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History of the World Part INuma série de episódios distintos, Mel Brooks traz-nos a história do mundo numa série versões muito singulares. Desde a pré-história, com a descoberta da pintura, e da música, passando pela verdadeira história dos Dez Mandamentos, e a episódios passados no Império Romano, a um lado desconhecido da Última Ceia de Cristo, até chegarmos à Idade Média com um olhar diferente e musical para a Inquisição Espanhola de Torquemada, chegando finalmente aos acontecimentos da corte de Luis XVI, envolvendo um seu duplo (Brooks) nas vésperas da Revolução Francesa.

Análise:

“Uma Louca História do Mundo” é o filme de Mel Brooks que, para além da realização, argumento e produção do próprio, funciona como a estreia da Brooksfilms. Nunca antes Brooks teve um tal controlo sobre os seus filmes, agora que era já um nome de peso na comédia cinematográfica, com uma voz própria e estilo inconfundível.

Abdicando, desta vez, da escrita em colaboração, que marcara os filmes anteriores, Brooks compilou uma série de episódios diferentes, para constituir aquilo a que se chamou uma história do mundo em jeito de paródia absurda. Era um pouco o entrar no território habitualmente explorado pelos Monty Python, com sketches isolados, um humor tanto visual como verbal, e o recurso ao absurdo em proporções anárquicas.

Tal evidencia-se logo desde as primeiras sequências, dedicadas à pré-história, e protagonizadas pelos personagens de Sid Caesar, que nos mostra como a pintura rupestre levou ao nascimento dos primeiros críticos e como a música surgiu acidentalmente, devido aos gritos de dor. Passando por um gag em que Moisés (Brooks) apresenta os Dez Mandamentos ao povo hebreu, por ter partido a pedra onde estavam os outros cinco, passamos à sequência mais longa, a do Império Romano.

Nesta, Comicus (Mel Brooks) é um comediante que terá uma oportunidade junto do imperador (Dom DeLuise), para a estragar com piadas políticas. Juntamente com o seu agente Swiftus (Ron Carey) o escravo Josephus (Gregory Hines na sua estreia no cinema) e a vestal Miriam (Mary-Margaret Humes, também estreante), terão de fugir aos romanos, ajudados pela impreratriz Nympho (Madeline Kahn). Depois de peripécias como o desmascarar de Josephus junto dos eunucos, o quarteto vai fugir para Judeia (com ajuda inusitada de Moisés), onde acaba por participar na Última Ceia de Cristo, onde Jesus é interpretado por John Hurt.

Segue-se uma sequência musical onde Mel Brooks é Torquemada, dançando e cantando a Inquisição Espanhola nas masmorras, com uma sequência aquática a lembrar as rotinas popularizadas por Esther Williams. Passa-se por fim à sequência final, durante a Revolução Francesa, onde Mel Brooks é Luís XVI, um rei que usa o poder para assediar todas as mulheres em torno. É o Conde De Monet (Harvey Korman), adjuvado pelo efeminado Béarnaise (Andreas Voutsinas), quem se apercebe da situação perigosa, e aconselha a que o rei tome um duplo, o moço das mijas (também Mel Brooks). Este é colhido pela revolução, liderada pela Madame Defarge (Cloris Leachman), quando salvava Monsieur Rimbaud (Spike Mulligan), o pai de uma das conquistas do rei (Pamela Stephenson). Mas quando a guilhotina parece o fim inevitável, eis que surge Josephus, da sequência do Império Romano, e salva todos os nossos heróis.

O filme termina com um preview do que seria a suposta parte 2, com excertos “Hitler on Ice”, um “Funeral Viking” e a saga espacial musical “Jews in Space”.

Como dito atrás, não é difícil encontrar em “Uma Louca História do Mundo” ligações ao universo dos Monty Python, tanto no tema (a paródia de momentos históricos) como na forma (os sketches isolados, com gags visuais, e absurdos). A distinção está obviamente, na personalidade de Mel Brooks, tanto na sua forma peculiar de actuar, como nas constantes e corrosivas referências aos judeus (sendo ele próprio judeu), numa ridicularização tanto de clicés como do anti-semitismo, e claro, o seu gosto pela stand-up comedy (cenas perante o imperador romano) e o musical da Broadway (como na sequência da Inquisição espanhola, e algumas cenas soltas, como as protagonizadas por Gregory Hines). Curiosamente o final absurdo em que personagens de um tempo histórico interagem com outros, lembra um pouco o final anárquico e imprevisto de “Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado” (Monty Python and the Holy Grail, 1975).

Com uma paródia anárquica que não conhece limites, quer nas formas como nos conteúdos provocantes, Brooks mostra estar cheio de boas ideias, mas nem sempre as consegue levar a bom termo. Se é verdade que o seu humor pode facilmente cair em extremos de duvidoso mau gosto, por abuso de linguagem desgaste de fórmulas previsíveis, se até então Brooks tinha conseguido quase sempre manter-se à tona, em “Uma Louca História do Mundo” nota-se como se lhe tornou tão fácil cair no óbvio e num humor bastante juvenil. Tal acontece com as constantes piadas de cariz sexual e trocadilhos previsíveis.

Ainda assim, destaca-se pela positiva toda a produção cuidada, design bem conseguido, e as interpretações de alguns dos seus actores regulares como Sid Caesar, Dom DeLuise, Harvey Korman, Andreas Voutsinas e Cloris Leachman, que fazem o melhor possível com o material que têm. A isto juntam-se inúmeros detalhes inspirados, como a frase que se tornou popular deste então “It’s good to be the King!”

O filme é narrado em tom solene por Orson Welles, e usa a música de modo jocoso, como é o facto de usar o tema de “2001” (“Also Spracht Zarathrustra” de Richard Strauss) na sequência inicial, e música similar à de “Star Wars” (1977) durante os créditos iniciais e finais.>

A fraca recepção de “Uma Louca História do Mundo” terá sido a razão que levou Brooks ao maior hiato na sua carreira, voltando a trazer um filme seu aos ecrãs apenas seis anos mais tarde.

Produção:

Título original: History of the World, Part I; Produção: Brooksfilms; País: EUA; Ano: 1981; Duração: 92 minutos; Distribuição: Twentieth Century-Fox Film Corporation; Estreia: 12 de Junho de 1981 (EUA), 22 de Fevereiro de 1982 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Mel Brooks; Produção: Mel Brooks; Produtor Associado: Stuart Cornfeld, Alan Johnson; Co-Produção: Joel Chernoff [não creditado]; Argumento: Mel Brooks; Música: John Morris; Orquestração: Jack Hayes, Ralph Burns [sequência da Inquisição Espanhola]; Fotografia: Woody Omens, Paul Wilson [sequência da Revolução Francesa] [filmado em Panavision, cor por DeLuxe]; Montagem: John C. Howard; Design de Produção: Harold Michelson, Stuart Craig [sequência da Revolução Francesa]; Direcção Artística: Norman Newberry, Bob Cartwright [sequência da Revolução Francesa]; Cenários: Antony Mondello, Harry Cordwell [sequência da Revolução Francesa]; Figurinos: Patricia Norris; Caracterização: Robert Norin, Jill Carpenter [sequência da Revolução Francesa]; Coreografia: Alan Johnson; Efeitos Especiais: Phil Cory; Efeitos Visuais: Albert Whitlock; Direcção de Produção: Ralph S. Singleton, Alexander De Grunwald [sequência da Revolução Francesa].

Elenco:

Mel Brooks (Moisés / Comicus / Torquemada / Jacques / Rei Luís XVI), Dom DeLuise (Imperador Nero), Madeline Kahn (Imperatriz Nympho), Harvey Korman (Conde de Monet), Cloris Leachman (Madame Defarge), Ron Carey (Swiftus), Gregory Hines (Josephus), Pamela Stephenson (Mademoiselle Rimbaud), Shecky Greene (Marcus Vindictus), Sid Caesar (Homem das Cavernas Principal), Mary-Margaret Humes (Miriam), Orson Welles (Voz do Narrador), Rudy De Luca (Homem Pré-histórico / Capitão Mucus), Howard Morris (Arauto da Corte Romana), Charlie Callas (Adivinho), Fritz Feld (Dono da Estalagem da Última Ceia), John Hurt (Jesus Cristo), Art Metrano (Leonardo Da Vinci), Andreas Voutsinas (Bernaise), Spike Mulligan (Monsieur Rimbaud).

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