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Roman HolidayA Princesa Ann (Audrey Hepburn), representante de um estado europeu, está em périplo diplomático pela Europa ocidental, com uma agenda apertada. É durante a sua estadia em Roma que a princesa colapsa perante tantas exigências, e foge do seu quarto para conhecer a cidade à noite. É então recolhida pelo jornalista americano Joe Bradley (Gregory Peck) que se apieda dela e a leva para a sua casa. Quando no dia seguinte toda a imprensa dá conta da “doença” da princesa que a impede de participar em cerimónias públicas, Bradley percebe que ela é a rapariga que ele recolheu. Passa então o dia com ela, mostrando-lhe Roma, ao mesmo tempo que tenta uma reportagem exclusiva, sem que ela saiba que ele é jornalista.

Análise:

Em 1953 nascia o mito de Audrey Hepburn. Tudo porque William Wyler, depois de ver goradas as hipóteses de ter no seu novo filme actrizes como Elizabeth Taylor e Jean Simmons, aceitou trazer uma cara nova, a qual nem sequer teve direito a surgir como cabeça de cartaz, lugar reservado à estrela masculina Gregory Peck. Wyler, já um dos nomes grandes de Hollywood, com vários Oscars no seu curriculum, e muitos anos antes do seu estrondoso sucesso “Ben-Hur” (1959), era conhecido como um autor de rara sensibilidade, capaz de dar vida a histórias complexas e tirar o melhor dos seus actores.

Aproveitando a ideia de estar numa cidade luminosa, e cheia de história, Wyler decidiu transformá-la na personagem principal do seu filme “Férias em Roma”, escrito por John Dighton e Dalton Trumbo (este não creditado até 2003, por estar na lista negra de Hollywood, tendo Ian McLellan Hunter surgido como o seu testa de ferro). Era a história de uma princesa real (Audrey Hepburn), em viagem diplomática por várias capitais europeias, até ao momento em que colapsa psicologicamente, por não querer mais seguir aquela agenda tão exigente. Tal capricho é tratado pelo seu séquito com uma injecção para que durma, mas a princesa foge para ver Roma durante a noite, acabando por adormecer num banco de jardim.

Quem a salva é o jornalista norte-americano Joe Bradley (Gregory Peck), que depois de, em vão, tentar fazer com que ela vá para casa, acaba por a levar para a sua. Só no dia seguinte Bradley percebe quem tem em casa, e escondendo isso da princesa, vai incentivá-la a descobrir Roma consigo, enquanto chama o amigo fotógrafo Irving Radovich (Eddie Albert), para se lhes juntar, e juntos fazerem uma reportagem exclusiva e sensacional. Mas à medida que o dia passa, e as peripécias se sucedem, Bradley vai-se afeiçoando mais à princesa, acabando por desistir da reportagem, mesmo sabendo que o dia terá um fim, e ela voltará aos seus castelos e compromissos de realeza.

Com uma história simples, baseada num pequeno equívoco (Bradley não sabe inicialmente quem levou para casa, e a princesa não sabe que ele é um jornalista que descobriu quem ela é), “Férias em Roma” funciona como um conto de fadas moderno, versão inversa do conto de “Cinderela”, onde não falta sequer a princesa, e onde o herói é de uma classe social diferente, e portanto condenado a não poder ficar com ela no final.

Mas esquecendo esse lugar-comum, “Férias em Roma” é essencialmente a história de uma descoberta. A descoberta da vida simples de quem consegue maravilhar-se com os pequenos nadas, que às vezes são tão elusivos tanto a quem nada tem como a quem tem demais. Nessa perspectiva “Férias em Roma” é o sorriso da princesa de Audrey Hepburn, para quem tudo é novo, tudo é único, tudo é maravilhoso, numa inocência que queremos muito acreditar que ainda existe, e que por isso torna tudo tão mágico. E “Férias em Roma”, claro, é Roma. A cidade eterna surge aqui filmada com encanto e alegria, tão diferente daquilo que os neo-realistas faziam, mas tão próximo daquilo que é o sonho de qualquer turista que deseja ter parte da cidade dentro de si.

Com tais premissas, se Roma se mostra encantadora como não podia deixar de ser, que dizer da actriz principal? É quase profético que no seu primeiro papel como protagonista, Audrey Hepburn (que já tinha dois anos de cinema, mas como figurante ou secundária) tenha interpretado uma princesa, ela que faria da sua elegância e graciosidade uma imagem de marca que a tornariam uma espécie de princesa de Hollywood. E é isso que denota este seu primeiro papel. Quer no humor, quer na candura, quer na extroversão, quer na timidez, Audrey Hepburn encanta pela espontaneidade e com uma graciosidade natural sem par.

E assim, numa história que começa com equívocos, e que vê os personagens movidos inicialmente por motivos egoístas (a princesa borrifando-se para a sua agenda, o jornalista usando-a para uma entrevista exclusiva), é como se essa mesma inocência transbordasse. Por isso, mesmo num final em que o conto de fadas não se concretiza, somos deixados com um uma sensação de leveza e dever cumprido, ao sentir nos sorrisos finais dos protagonistas que tudo foi uma experiência única, pura, e por isso a recordar com carinho. Tal como o próprio filme.

Todos estes ingredientes (interpretações cativantes, história universal, encantadora fotografia da cidade, e uma direcção de Wyler marcada pelo bom gosto), “Férias em Roma” tornou-se desde logo um sucesso, que serviu de modelo para outros filmes e alguns remakes. Audrey Hepburn venceu o Oscar da Academia, vendo também o Argumento e Guarda-roupa premiados na mesma cerimónia. A esse troféu juntaram-se o BAFTA, o Globo de Ouro, e o prémio da New York Film Critics Circle de Melhor Actriz. Num só ano Audrey Hepburn chegava, via e vencia, começando um mito que duraria muitos anos.

Produção:

Título original: Roman Holiday; Produção: Paramount Pictures; País: EUA; Ano: 1953; Duração: 117 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 21 de Agosto de 1953 (Inglaterra), 25 de Novembro de 1953 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: William Wyler; Produção: William Wyler; Produtor Associado: Robert Wyler, Lester Koenig [não creditado]; Argumento: John Dighton, Dalton Trumbo [originalmente creditado como Ian McLellan Hunter]; História: Dalton Trumbo [originalmente creditado como Ian McLellan Hunter]; Música: Georges Auric; Fotografia: Franz Planer, Henri Alekan [preto e branco]; Montagem: Robert Swink; Direcção Artística: Hal Pereira, Walter H. Tyler; Cenários: Italo Tomassi [não creditado]; Figurinos: Edith Head; Caracterização: Wally Westmore, Alberto De Rossi.

Elenco:

Gregory Peck (Joe Bradley), Audrey Hepburn (Princesa Ann), Eddie Albert (Irving Radovich), Hartley Power (Mr. Hennessy), Harcourt Williams (Embaixador), Margaret Rawlings (Condessa Vereberg), Tullio Carminati (General Provno), Paolo Carlini (Mario Delani), Claudio Ermelli (Giovanni), Paola Borboni (Empregada de Limpeza), Alfredo Rizzo (Taxista), Laura Solari (Secretária de Hennessy), Gorella Gori (Vendedora de Sapatos).

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