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War and PeaceEm 1812 Napoleão domina grande parte da Europa. O seu objectivo seguinte é conquistar a Rússia. Nas tropas russas preparadas para combater estão o Príncipe Andrei Bolkonsky (Mel Ferrer) e o conde Nicholas Rostov (Jeremy Brett), e quem fica para trás é o conde Pierre Bezukhov (Henry Fonda), um pacifista, amigo de ambos. Os anos avançam e Pierre casa com a bela, mas promíscua, Princesa Helene (Anita Ekberg), enquanto Pierre vê a esposa morrer durante o parto. Mais tarde Pierre encontra um ainda enlutado Andrei e leva-o para casa dos Rostov, onde este se apaixona pela jovem condessa Natasha Rostov (Audrey Hepburn). Mas esse amor não será bem sucedido, pois Natasha deixa-se seduzir pelo aventureiro príncipe Anatol Kuragin (Vittorio Gassman). Enquanto isso, Napoleão (Herbert Lom) está cada vez mais próximo de Moscovo.

Análise:

Em 1956 a Paramount juntou forças com os italianos Carlo Ponti e Dino De Laurentiis para a hercúlea tarefa de passar ao cinema a famosa obra de Tolstoi, “Guerra e Paz”. Era mais um exemplo da chamada fase “Hollywood no Tibre”, durante a qual (particularmente na década de 1950) os grandes estúdios de Hollywood moveram equipas para Roma, para filmar na Cinecittà, aproveitando recursos, técnicos e actores secundários locais, para grandes produções a mais baixo custo do que fariam nos Estados Unidos. O próprio elenco era multinacional, com americanos (Henry Fonda, Mel Ferrer), britânicos (Audrey Hepburn, Jeremy Brett, Herbert Lom, Barry Jones), italianos (Vittorio Gassman, Milly Vitale), as suecas Anita Egkberg e May-Britt (ambas com as vozes dobradas) e o austríaco Oskar Homolka.

O realizador escolhido foi King Vidor, um dos pioneiros de Hollywood, conhecido pelo realismo trazido pelas suas primeiras obras, e temas de grande fôlego no explorar das emoções humanas. Depois de alguns westerns de sucesso nos anos 40, Vidor lançava-se numa super-produção, que seria o seu penúltimo filme.

Passar uma obra como “Guerra e Paz” ao cinema era, como se adivinha, um enorme risco, e a espelhá-lo está o número de argumentistas que contribuíram para o projecto, num guião que passou por várias versões e transformações. Muitas foram as cedências para condensar uma história tão rica e ramificada. O filme concentra-se em Andrei, Pierre e Natasha, quase esquecendo os outros personagens, quando não contribuem para a história deste trio. Os comentários históricos de Tolstoi, bem como personagens históricos e várias batalhas são omitidos, permanecendo apenas as figuras de Napoleão e Kutuzov. Finalmente a acção centra-se em poucos espaços de Moscovo e S. Petersburgo, omitindo quase todas as cenas passadas noutros locais.

O que fica, como dito, é a história de três personagens. De um lado o conde Pierre Bezukhov (Henry Fonda), pouco entusiasmado com a guerra, e preocupado com o estado do seu pai adoptivo, e o facto de nunca ter sido reconhecido. Pierre frequenta a casa dos Rostov, onde sente grande empatia pela jovem Natasha (Audrey Hepburn). A morte do seu pai resulta numa herança milionária, e Pierre sente a necessidade de casar, o que faz com a bela princesa Helene Kuragina (Anita Ekberg), irmã do seu amigo, o príncipe Anatol Kuragin (Vittorio Gassman). Só que Pierre percebe que, nas suas ausências no campo, a mulher o trai, e acabam por se separar. Ao mesmo tempo, o príncipe Andrei Bolkonsky (Mel Ferrer) luta, por dever, e porque o seu pai assim o espera. Andrei é ferido e salvo pelo próprio Napoleão, mas ao voltar a casa descobre que a esposa morreu de parto. É ainda em luto que mais tarde reencontra Pierre e este o leva a conhecer os Rostov. Andrei apaixona-se por Natasha, e os dois ficam prometidos em noivado, decidindo esperar um ano, já que o pai dele não aprova o casamento. Entretanto Natasha, uma jovem com verdadeiro gosto pela vida, conhece o príncipe Anatol Kuragin, que a tenta conquistar. Natasha termina então o noivado com Andrei, mas é salva de erros maiores por Pierre que sabe do passado de Anatol, e o impele a deixar Natasha em paz.

No campo militar as tropas de Napoleão avançam, e Pierre decide ver como é a guerra, ficando dilacerado com tanto horror e tragédia. No regresso, Pierre descobre que toda a Moscovo se prepara para fugir, e reencontra os Rostov. Estes abdicam de levar as suas posses, para terem mais espaço para soldados feridos. Entre estes está Pierre, ferido mortalmente, que Natasha vela até ao último momento. Com o Inverno, Napolão é forçado a partir, e as tropas de Kutuzov dão-lhe caça expulsando-o de vez da Rússia. As pessoas voltam então a casa, e uma Natasha mais madura escolhe agora Pierre para seu companheiro.

Mesmo em três horas e vinte minutos, seria impossível contar a história de Tolstoi em todas as suas camadas de narrativa, comentário, retrato social, dramas humanos e eventos históricos. King Vidor tenta-o e, embora conseguindo um filme fluido e com uma certa elegância na grandiosidade escolhida, sente-se que fica aquém do objectivo. Para mais, era também traído por algumas opções de elenco. Henry Fonda, apesar de toda a sua competência não é uma escolha certa, e a sua avançada idade (tinha 51 anos, representando um personagem de vinte e poucos), e retira alguma credibilidade à sua personagem. Mesmo o facto de Audrey Hepburn interpretar uma jovem que no início deveria ter 13 anos, não ajuda a compreender a passagem do tempo, maturação dos personagens e algumas opções tomadas.

Centrando-se no trio citado, o filme perde um pouco a perspectiva geral, custando-nos perceber porque as histórias não avançam, quando de facto isso acontece pelo entrelaçamento com que Tolstoi nos pretendia assoberbar, algo que no filme não existe. Contrapondo esses dramas pessoais (sempre de classe alta – como o próprio Tolstoi, – e por isso um pouco distantes de entender numa história onde a guerra deverá atingir todos) encontra-se o pano de fundo histórico. Este está demasiadas vezes ausente, com o papel de Napoleão (Herbert Lom) a ser quase anedótico, e o de Kutuzov (Oskar Homolka) a restringir-se a alguns discursos empolgados, como que comentários ao avançar da guerra. Até à sequência da batalha de Borodino não se vê qualquer acção militar, e a sobreposição dos dois mundos (drama pessoal e fundo histórico) parece forçado, resultando num filme muito disjunto.

Fica a descoberta da maturidade (Natasha), as várias formas de encarar a guerra e o dever para com a pátria (do entusiasta Nicholas ao leal Andrei, passando pelo pacifista Pierre), a atitude perante família e vicissitudes (visível nas comparações entre os fechados Bolkonsky e os alegres Rostov), a falta de lealdade para com a sociedade (os dissolutos irmãos Kuragin), e as lutas pessoas de Andrei e Pierre para chegarem às suas felicidades, algo que Mel Ferrer (na sua habitual pose aristocrática) consegue encarnar perfeitamente, mas que Henry Fonda parece ter dificuldades em nos transmitir.

Uma última palavra para Audrey Hepburn. Depois dos surpreendentes sucessos de “Férias em Roma” (Roman Holiday 1953) de William Wyler, e de “Sabrina” (1954) de Billy Wilder, tornou-se a mais bem paga actriz de Hollywood. No seu novo filme Hepburn tem um papel diferente dos anteriores, a que traz a sua jovialidade, irreverência e elegância, sendo por isso uma das mais valias do filme.

“Guerra e Paz” recebeu as nomeações aos Oscars de Melhor Realizador, Melhor Fotografia e Melhor Guarda-roupa.

Produção:

Título original: War and Peace; Produção: Ponti-De Laurentiis Cinematografica / Paramount Pictures; Produtor Executivo: Carlo Ponti [não creditado]; País: EUA / Itália; Ano: 1956; Duração: 200 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 21 de Agosto de 1956 (EUA), 14 de Março de 1957 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: King Vidor; Produção: Dino De Laurentiis; Argumento: Bridget Boland, Robert Westerby, King Vidor, Mario Camerini, Ennio De Concini, Ivo Perilli, Gian Gaspare Napolitano [não creditado], Mario Soldati [não creditado] [a partir do livro homónimo de Léo Tolstoi]; Música: Nino Rota; Direcção Musical: Franco Ferrara; Fotografia: Jack Cardiff, Aldo Tonti [Segunda Equipa] [filmado em VistaVision, cor por Technicolor]; Montagem: Stuart Gilmore; Direcção Artística: Mario Chiari; Cenários: Piero Gherardi; Figurinos: Maria De Matteis, Giulio Ferrari [não creditado]; Caracterização: Alberto De Rossi; Efeitos Especiais: Costel Grozea [não creditado]; Direcção de Produção: Bruno Todini.

Elenco:

Audrey Hepburn (Natasha Rostova), Henry Fonda (Pierre Bezukhov), Mel Ferrer (Príncipe Andrei Bolkonsky), Vittorio Gassman (Anatol Kuragin), Herbert Lom (Napoleão), Oskar Homolka (General Kutuzov), Anita Ekberg (Princesa Helene Kuragina), Helmut Dantine (Dolokhov), Tullio Carminati (Príncipe Vasili Kuragin), Barry Jones (Príncipe Mikhail Andreevich Rostov), Milly Vitale (Lisa Bolkonskaya), Lea Seidl (Condessa Rostov), Anna Maria Ferrero (Maria Bolkonskaya), Wilfrid Lawson (Príncipe Bolkonsky), May Britt (Sonia Rostova), Jeremy Brett (Nicholas Rostov), Patrick Crean (Denisov), Sean Barrett (Petya Rostov), Gertrude Flynn (Mariya Peronskaya), John Mills (Platon Karataev).

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