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Living in OblivionNick (Steve Buscemi) é um jovem realizador, reputado de poder vir a ser uma estrela. Mas para já lida com pequenas produções, sem dinheiro. No seu novo filme, Nick filma a actriz Nicole Springer (Catherine Keener) num diálogo com Cora (Rica Martens), em que tudo corre mal, desde problemas técnicos, ruídos do exterior, até as actrizes esquecerem as linhas. Seguem-se sequências em que outros actores, o galã Chad Palomino (James Le Gros), primeiro, e o anão Tito (Peter Dinklage) se rebelam, e estragam as cenas, para além de vários problemas com a equipa técnica, props que se recusam a colaborar, e uma intrusão da mãe do realizador.

Análise:

Tom DiCillo, um realizador independente, teve como seu segundo filme uma obra que retrata exactamente o meio onde ele se movia, as produções de baixo custo, por jovens realizadores à procura de marcar uma posição no mundo do cinema. “Um Realizador em Apuros” é, por isso, um filme sobre o lado menos conhecido da produção cinematográfica norte-americana, as pequenas produções de produtoras independentes, ao mesmo tempo que tem o seu quê de autobiográfico, lidando com as ansiedades e frustrações de um realizador constantemente em luta contra tudo (a sua inspiração, as vontades dos actores, a falta de meios, o às vezes pouco profissionalismo da equipa, etc.).

Sem dinheiro para a produção, Tom DiCillo contou com o apoio de toda a sua equipa, que trabalhou de graça, alguns até contribuindo com dinheiro. Por isso vemos como os produtores Michael Griffiths, Danielle von Zerneck e Hilary Gilford têm papéis como actores, ou como o actor Dermot Mulroney surge também como produtor.

Com argumento do próprio DiCillo, “Um Realizador em Apuros” divide-se em três partes distintas, que funcionam como actos teatrais. Cada uma passa-se, no essencial, num espaço fechado (o soundstage), tem um cenário próprio, e um elenco próprio (isto é, há personagens que só entram numa ou duas dessas partes).

Para complicar um pouco, cada um desses actos é fechado em si próprio, do seguinte modo. No primeiro acto (Ellen fala com a mãe), temos as actrizes Nicole Springer (Catherine Keener) e Cora (Rica Martens) a filmar um diálogo, onde tudo corre mal, desde o esquecer de linhas, um microfone que surge no enquadramento, uma falha no foco da câmara, intrusão de ruídos do exterior, etc. levando ao completo desespero do realizador Nick (Steve Buscemi), que termina numa crise de histeria. Tudo se revela um sonho de Nick que acorda de madrugada para ir filmar.

O segundo acto continua com os actores Nicole e Chad Palomino (James Le Gros) na mesma cama, com Palomino a sair para ir filmar, encontrando-se com Nick, ao mesmo tempo que vemos que o operador de câmara, Wolf (James Le Gros), e a assistente de produção, Wanda (Danielle von Zerneck), têm uma relação, mas Wanda começa a interessar-se pelo galã Palomino. A cena a filmar é uma declaração de amor entre os personagens de Nicole e Palomino, mas corre incrivelmente mal, levando ao desespero de Nick, que depois de escorraçar Palomino, declara o seu amor a Nicole, no fundo repetindo ele a cena que era suposto filmar.

Com Nicole a acordar, percebe-se que o segundo acto fora um sonho seu. Voltamos ao soundstage, onde tanto Nick como Nicole confessam que tiveram sonhos sobre as filmagens, e pelas conversas sobre Palomino (agora ausente), e pela tensão entre Wanda e Wolf, sabe-se que o interlúdio entre o acto um e dois foi real, ligando-se ao momento presente. Neste filma-se um sonho da personagem de Nicole, que interage com o anão Tito (Peter Dinklage). Uma depressão de Wolf, o mau feitio de Tito, e problemas com props levam a mais uma crise de histeria de Nick, que vê a sua mãe (nem mais que a actriz que ele vira no seu sonho como mãe de Nicole), irromper pelo estúdio, sendo ela a terminar a cena no lugar do anão.

DiCillo terá imaginado o primeiro acto como um pequeno filme, mas ao ver que era demasiado longo para uma curta-metragem, e demasiado curto para uma longa, decidiu estendê-lo com dois actos extra. A unidade entre eles é ainda mantida pelo jogo de cores. Assim, no primeiro acto a acção decorre a preto e branco (com fotografia muito granulada) e as filmagens a cores; no segundo passa-se o inverso; e no terceiro, tudo decorre a cores.

Para além do tema óbvio dos “apuros” do realizador, já que todas as histórias se referem a problemas com as filmagens (sejam técnicos, criativos, ou inter-pessoais), todos os momentos são ligados por uma atmosfera onírica. Tanto as duas primeiras sequências se revelam sonhos, como a terceira é a filmagem de um sonho. Como se não bastasse, o filme termina com vários dos personagens a sonhar acordados. Esse irrealismo onírico revela-se em frustrações (as incapacidades do realizador), desejos (o sonho de Nicole com Nick, os vários momentos de cariz sexual), nítidas perdas de controlo, e necessidades de explosão (quase todos os personagens vão ter que, nalgum momento, chorar e/ou gritar com alguém), e a constante presença da figura da mãe. Nesse sentido o próprio jogo de cores/preto e branco, ajuda a trazer algum irrealismo a um argumento que, por outro lado, lida com situações perfeitamente realistas.

Dadas as parcas condições em que foi produzido, “Um Realizador em Apuros” destaca-se pela sua unidade, argumento conciso, humor fino, e um conjunto de interpretações perfeitas, do colérico realizador (uma excelente prestação de Steve Buscemi), à sensível actriz Nicole, passando pelo egocêntrico Palomino, o aéreo Wolf, o colérico Tito (primeiro papel em cinema de Peter Dinklage), e tantos outros, numa equipa de filmagem ao mesmo tempo cómica e séria.

Embora desconhecido do grande público, o filme foi muito bem recebido pela crítica, tendo inclusivamente ganho o prémio de Melhor Argumento (Waldo Salt Screenwriting Award) no prestigiado Sundance Film Festival de 1995.

Produção:

Título original: Living in Oblivion; Produção: JDI Productions / Lemon Sky Productions; Produtora Executiva: Hilary Gilford; Co-Produtores Executivos: Frank von Zerneck, Robert M. Sertner; País: EUA; Ano: 1995; Duração: 90 minutos; Estreia: 20 de Janeiro de 1995 (Sundance Festival, EUA), 9 de Fevereiro de 1996 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Tom DiCillo; Produção: Michael Griffiths, Marcus Viscidi; Co-Produção: Meredith Zamsky; Produtores Associados: Jane Gil, Dermot Mulroney, Danielle von Zerneck; Argumento: Tom DiCillo; Música: Jim Farmer; Fotografia: Frank Prinzi [parcialmente a preto e branco, cor por Technicolor]; Montagem: Camilla Toniolo, Dana Congdon; Design de Produção: Thérèse DePrez, Stephanie Carroll; Direcção Artística: Janine Michelle, Scott Pask; Figurinos: Ellen Lutter; Caracterização: Chris Laurence, Laura Tesone; Direcção de Produção: Meredith Zamsky.

Elenco:

Steve Buscemi (Nick Reve, Realizador), Catherine Keener (Nicole Springer), Dermot Mulroney (Wolf, Operador de Câmara), Danielle von Zerneck (Wanda, Assistente de Realização), James Le Gros (Chad Palomino), Rica Martens (Cora), Peter Dinklage (Tito), Robert Wightman (Bob, Electricista), Hilary Gilford (Guionista), Kevin Corrigan (Assistente de Camâra), Matthew Grace (Lester, Operador de Microfone), Michael Griffiths (Speedo, Engenheiro de Som), Ryan Bowker (Comida, Claquete), Tom Jarmusch (Motorista).

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