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Bridge of SpiesJames B. Donovan (Tom Hanks) é um advogado, especialista em litígios de seguradoras, que um dia é chamado pelos seus superiores para defender Rudolf Abel (Mark Rylance), acusado de espionagem para a União Soviética. A ideia é apenas proporcionar uma defesa legal num caso que todos sabem estar à partida decidido, mas Donovan vai lutar com todas as suas forças para salvar Abel, um homem que nunca trai as suas convicções e nunca conta nada do que a CIA pretende saber. Por essa tenacidade é Donovan que, mais tarde, é chamado pela própria CIA, para ir a Berlim Leste contactar as autoridades soviéticas para tentar a troca de Abel por Francis Gary Powers, um piloto norte-americano abatido sobre solo soviético em missão de espionagem.

Análise:

Três anos depois do seu mais recente filme, “Lincoln” (2012), Steven Spielberg, um dos homens mais importantes da indústria de Hollywood, volta à cadeira de realização, com mais um filme baseado em factos reais, desta vez passado em plena Guerra Fria, durante uma célebre troca de espiões entre os Estados Unidos e a União Soviética.

Apoiado na sua Dreamworks, Spielberg produziu e realizou um filme de elevados meios, em tecnologia digital, com parte das filmagens a decorrer em Berlim (uma primeira vez para Spielberg), e com a novidade de ter entre os argumentistas a dupla de cineastas Joel e Ethan Coen. Outra novidade foi a banda sonora não composta por John Williams, perturbado por problemas de saúde, mas que ficaria a cargo de Thomas Newman.

“A Ponte dos Espiões” baseia-se na história verídica da troca de espiões ocorrida em 1962 entre os Estados Unidos e a União Soviética, durante a qual os norte-americanos receberam o seu piloto da força aérea Francis Gary Powers (abatido no espaço aéreo soviético, em missão de reconhecimento), em troca do alegado espião soviético a operar em solo norte-americano, Rudolf Abel, ocorrida na ponte Glienicke entre Potsdam e Berlim Oriental.

No centro da acção está Tom Hanks, cada vez mais o paradigma do herói spielberguiano (aqui no quarto filme conjunto), no papel do teimoso advogado James B. Donovan, um raro homem que ainda acredita que tudo se deve fazer de acordo com o que está escrito. É essa intransigência, que vemos no introdutório episódio da apólice de seguros, que guiará toda a sua acção e definirá o rumo da história. Isto acontecerá em dois actos diferentes.

Num primeiro acto, Donovan é chamado para fazer a defesa do espião soviético Rudolf Abel (Mark Rylance), que todo o país (família de Donovan incluída) quer ver condenado à morte. Só que Donovan é o único a acreditar que a pureza das leis americanas se sobrepõe a qualquer interesse de circunstância, desafiando a CIA, o povo e o próprio juiz Byers (Dakin Matthews). É da sua persistência, alheio ao ódio que vai crescendo à sua volta, que Donovan consegue que a pena de Abel seja de 30 anos de prisão, em vez da esperada pena de morte.

Segue-se o segundo acto, no qual Donovan é chamado pela CIA, para conduzir as negociações numa secreta troca de espiões, uma vez que os EUA querem ver recuperado o seu piloto Francis Gary Powers (Austin Stowell), recentemente abatido a bordo de um avião de espionagem U-2. O que a CIA pretende é uma troca directa com a União Soviética, mas a teimosia de Donovan vai levá-lo a conseguir ainda a libertação do estudante Frederick Pryor (Will Rogers), na posse dos alemães, aqui representados por Wolfgang Vogel (Sebastian Koch), que desejam também ser incluídos no mediatismo da situação.

Mesmo sabendo que está a lidar com braços de ferro perigosos, e desafiando tanto os soviéticos (Mikhail Gorevoy) como a CIA (Scott Shepherd), Donovan verá o bom senso imperar, e as trocas feitas a seu desejo, ainda com tempo para um abraço final a Abel, por cuja obstinação estóica (um pouco à sua própria imagem) passara a nutrir simpatia.

Aparte pequenos desvios para nos apresentar os três prisioneiros (Abel na sequência inicial, Pryor um pouco depois, e Powell em pequenos quadros separados), todo o filme segue os passos e diligências de James Donovan, desde que recebe a incumbência de defender Abel, o relacionamento com a sua família, o processo, o recrutamento para actuar em Berlim, e as peripécias nos preparativos da troca. Por essa razão o centro do filme é Tom Hanks.

Hanks encarna aquilo que poderemos chamar o herói spielberguiano, o homem comum que, por amor a uma causa, é capaz de defrontar tudo e todos, mesmo acreditando que pode perder, mas ainda assim fazendo-o porque não pode ser de outro modo. Não era já assim com Indiana Jones, Oskar Schindler ou Abraham Lincoln? Mais uma vez, Spielberg é o arauto das grandes causas, geralmente ligadas a confrontos civilizacionais, sejam internos (a escravatura) sejam externos (a Segunda Guerra Mundial, e agora a Guerra Fria). E na sua tradição de contador de histórias moralistas e de final feliz, Spielberg traz-nos em “A Ponte dos Espiões” uma mensagem. A ideia de que o verdadeiro herói é o homem que faz o que é justo, que a sua recompensa é saber que fez o que é justo, e que essa justiça o manterá sempre erguido, sendo o stoikiy muzhik (homem que não quebra) da história que lhe é contada por Abel.

Para além de Hanks, “A Ponte dos Espiões” é ainda a fotografia de Janusz Kaminski, que filmou (recorrendo em muito ao CGI) a Berlim dos anos 60, filmada na Berlim de hoje. O resultado é uma fotografia que marca tanto pelo seu rigor, como por uma qualidade irreal proveniente da sua demasiada perfeição. Acrescente-se ainda todo o elenco perfeito, nomeadamente o desconcertantemente simples e estóico (o outro stoikiy muzhik) Abel, interpretado por Mark Rylance. E por fim saliente-se a montagem cuidada, que faz com que cada sequência se transmute na seguinte seja por uma continuidade de diálogo ou de algum elemento visual, que liga artificiosamente momentos e situações sem relação entre si.

Mas porque Spielberg é Spielberg, mesmo sem o carácter aventureiro de outros filmes, os maus continuam a ser ridicularizáveis (tanto Hoffman, Vogel, Schischkin como Harald Ott são motivos de logros e anedotas, e nem vale a pena falar da falsa família de Abel), e raras vezes sentimos algo parecido com medo (repare-se que a maior ameaça que Donovan sofre em solo alemão é o roubo do sobretudo por um grupo de jovens, que o trata com simpatia e ajuda a tornar a situação numa piada recorrente). Já os dois espiões (Abel e Powers) são-nos mostrados como homens dignos, que não falaram nem traíram, e por isso merecem o nosso respeito.

Dir-se-ia até que, num filme que lida com uma crise internacional, é o aspecto doméstico que mais incomoda Spielberg. Por essa razão preocupamo-nos com o que pensa (e sofre) a família de Donovan, o modo como o olha o juiz, como é tratado por vizinhos e polícia, ou como é olhado no comboio. Acaba por ser esse lado bem mais perturbador do que quando o vemos a falar com soldados alemães ou a caminhar sem protecção (nem sobretudo) no meio da neve da Berlim Oriental. Por essa mesma razão, o próprio Spielberg esquece a premissa do homem inquebrável, e acrescenta um epílogo onde o mais importante de tudo é o reconhecimento da missão de Donovan, por parte dos noticiários, da família e das pessoas do comboio.

Com estilo clássico, actuações brilhantes, e ideias claras, “A Ponte dos Espiões” peca apenas por algum facilitismo no tratamento das suas ideias. Não deixa por isso de ser mais um marco na carreira mais recente de Spielberg, aquela que lida com ideias difíceis, onde a aventura é a da resolução interna de um homem, e não a da acção e acrobacias físicas desmedidas.

Produção:

Título original: Bridge of Spies; Produção: Amblin Entertainment / DreamWorks SKG / Fox 2000 Pictures / Marc Platt Productions / Participant Media / Reliance Entertainment / Studio Babelsberg / TSG Entertainment; País: EUA / Índia / Alemanha; Produtores Executivos: Jonathan King, Daniel Lupi, Jeff Skoll, Adam Somner; Ano: 2015; Duração: 141 minutos; Distribuição:20th Century Fox; Estreia: 4 de Outubro de 2015 (New York Film Festival, EUA), 14 de Outubro de 2015 (Filipinas), 26 de Novembro de 2015 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Steven Spielberg; Produção: Steven Spielberg, Kristie Macosko Krieger, Marc Platt; Co-Produção: Christoph Fisser, Henning Molfenter, Charlie Woebcken; Argumento: Matt Charman, Ethan Coen, Joel Coen; Música: Thomas Newman; Orquestração: J. A. C. Redford; Fotografia: Janusz Kaminski [filme digital, cor por Technicolor]; Montagem: Michael Kahn; Design de Produção: Adam Stockhausen; Direcção Artística: Marco Bittner Rosser, Kim Jennings (EUA); Cenários: Rena DeAngelo, Bernhard Henrich; Figurinos: Kasia Walicka-Maimone; Caracterização: Judy Chin; Efeitos Especiais: Gerd Nefzer; Efeitos Visuais: Kimberly Aller; Direcção de Produção: Daniel Lupi.

Elenco:

Tom Hanks (James B. Donovan), Mark Rylance (Rudolf Abel), Scott Shepherd (Hoffman), Amy Ryan (Mary Donovan), Dakin Matthews (Judge Byers), Austin Stowell (Francis Gary Powers), Billy Magnussen (Doug Forrester), Jesse Plemons (Joe Murphy), Alan Alda (Thomas Watters Jr.), Peter McRobbie (Allen Dulles), Will Rogers (Frederic Pryor), Nadja Bobyleva (Katje), Mikhail Gorevoy (Ivan Schischkin), Sebastian Koch (Wolfgang Vogel), Burghart Klaußner (Harald Ott), Max Mauff (Secretário de Ott), Michael Gaston (Agent Williams), Le Clanché du Rand (Millie Byers), John Rue (Lynn Goodnough), Jillian Lebling (Peggy Donovan), Noah Schnapp (Roger Donovan), Eve Hewson (Carol Donovan), Petra-Maria Cammin (Helen Abel), Luce Dreznin (Lydia Abel), Michael Schenk (Primo Drews), Greg Nutcher (Tenente da NYPD), Tracy Howe (Agente Furioso da NYPD), Mark Zak (Juiz Soviético), Victor Schefé (Tradutor Soviético), Kai Meyer (Soldado Alemão #1), Kristoffer Fuss (Soldado Alemão #2), Thomas Hacikoglu (Soldado Alemão #3), Ketel Weber (Soldado no Checkpoint #1), Maik Rogge (Soldado no Checkpoint #2), Tim Morten Uhlenbrock (Soldado no Checkpoint #3), Matthias Gärtner (Jovem Alemão #1), Rafael Gareisen (Jovem Alemão #2), Nico Ehrenteit (Jovem Alemão #3), Michael Kranz (Guarda no Checkpoint #1), Max Kidd (Guarda no Checkpoint #2).