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Boogie NightsEddie Adams (Mark Wahlberg) é um jovem que trabalha num clube nocturno em Reseda, Califórnia, frequentado pelo realizador de filmes para adultos, Jack Horner (Burt Reynolds). Este vê em Eddie uma futura estrela, chamando-o para uma audição (isto é para ter sexo) com a actriz Rollergirl (Heather Graham). Eddie muda o nome para Dirk Diggler e torna-se imediatamente uma estrela da indústria pornográfica, ao lado do amigo Reed Rothchild (John C. Reilly), da protectora esposa de Horner, Amber Waves (Julianne Moore), dos actores Buck Swope (Don Cheadle) e Jessie St. Vincent (Melora Walters), do técnico de som Scotty J. (Philip Seymour Hoffman), entre outros. Por entre a “Golden Age of Porn” até aos excessos de drogas dos anos 80, Eddie vai subir e cair, vendo o definhar daquela indústria, e o desagregar do grupo, onde cada um vai procurar concretizar ambições pessoais.

Análise:

“Jogos de Prazer” foi a segunda longa-metragem de Paul Thomas Anderson, que surgia como um desenvolvimento da sua curta-metragem de estreia “The Dirk Diggler Story” de 1988. Nestes filmes, Anderson dedicava-se a explorar os bastidores da chamada “Golden Age of Porn”, do final dos anos 70, em particular a indústria pornográfica do sul da Califórnia, nos arredores de Los Angeles. É por isso uma indústria paralela à de Hollywood, poucos quilómetros afastada, com um encanto e imaginário próprio, que Anderson trata.

Tudo revolve em torno da ascensão e queda de Eddie Adams (Mark Wahlberg), um jovem que trabalha num clube nocturno em Reseda, propriedade de Maurice Rodriguez (Luis Guzmán), onde giram vários nomes ligados ao realizador Jack Horner (Burt Reynolds), entre os quais a esposa deste, Amber (Julianne Moore) e a actriz porno conhecida como Rollergirl (Heather Graham). Jack Horner contrata Eddie, que muda de nome para Dirk Diggler, que com o amigo Reed Rothchild (John C. Reilly) inicia uma série de filmes pornográficos de trama policial de sucesso. Dirk Diggler é várias vezes premiado, e o dinheiro chove por toda a equipa, até desaguisados, e excessos no consumo de drogas, levarem Dirk a deixar a equipa de Jack, tentando a sua sorte na música, acabando sem dinheiro, tentando a prostituição, e envolvido com Reed em golpes criminosos, levado pelo amigo Todd Parker (Thomas Jane) e pelo continuado consumo de drogas. Enquanto isso, Jack, vê o seu financiador, Coronel James (Robert Ridgely) preso por pornografia infantil, e tem de ceder ao seu novo financiador, Floyd Gondolli (Philip Baker Hall) que insiste em baixar os custos, passando de película para videotape, e esquecendo o argumento em troca de filmes sem qualquer qualidade.

Centrado no personagem de Eddie Adams/Dirk Diggler, “Jogos de Prazer”, é não só um retrato dos bastidores da indústria pornográfica do final dos anos 70, como um olhar para modos de vida de um vasto conjunto de personagens que atravessa a década de 70 e 80, às margens de Hollywood, com o cinema como objectivo, mas uma forma diferente de nele estar.

Talvez o primeiro facto digno de nota é o modo como Paul Thomas Anderson (autor do argumento) olha com uma certa candura para um mundo onde os actores se julgavam verdadeiros actores, e o realizador sentia que estava a fazer arte. É um mundo onde há verdadeira alegria, amizade e partilha entre todos, e um clima de permanente festa, longe da sordidez com que habitualmente se pensa no mundo da indústria pornográfica.

Assim, é com alegria e até inocência que vemos os personagens (Dirk, Reed, Rollergirl, Amber, Jessie) darem-se de corpo e alma a filmes que crêem estar a fazer história. É com verdadeiro amor que Jack Horner os trata, e com enorme espírito de comunhão que todos participam nas celebrações e planos de conquista.

Tudo isto parece mudar na passagem de ano de 1979 para 1980, no momento simbólico em que o assistente de realização Little Bill Thompson (William H. Macy) mata a mulher e se suicida. Aos poucos o grupo dissolve-se, começando com Dirk que, por ciúmes do novo actor Johnny Doe (Jonathan Quint), abandona Jack, para tentar a sua sorte na música com o amigo Reed.

Pelo meio assistimos às lutas vãs de Amber para recuperar os filhos em tribunal; ao caminho para a decadência de Jack Horner em filmes menores; à humilhação de Rollergirl; à saída da indústria de Buck Swope (Don Cheadle) e Jessie St. Vincent (Melora Walters), que têm um filho e tentam abrir um negócio diferente, mas são desprezados pelos bancos; ao falhanço do operador de som, Scotty J. (Philip Seymour Hoffman) em declarar-se a Dirk; e claro, à própria queda de Dirk, viciado em cocaína, rebaixado à prostituição e crime.

Há quase que um contraste entre um idílico mundo do porno, presente no início do filme, e o mundo dos excessos, crime e consumo de drogas, que marcam a parte final, que é de decadência, não só dos personagens, mas mesmo da indústria. Como se personagens e porno se equiparassem, e a tal “Golden Age”, fosse um momento idílico na vida de todos, uma espécie de juventude inocente, para sempre perdida.

É tudo isto que Paul Thomas Anderson nos mostra, naquele que já se disse ser o mais scorsesiano dos seus filmes. São demasiados os paralelos entre “Jogos de Prazer” e a obra de Martin Scorsese, senão vejamos. Temos desde logo o retrato quase documental de um grupo de personagens que vive como bando à margem da lei. Eddie/Dirk como o herói amoral em ascensão, deslumbrado com um novo mundo de fama e sucesso, lembra os personagens de Robert De Niro e de Ray Liotta para Scorsese. Os momentos em que Eddie/Dirk se motiva ao espelho são evocativos do Travis Bicker de “Taxi Driver” (1977), e a sequência final em que ele fala para si ao espelho nos camarins é quase uma cópia da de “Touro Enraivecido” (Raging Bull, 1980). Os longos travellings passando pelo meio dos personagens, em festas agitadas, são outra marca de Scorsese, com o plano-sequência inicial a imitar um dos mais famosos de “Tudo Bons Rapazes” (Goodfellas, 1990). Este é, aliás, o filme mais presente em “Jogos de Prazer”, com a ascensão e queda do personagem de Ray Liotta a lembrar a de Eddie/Dirk, incluindo as muitas cenas de êxtase devido ao abuso de cocaína. Depois há as cenas de tiroteio, que emulam as de “Taxi Driver”, e uma dinâmica de grupo, e ambiente glamoroso dos clubes nocturnos, trazem à memória “Casino” (1997). Finalmente a banda sonora, fazendo uso de temas pop de cada momento, é algo que Scorsese introduziu como ninguém no cinema de Hollywood.

Revelando-se um bom aluno de Scorsese, Anderson lembra ainda Robert Altman (pelo trabalho com um vasto ensemble de actores), mas consegue também trazer alguma da linguagem que marcaria a sua carreira. Destacando-se desde logo um grupo de actores que o acompanhariam em vários filmes (Julianne Moore, John C. Reilly, William H. Macy, Philip Seymour Hoffman, Philip Baker Hall, etc.), e principalmente um modo de construir o argumento, dividindo-o em episódios separados, de personagens diversos, com encontros que funcionam como pontos marcantes de viragem. Exemplo disso é o momento em que Dirk, Reed e Todd se envolvem num roubo violento, que coincide com o momento em que Jack filma Rollergirl a ter sexo num carro, e em que Buck e Jessie assistem a um assalto numa loja. Todos os carros passam pelo mesmo local quase ao mesmo tempo, e todos os momentos representam um bater no fundo, seguido de um virar de página para novas vidas.

“Jogos de Prazer” foi, logo desde o primeiro momento, elogiado, quer pelo estilo de realização de Paul Thomas Anderson, quer pelo modo como entrelaça histórias e episódios e pela leveza com que fala da indústria do sexo sem que este seja proeminente no filme, quer ainda pela forma como documentariza os anos 70. Muito elogiadas foram também algumas interpretações, como as de Mark Wahlberg e de Burt Reynolds. Este último venceria o Globo de Ouro de Melhor Actor Secundário, e seria nomeado para os Oscars ao lado de Moore (Melhor Actriz Secundária) e do próprio Anderson (Melhor Argumento).

Produção:

Título original: Boogie Nights; Produção: New Line Cinema / Lawrence Gordon Productions / Ghoulardi Film Company; Produtor Executivo: Lawrence Gordon; Co-Produtores Executivos: Michael De Luca, Lynn Harris; País: EUA; Ano: 1997; Duração: 156 minutos; Distribuição: New Line Cinema (EUA), Alliance Atlantis Communications (Canadá); Estreia: 11 de Setembro de 1997 (Toronto Film Festival, Canadá), 8 de Outubro de 1997 (New York Film Festival, EUA), 1 de Maio de 1998 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Paul Thomas Anderson; Produção: Lloyd Levin, John S. Lyons, JoAnne Sellar; Co-Produção: Daniel Lupi; Argumento: Paul Thomas Anderson [a partir]; Música: Michael Penn; Fotografia: Robert Elswit [filmado em Panavision, cor por DeLuxe]; Montagem: Dylan Tichenor; Design de Produção: Bob Ziembicki; Direcção Artística: Ted Berner; Cenários: Sandy Struth; Figurinos: Mark Bridges; Caracterização: Tina Roesler Kerwin; Efeitos Especiais: Lou Carlucci; Coreografia: Adam Shankman; Direcção de Produção: Daniel Lupi.

Elenco:

Mark Wahlberg (Eddie Adams/Dirk Diggler), Julianne Moore (Maggie/Amber Waves), Burt Reynolds (Jack Horner), Don Cheadle (Buck Swope), John C. Reilly (Reed Rothchild), William H. Macy (“Little” Bill Thompson), Heather Graham (Brandi/Rollergirl), Nicole Ari Parker (Becky Barnett), Philip Seymour Hoffman (Scotty J.), Luis Guzmán (Maurice Rodriguez), Philip Baker Hall (Floyd Gondolli), Thomas Jane (Todd Parker), Robert Ridgely (Coronel James), Nina Hartley (Mulher de “Little” Bill), Melora Walters (Jessie St. Vincent), Alfred Molina (Rahad Jackson), Ricky Jay (Kurt Longjohn), John Doe (Ex-marido de Amber), Joanna Gleason (Mãe de Dirk), Laurel Holloman (Sheryl Lynn), Robert Downey, Sr. (Burt, Director do Estúdio), Stanley DeSantis (Patrão de Buck), Michael Penn (Nick, Engenheiro de Som), Michael Jace (Jerome), Lawrence Hudd (Pai de Dirk), Kai Lennox (Estudante, Colega de Brandi), Jonathan Quint (Johnny Doe), Don Amendolia (Gerente do Banco), Veronica Hart (Juiza), Jack Riley (Advogado), Jose Chaidez (Assaltante), B. Philly Johnson (Guarda-costas de Rahad).

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