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SabrinaSabrina Fairchild (Audrey Hepburn) é a jovem filha do motorista dos Larrabee (John Williams), uma família riquíssima, da aristocracia de Long Island. Habituada a observar de longe, as festas luxuosas dos Larrabee, Sabrina sonha participar nelas como par do galã e playboy David Larrabee (William Holden), por quem está secretamente apaixonada. Na tentativa de evitar males maiores, Fairchild manda Sabrina estudar culinária em Paris, onde ela amadurece, voltando mais sofisticada. Ao chegar é foco da atenção de David que agora se apaixona por ela, pondo em perigo um casamento marcado para bem das Larrabee Industries. É então que o irmão mais velho, Linus (Humphrey Bogart) tem de intervir, cortejando ele Sabrina para lhe desviar as atenções, mas correndo ele próprio o risco de se apaixonar.

Análise:

“Sabrina” é hoje conhecido como o filme em que Audrey Hepburn deu a conhecer ao mundo os sapatos que têm agora o nome da sua personagem. Mas antes de o ser, era o segundo filme protagonizado pela estrela em ascensão, e uma das muitas comédias ligeiras de sucesso de um dos maiores realizadores de sempre, Billy Wilder.

Escrito, produzido e realizado por Wilder para a Paramount Pictures, a partir da peça de teatro “Sabrina Fair” de Samuel A. Taylor (o qual também participou na escrita do argumento), “Sabrina” é um conto de fadas moderno, uma Cinderella de Long Island, com tudo aquilo que hoje podemos chamar os lugares comuns da comédia romântica, que passam pelos habituais desencontros entre pessoas divididas, quer por questões de classe, idade (neste caso as duas), casamentos prévios, ou quaisquer afiliações (familiares, políticas, religiosas, étnicas) que as coloquem em campos separados.

Começando com narração em off da própria Sabrina (Audrey Hepburn), as primeiras palavras que ouvimos são «Once upon a time…» (Era uma vez). É o atestado deliberado de que estamos no campo das lendas, mesmo que tudo na história seja o mais real e contemporâneo possível. Daí passa-se à narração exaustiva do que representa a família Larrabee, e percebemos que estamos perante a realeza de um país republicano, os príncipes da finança e indústria que se rodeiam de uma corte aristocrática, que alimentam nas suas festas de sonho.

É numa dessas festas que o filme começa e que percebemos que a jovem e sonhadora (e podemos dizer juvenil) Sabrina imagina poder nelas participar, ao lado de David Larrabee (William Holden), a sua paixão desde a infância, um playboy que trata os casamentos (já ficaram três para trás), como os carros que conduz a alta velocidade: como brinquedos. Ciente do que essas ilusões podem trazer, Fairchild (John Williams), o motorista da família, e pai de Sabrina, envia a filha para Paris, onde ela aprenderá culinária, mas mais que isso, vai aprender o que é crescer e saber viver a sua vida.

É uma Sabrina madura e sofisticada que regressa anos depois, para ser ela agora o motivo do interesse de David, disposto a abandonar o noivado feito em prole dos negócios da família, para viver a nova paixão. Entra em cena Linus (Humphrey Bogart), o irmão mais velho de David, e que aparentemente sempre viveu para as empresas, sem um pingo de emoção na sua vida. É intenção de Linus cortejar Sabrina (após um cómico acidente que deixa David em convalescença em casa), e assim baralhá-la, fazendo-a acreditar que devem fugir os dois juntos para Paris, mas abandonando-a quando o barco parte. Mas se por um lado Linus consegue, ao mostrar que tem um lado humano, conquistar Sabrina, por outro, inesperadamente deixa-se apaixonar por ela, o que vem contrariar os seus planos.

E assim, o que noutras mãos poderia ser uma tentativa desconjuntada de criar um conto de fadas moderno, nas mãos de Billy Wilder resulta numa história belíssima, sempre interessante e comovente. Não espanta, sabendo que estamos perante um dos melhores argumentistas da era dourada de Hollywood, que sabia dar vida a cada diálogo e criatividade a cada momento como poucos. Wilder beneficia ainda de um elenco excelente, mesmo que Bogart tivesse detestado trabalhar com Hepburn (a quem chamava inexperiente) e Holden (que considerava irresponsável), e tivesse tentado trazer a bordo a sua esposa Lauren Bacall. Ele, que fora último recurso, depois da desistência de Cary Grant é, ainda que com grande profissionalismo, talvez o elo mais fraco, num personagem que não lhe pertence, e que talvez não convença como possível interesse amoroso da jovem Sabrina.

Esquecendo isso, o que temos é uma história comovente de um coming-of-age, onde o fulcro é o crescimento de Sabrina, de sonhos pueris (as festas) a realidades mais maduras (a natureza do amor e dos sentimentos). É um crescimento que fica marcado pela sofisticação da aprendizagem e contacto com outras culturas (Paris), e por fim com a transferência do seu afecto entre dois irmãos que não podiam ser mais diametralmente opostos, David representando o lado juvenil (a emoção, a irresponsabilidade, a inconstância), e Linus o adulto (a razão, a ponderação, a constância). Nesse sentido o filme é um caminhar, através de uma série de ritos de passagem (de um suicídio falhado e quase cómico, passando por um simbólico corte de cabelo, culminando na primeira vez que a vemos cozinhar, agora já por amor de um homem).

Mas mais que os factores individuais da história, “Sabrina” é feito das interpretações dos seus actores principais, e sobretudo de Audrey Hepburn, cândida, comovente, suave, subtil, e sempre graciosa, quer na alegria, quer na tristeza. Ao seu lado Bogart e Holden (que no processo se apaixonou por ela) são os seus escudeiros, aqueles que lhe dão chão para que brilhe, ainda que o personagem de Bogart acabe por ser o mais preponderante do trio, isto é, aquele cujas mudanças internas e decisões vão guiar a conclusão do enredo.

A isto junta-se o humor fino de Wilder, e as situações são tantas que é impossível enumerar todas. Na memória fica o gag dos copos no bolso de David, as fugas para fumar e lutas por uma azeitona do Larrabee sénior (Walter Hampden), o professor de culinária em Paris (Marcel Hillaire), entre tantas outras, sempre com diálogos acutilantes, onde sentimos que cada palavra está no sítio perfeito, e mudá-la seria sempre piorar o diálogo.

O resultado é, claro, uma das comédias românticas mais perfeitas da história de Hollywood, e mais um marco na carreira de Audrey Hepburn que, ainda sem o nome como cabeça de cartaz, afirmava-se aos 25 anos como uma mais brilhantes estrelas do cinema do seu tempo.

Destaque final para os vestidos produzidos para Hepburn pelo famoso designer Hubert de Givenchy, que se tornaria um amigo da actriz, passando a desenhar para ela durante o resto da sua carreira, e ajudando assim a que a actriz se viesse a tornar um ícone da moda.

“Sabrina” foi nomeado para seis Oscars, incluindo Melhor Realizador, Actriz e Argumento. Viria a ganhar apenas o de Melhor Guarda-roupa, atribuído à creditada Edith Head. O filme foi alvo de um remake em 1995, realizado por Sydney Pollack, com o mesmo nome e seguindo de muito perto a versão de Billy Wilder. Nele, Sabrina foi interpretada por Julia Ormond, David por Greg Kinnear, e Linus por Harrison Ford.

Como curiosidade note-se como a peça “The Seven Yar Itch” é nomeada duas vezes durante o filme. Ela seria o motivo do filme seguinte de Billy Wilder, “O Pecado Mora ao Lado”, uma das imagens de marca de Marilyn Monroe.

Produção:

Título original: Sabrina; Produção: Paramount Pictures; País: EUA; Ano: 1954; Duração: 109 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 9 de Setembro de 1954 (Londres, Inglaterra), 19 de Novembro de 1954 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Billy Wilder; Produção: Billy Wilder; Argumento: Billy Wilder, Samuel A. Taylor, Ernest Lehman [a partir da peça “Sabrina Fair” de Samuel A. Taylor]; Adaptação Musical: Friedrich Hollaender; Orquestração: Van Cleave [não creditado]; Fotografia: Charles Lang [preto e branco]; Montagem: Arthur P. Schmidt; Direcção Artística: Hal Pereira, Walter H. Tyler; Cenários: Sam Comer, Ray Moyer; Figurinos: Edith Head, Hubert de Givenchy [não creditado]; Caracterização: Wally Westmore; Efeitos Especiais: John P. Fulton.

Elenco:

Humphrey Bogart (Linus Larrabee), Audrey Hepburn (Sabrina Fairchild), William Holden (David Larrabee), Walter Hampden (Oliver Larrabee), John Williams (Thomas Fairchild), Martha Hyer (Elizabeth Tyson), Joan Vohs (Gretchen Van Horn), Marcel Dalio (Barão St. Fontanel), Marcel Hillaire (O Professor), Nella Walker (Maude Larrabee), Francis X. Bushman (Mr. Tyson), Ellen Corby (Miss McCardle).

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