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BreachNo final de 2000, Eric O’Neill (Ryan Phillippe), um especialista de informática do FBI que sonha vir a ser agente, é destacado para secretário da velha lenda da agência, Robert Hanssen (Chris Cooper). A verdadeira missão de O’Neill é, porém, espiar Hanssen para a sua directora, Kate Burroughs (Laura Linney), já que ele é suspeito de perversões sexuais. No convívio com Hanssen, O’Neill vai descobrir um homem isolado, de espírito arguto, forte devoção católica e sentido familiar. Sem saber se continuar naquela missão, e vendo a sua vida doméstica pagar com aquela obsessão, O’Neill é informado de que a verdadeira missão tem ver com espionagem, pois Hanssen há 25 anos que espia para os russos.

Análise:

Não uma história passada na Guerra Fria, mas ainda sobre um mundo moldado por ela, “Quebra de Confiança” leva-nos à viragem do milénio, antes do 11 de Setembro, quando a política internacional ainda via na transição da União Soviética o seu ponto mais importante. É nesse contexto que nos chega a história, baseada em factos reais, de Robert Hanssen, que ficou para os anais do FBI como o pior espião da história americana, pior aqui no sentido de mais nocivo internamente. Ficcionalizado por Adam Mazer, William Rotko e Billy Ray, “Breach”conta-nos, com muitas liberdades, os últimos dois meses da investigação que levaram à prisão de Hanssen, numa produção da Universal Pictures, com realização de Billy Ray, e que teve o verdeiro Eric O’Neill como consultor.

Billy Ray, que contava no curriculum com thrillers, quer de acção mais frenética, quer puramente psicológicos, conta-nos como Eric O’Neill (Ryan Phillippe), um especialista de informática do FBI, destacado habitualmente para apoiar agentes em missões onde a sua mais valia técnica possa ser uma ajuda, e que sonha ser agente de pleno direito, foi recrutado pela directora Kate Burroughs (Laura Linney), para agir como secretário do veterano agente Robert Hanssen (Chris Cooper), com a missão de reportar todos os seus actos. O’Neill vê nisso quase uma despromoção, pois não vê como espiar um colega sobre alegadas perversões sexuais possa beneficiar a sua carreira. Mas cedo O’Neill começa a perceber que há mais que aquilo que os olhos vêem.

Inicialmente intimidado pela forte e difícil personalidade de Hanssen, cuja rigidez o torna pouco popular entre os seus pares, O’Neill vai-se começando a deixar fascinar pelo espírito arguto do seu superior, pelos erros que denuncia à sua volta, e pela sua forte devoção católica e dedicação à família. O próprio Hanssen passa a interessar-se por O’Neill e pela sua esposa Juliana (Caroline Dhavernas), com intrusões ambíguas, e referências religiosas inusitadas que trazem alguma tensão ao casal.

Finalmente O’Neill compreende que há muito mais para além do que lhe foi dito e exige a verdade de Burroughs, que lhe conta que Hanssen tem sido um espião para a União Soviética e Rússia durante 25 anos. Incrédulo, mas cooperante, O’Neill vai usar tudo o que aprendeu sobre a personalidade de Hanssen para o tranquilizar e incentivar a continuar entregas de material secreto para que este possa finalmente ser preso e acusado.

Mostrando-se eficiente no domínio da linguagem técnica que conduz ao serviço dos seus habituais thrillers, Billy Ray dirige um filme de espionagem, que é antes de tudo um filme de uma relação pai-filho entre dois homens que, cada um a seu modo, estão sozinhos no seu mundo. Hanssen é inescrutável nas suas motivações (como o próprio dirá no final, “o porquê é irrelevante”), vivendo num mundo pessoal que o próprio criou, e que não pode partilhar com ninguém, onde a fé católica é a única coisa que o faz sentir parte de algo. Já O’Neill, na sua obstinação por uma carreira, vai alienando tudo à sua volta, incluindo a esposa, encontrando na história de Hanssen, quase como num legado paterno, tudo aquilo que não quer para si.

Seguindo a máxima hitchcockiana do MacGuffin, em “Quebra de Confiança” não nos interessa que segredos Hanssen trafica, como ou porque o faz. Tudo isso não passa de um pretexto para vermos a evolução de uma relação entre dois homens, que tem tanto de inspiradora como corrosiva. Ela é feita de curiosidade, estima, mútua admiração, necessidade de um contacto com compreensão e contacto humano, e que no final levará à completa transformação de ambas as vidas, Hanssen na prisão, e O’Neill percebendo que o FBI não é aquilo que deseja para si.

Para apimentar o lado de suspense, Billy Ray vai ao ponto de alterar a história verdadeira. Assim, em “Quebra de Confiança”, O’Neill começa por não saber ao que vai, pensando tratar-se de um aborrecido caso de perversões sexuais. Tudo para que a descoberta da verdade, e o subir de nível da ameaça sejam exploradas dramaticamente. O mesmo se passa com as visitas e intromissões de Hanssen e da esposa (Kathleen Quinlan) na vida dos O’Neill, que nunca aconteceram, e têm como resultado dramático o crescer de uma velada ameaça, onde Eric O’Neill começa a não se sentir seguro.

Aceitando-se esses desvios, “Quebra de Confiança” funciona como um filme bem equilibrado entre o decorrer da história e a intensidade da relação entre Hanssen e O’Neill, que o tornam mais que um filme de espionagem, um drama humano, onde a relação paternal ganha contornos de uma certa originalidade. Billy Ray tem o mérito de deixar que a história se conte subtilmente, nos detalhes da expressividade dos actores, nunca deixando que artifícios técnicos ou impulsos de espectacularidade interfiram.

Tal não seria possível sem uma extraordinária interpretação de Chris Cooper, bem acompanhado pela sempre impecável Laura Linney, e até por Ryan Phillippe, que embora seja um actor deveras limitado, consegue estar ao nível do exigido neste filme. O resultado é um filme discreto, bem conseguido, emotivo, que teve desde logo a crítica do seu lado.

Produção:

Título original: Breach; Produção: Universal Pictures / Sidney Kimmel Entertainment / Outlaw Productions / Intermedia; Produtores Executivos: Adam Merims, Sidney Kimmel, William Horberg; País: EUA; Ano: 2007; Duração: 110 minutos; Distribuição: Universal Pictures; Estreia: 16 de Fevereiro de 2007 (EUA), 10 de Maio de 2007 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Billy Ray; Produção: Robert F. Newmyer, Scott Strauss, Scott Kroopf; Co-Produção: Jeffrey Silver; Produtor Associado: David Christopher O’Neill; Argumento: Adam Mazer, William Rotko, Billy Ray; História: Adam Mazer, William Rotko; Música: Mychael Danna; Fotografia: Tak Fujimoto [filmado em Panavision, cor pot Technicolor]; Montagem: Jeffrey Ford; Design de Produção: Wynn Thomas; Direcção Artística: Andrew M. Stearn; Cenários: Gordon Sim; Figurinos: Luis Sequeira; Caracterização: Linda Steeves; Efeitos Especiais: Laird McMurray; Direcção de Produção: Steve Wakefield, Adam Merims.

Elenco:

Chris Cooper (Robert Hanssen), Ryan Phillippe (Eric O’Neill), Laura Linney (Kate Burroughs), Dennis Haysbert (Dean Plesac), Caroline Dhavernas (Juliana O’Neill), Gary Cole (Rich Garces), Bruce Davison (John O’Neill), Kathleen Quinlan (Bonnie Hanssen), Jonathan Watton (Geddes), Tom Barnett (Jim Olsen), Jonathan Potts (Homem do D.I.A.), David Huband (Fotógrafo), Catherine Burdon (Agente Nece), Scott Gibson (Agente Sherin), Courtenay J. Stevens (Agente Loper).