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High AnxietyO Dr. Richard Thorndyke (Mel Brooks) é apontado novo director do Instituto Psiconeurótico para os Muito Muito Nervosos, depois da morte em condições estranhas do anterior director. Cedo Thorndyke percebe que o Dr. Charles Montague (Harvey Korman) e a enfermeira Diesel (Cloris Leachman) dirigem o instituto com intuitos menos nobres, e ressentem a sua nomeação. Quanto mais investiga, mais o Dr. Thorndyke encontra casos suspeitos, como o internamento do milionário Arthur Brisbane. Quando a filha do milionário, Victoria (Madeline Kahn), procura a ajuda de Thorndyke para deslindar o caso, a vida dele passa a estar em perigo.

Análise:

Depois de vários filmes a parodiar géneros clássicos de Hollywood, Mel Brooks decidiu no seu novo filme “Alta Ansiedade”, escrito exactamente pela mesma equipa que escrevera o anterior “A Última Loucura” (Silent Movie, 1977), e pela primeira vez produzido por si próprio, parodiar mais que um género, um realizador, Alfred Hitchcock, a quem o filme é explicitamente dedicado.

O argumento de “Alta Ansiedade” tem muitos paralelos com o de “A Casa Encantada” (Spellbound, 1946) de Hitchcock, protagonizado por Gregory Peck e Ingrid Bergman, onde aquele vai dirigir um instituto psiquiátrico após a morte do anterior director, chegando com amnésia, e vítima de estranhas crises quando vê linhas rectas sobre um fundo branco. No filme de Brooks, ele próprio é o protagonista, Dr. Richard Thorndyke, o psiquiatra que repete o papel de Peck. Só que, enquanto no filme de Hitchcock se tratava de fazer o protagonista recuperar a memória longe da polícia, no filme de Brooks, os vilões são congeminadores maquiavélicos que tudo farão para o matar. A gota de água acontece quando Thorndyke é abordado pela filha de um dos seus pacientes, Victoria Brisbane (Madeline Kahn), que o ajuda a expor o facto de o Dr. Charles Montague (Harvey Korman) e a enfermeira Diesel (Cloris Leachman) operarem uma rede de extorsão, mantendo clientes ricos internados à força.

Com a ajuda do motorista Brophy (Ron Carey), o Dr. Thorndyke vai evitando ser morto, escapando quando alguém (Rudy De Luca) comete um assassinato que o implica, para salvar o dia perseguindo os criminosos escada acima, pela torre de um antigo campanário, enquanto luta com as vertigens, ajudado por um velho freudiano, de sotaque germânico (Howard Morris).

São sem dúvida referências mais que suficientes para nos recordar boa parte da obra de Hitchcock, senão vejamos. Temos a história tirada de “A Casa Encantada”, com psicanalista freudiano incluído. Temos várias passagens de “A Mulher que Viveu Duas Vezes” (Vertigo, 1958), como o atentado no local sob a Golden Gate onde a personagem de Kim Novak se atira à água, a própria cabeleira loira de Victoria Brisbane, as vertigens de Thorndyke, e claro, o clímax final na torre. Citado é ainda “Intriga Internacional” (North by Northwest, 1959), quer no nome do protagonista (Thorndyke vs. Thornhill no filme de Hitchcock), quer na sequência em que ele é falsamente acusado de ter morto alguém. Por fim há muitas referências soltas, como a cena do chuveiro de “Psico” (Psycho, 1960), os pássaros que atacam, defecando sobre o protagonista, a tentativa de crime quando Brooks está ao telefone como em “Chamada para a Morte” (Dial M for Murder, 1954), e até um citado Mr. MacGuffin.

Um pouco fora destas referências está o personagem do assassino, interpretado pelo argumentista Rudy De Luca, cuja alcunha é Braces (aparelho para os dentes), numa clara referência a Jaws (Mandíbulas), inimigo de 007. Também extra-Hitchcock é o momento musical em que Brooks emula Frank Sinatra, cantando o tema título “High Anxiety”.

Preocupando-se em construir uma história coerente, onde as situações concretas deixam de lado a comicidade para se preocuparem em ligar convenientemente as referências a Hitchcock, o humor de “Alta Ansiedade” reside nas formas como o filme se demarca dos seus modelos, resultando em gags como a supracitada referência a “Os Pássaros” (The Birds, 1963). Acrescenta-se a isso o humor inerente a algumas interpretações como o trapalhão Brophy, a ditatorial Diesel e o cobarde Dr. Montague.

Usando vários dos seus actores fetiche, Madeline Kahn, Harvey Korman, Cloris Leachman, Ron Carey, bem como os cameos dos argumentistas Ron Clark, Rudy De Luca, e Barry Levinson, Mel Brooks estava em território confortável, num momento em que se nota uma certa cristalização do seu humor e personagens. É por outro lado o primeiro filme falado protagonizado pelo próprio Brooks (“Silent Movie”, como o nome indica não tem diálogos, e nos anteriores, Brooks ou esteve ausente ou foi personagem secundária). Essa característica é a maior novidade do filme, já que, com o seu modo coloquialmente solto de falar, Brooks marca os seus filmes, tempos e actores, um pouco como Woody Allen faz nos seus filmes.

Por outro lado Brooks inova na homenagem, com ângulos oblíquos, planos picados (como em “Pisco”) e contra-picados, uso da contraluz, o Vertigo zoom entre outras técnicas. Destaca-se ainda o efeito cómico da presença da câmara tornando-a diegética, por vezes com travellings a levarem-na a quebrar janelas.

Bem recebido pela crítica, “Alta Ansiedade” foi mesmo nomeado para os Globos de Ouro como Melhor Filme de Comédia ou Musical enquanto Mel Brooks recebia a nomeação para Melhor Actor. Mas, para Brooks, o melhor prémio terá sido certamente o agradecimento do próprio Hitchcock, que lhe enviou uma caixa de vinhos com a nota: “A small token of my pleasure, have no anxiety about this.”

Produção:

Título original: High Anxiety; Produção: Crossbow Productions; País: EUA; Ano: 1977; Duração: 107 minutos; Distribuição: Twentieth Century-Fox Film Corporation; Estreia: 25 de Dezembro de 1977 (EUA), 14 de Novembro de 1978 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Mel Brooks; Produção: Mel Brooks; Argumento: Mel Brooks, Ron Clark, Rudy De Luca, Barry Levinson; Música: John Morris; Orquestração: John Morris, Ralph Burns, Jack Hayes, Nathan Scott; Direcção de Orquestra: Lionel Newman; Fotografia: Paul Lohmann [filmado em Panavision, cor por DeLuxe]; Montagem: John C. Howard; Design de Produção: Peter Wooley; Cenários: Richard D. Kent, Anne MacCauley; Figurinos: Patricia Norris; Caracterização: Terry Miles, Thomas Tuttle; Efeitos Especiais: Jack Monroe; Efeitos Visuais: Albert Whitlock.

Elenco:

Mel Brooks (Richard H. Thorndyke), Madeline Kahn (Victoria Brisbane), Cloris Leachman (Enfermeira Diesel), Harvey Korman (Dr. Charles Montague), Ron Carey (Brophy), Howard Morris (Professor Lilloman), Dick Van Patten (Dr. Wentworth), Jack Riley (Recepcionista), Charlie Callas (Cocker Spaniel), Ron Clark (Zachary Cartwright), Rudy De Luca (Assassino), Barry Levinson (Paquete), Lee Delano (Norton), Richard Stahl (Dr. Baxter), Darrell Zwerling (Dr. Eckhardt), Murphy Dunne (Pianista), Albert Whitlock (Arthur Brisbane).