditado], Charles Brackett [não creditado] [baseado no livro homónimo de Robert Nathan]; Música: Hugo Friedhofer; Orquestração: Jerome Moross; Direcção Musical: Emil Newman; Fotografia: Gregg Toland [preto e branco]; Montagem: Monica Collingwood; Direcção Artística: George Jenkins, Perry Ferguson; Cenários: Julia Heron; Figurinos: Irene Sharaff, Adrian [não creditado]; Caracterização: Robert Stephanoff; Efeitos Especiais: Harry Redmond Jr. [não creditado]; Efeitos Visuais: John P. Fulton; Direcção de Produção: Raoul Pagel [não creditado].

Elenco:

Cary Grant (Dudley), Loretta Young (Julia Brougham), David Niven (Henry Brougham), Monty Woolley (Professor Wutheridge), James Gleason (Sylvester), Gladys Cooper (Mrs. Hamilton), Elsa Lanchester (Matilda), The Mitchell Boyschoir, Sara Haden (Mildred Cassaway), Karolyn Grimes (Debby Brougham), Tito Vuolo (Maggenti), Regis Toomey (Mr. Miller), Sarah Edwards (Mrs. Duffy), Margaret McWade (Miss Trumbull), Anne O’Neal (Mrs. Ward), Ben Erway (Mr. Perry), Erville Alderson (Stevens).

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