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The Good ShepherdEdward Wilson (Matt Damon) é um tímido e lacónico jovem da elite WASP (white anglo-saxonic protestant) norte-americana, cujo principal interesse parece residir na poesia. Quando a sua presença em Yale o torna um óbvio membro do clube de elite Skull & Bones, Wilson começa a ter à sua frente uma carreira, que passa pela entrada na OSS do General Sullivan (Robert De Niro). A sua prestação na Segunda Guerra Mundial leva a que seja chamado a integrar a nova CIA, sob Philip Allen (William Hurt). É aí que se encontra aquando do desastre do desembarque na Baía dos Porcos em 1961, que leva a um clima de suspeição interna, que Wilson crê ter implicações em casa, na esposa que despreza (Angelina Jolie), e no filho, que mal conhece (Eddie Redmayne).

Análise:

Embora seja como actor que Robert De Niro se tornou uma das figuras mais importantes do cinema norte-americano desde os anos 70, são já dois os títulos que De Niro assinou como realizador. O primeiro, o filme sobre o crescimento nos bairros italo-americanos de Nova Iorque, no pós-guerra, “Um Bairro em Nova Iorque” (A Bronx Tale, 1993), escrito e interpretado por Chazz Palminteri, e o segundo, este “O Bom Pastor”, com argumento de Eric Roth, e no qual Matt Damon interpreta uma das figuras fulcrais do nascimento da agência de espionagem norte-americana, Central Intelligence Agency (CIA).

“O Bom Pastor” começou em 1994, como um projecto de Eric Roth para Francis Ford Coppola, a partir da ideia de contarem o que chamaram a história secreta da CIA, centrada no seu nascimento, e com destaque especial para a aventura falhada da invasão de Cuba, na chamada Baía dos Porcos. A desistência de Coppola, por falta de empatia com as personagens, levou à contratação de Philip Kaufman, o responsável pela não linearidade temporal da narrativa. A falta de financiamento por parte de um grande estúdio abortou o projecto, até John Frankenheimer chegar com o apoio da MGM. A morte deste, em 2002, abriu então as portas a Robert De Niro, o qual tinha já um interesse especial no tema. De Niro conseguiu o interesse da Universal, e a entrada de Matt Damon (talvez uma segunda escolha em relação a Leonardo Di Caprio), e as filmagens começaram em 2005 com passagem por Nova Iorque, Washington, Londres e República Dominicana.

O filme conta-nos a história de Edward Wilson (Matt Damon), um tímido e reservado jovem da elite WASP (white anglo-saxonic protestant) norte-americana, cujo principal interesse parece residir na poesia. A sua passagem pelo clube de elite Skull & Bones, da Universidade de Yale, a ligação privilegiada a um certo conservadorismo com aspirações de poder, a mácula do suicídio paterno (Timothy Hutton), por traição à pátria, e a traição que sente quando o seu professor preferido (Michael Gambon) se revela um simpatizante Nazi, levam-no, em vésperas da Segunda Guerra Mundial, a embarcar numa nova aventura, a montagem da rede de inteligência OSS (Office of Strategic Services) dirigida pelo General Sullivan (Robert De Niro). Os seus serviços durante e após a guerra, num momento em que a prioridade era recuperar cientistas (judeus e nazis) e proceder a trocas de espiões e pessoas de interesse com a Unisão Soviética.

Os seus bons serviços levam a que, quando o General Sullivan decida constituir uma agência de espionagem civil (a CIA), Wilson seja chamado a lugar de destaque na nova agência, que será liderada por Philip Allen (William Hurt). Quando em 1961, a operação da Baía dos Porcos falha, as suspeitas lançam-se para dentro da CIA, e ninguém consegue confiar mais em ninguém, num clima de paranóia, que isola Wilson ainda mais que nunca em relação ao mundo que o rodeia, em particularmente a mulher, que nunca amou (Angelina Jolie), e o filho, que mal viu crescer e que o teme (Eddie Redmayne).

Ficando sempre no ar a curiosidade sobre quanto do que o filme nos conta é real, podemos começar por saber que a figura central de Edward Wilson foi baseada em James Jesus Angleton, que foi chefe da contra-espionagem da CIA de 1954 a 1975. Do mesmo modo o personagem de William Hurt baseia-se em Allen Dulles, director da CIA de 1953 a 1961, e o personagem de Robert De Niro baseia-se no General William Donovan, chefe máximo da OSS e criador da CIA.

Com uma estrutura narrativa que o faz saltar várias vezes no tempo para a frente e para trás, o filme de Robert De Niro acompanha a pessoa de Edward Wilson, que descreve como um homem de palavras parcas, e uma grande relutância em expor-se aos outros, mesmo sabendo que isso lhe poderá custar todas as relações importantes da sua vida. Quase como se dar um pouco de si o diminuísse, ou por não ver valor na partilha, Edward vai-se reservando, vai-se defendendo, vai-se afastando, quase de forma natural, como se não houvesse outra opção, mesmo quando à sua volta uma palavra ou uma acção pudessem fazer toda a diferença.

Mas todas as características que lhe custam a felicidade pessoal, isto é, a perda da mulher que amou – Laura (Tammy Blanchard), – o casamento com a mulher que não ama – Margaret “Clover” Russell (Angelina Jolie), – e o desprezo do filho que não viu crescer – Edward Jr. (Eddie Redmayne), – são uma mais valia na profissão em que se refugia.

Aí começa o enigma de um homem que parece não sentir, mas que age por um amor e dedicação que talvez ninguém consiga ver. Fá-lo pelo seu país, para honrar o nome do pai, para deixar algo à família a quem não sabe amar com um gesto simples, ou para se refugiar de si, perdidas as ilusões da juventude, como um efémero amor pela poesia.

Por tudo isso, “O Bom Pastor” é uma história dos anos formativos da CIA, mas vistos pelos olhos de Wilson. Por isso, a narrativa é não linear, pois o que a move não é a ordem cronológica dos acontecimentos, mas sim a sua importância para Wilson. Nesse percurso vemos a sua afirmação perante os seus pares das juventudes universitárias e clubes elitistas (os Bonesman de Yale), a sua formação na Alemanha dividida, as relações com o inimigo (Oleg Shtefanko no papel do soviético de nome de código Ulysses), as acções de contra-espionagem da CIA, no recrutamento e interrogatório de espiões. Por fim tudo volta ao mistério do falhanço da Baía dos Porcos, como um leitmotiv que permanece do início ao fim do filme, talhando personalidades, suspeitas, relações na CIA, e por fim até as relações familiares de Wilson. É na sua obsessão com o caso, numa construção que remete para “História de Um Fotógrafo” (Blow Up, 1966) de Michelangelo Antonioni, já antes revisitado por Brian De Palma em “Blow Out – Explosão” (Bow Out, 1981), e através da qual unirá o seu lado profissional e familiar, quando se percebe o papel do seu filho na situação.

Filmado a um ritmo lento (o filme tem quase três horas), condizente com a personalidade pausada de Edward Wilson, “O Bom Pastor” é tanto um exercício de estilo, em jeito clássico, como um filme de época centrado numa descrição psicológica que, tal como o seu protagonista, se baseia mais na força dos eventos vividos, que na necessidade de os explicar ou racionalizar.

São muitas as metáforas contidas no filme, que é afinal um filme sobre o início de algo, e o refazer de um mundo. Nele é notório o tema recorrente das relações entre pais e filhos (curiosamente o tema principal do filme anterior de De Niro), num lento desenrolar psicológico que já valeu que lhe chamassem “O Padrinho” dos filmes de espionagem.

“O Bom Pastor” dividiu a crítica, conseguindo uma aceitável receita junto do público, isto apesar das críticas da própria CIA, que considerou que a atmosfera e motivações mostradas no filme (a dominância WASP de Yale, o cinismo, o peso do interesse económico) são erradas. Por outro lado, a tese da fuga de informação sobre a invasão da Baía dos Porcos está hoje já comprovada.

Mas é acima de tudo a prestação de Matt Damon que se destaca, num registo diferente e perfeito, marcado pela contenção e subtileza. O filme é aliás repleto de boas interpretações (se exceptuarmos Angelina Jolie, que parece perdida num papel que não lhe diz muito), que que lhe valeu o Urso de Ouro para o elenco, no Festival Internacional de Berlim. O filme recebeu ainda uma nomeação aos Oscars na categoria de Melhor Direcção Artística.

Produção:

Título original: The Good Shepherd; Produção: Universal Pictures / Morgan Creek Productions / Tribeca Productions / American Zoetrope; Produtores Executivos: Francis Ford Coppola, David C. Robinson, Howard Kaplan, Guy McElwaine, Chris Brigham, Andy Fraser; País: EUA; Ano: 2006; Duração: 167 minutos; Distribuição: Universal Pictures; Estreia: 11 de Dezembro de 2006 (EUA), 22 de Fevereiro de 2007 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Robert De Niro; Produção: James G. Robinson, Robert De Niro, Jane Rosenthal; Argumento: Eric Roth; Música: Marcelo Zarvos, Bruce Fowler; Fotografia: Robert Richardson [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Montagem: Tariq Anwar; Design de Produção: Jeannine Oppewall; Direcção Artística: Robert Guerra; Cenários: Gretchen Rau, Leslie E. Rollins, Alyssa Winter; Figurinos: Ann Roth; Caracterização: Carla White; Efeitos Especiais: Steven Kirshoff; Efeitos Visuais: Rob Legato; Direcção de Produção: Joseph E. Iberti.

Elenco:

Matt Damon (Edward Wilson), Angelina Jolie (Margaret ‘Clover’ Russell), Alec Baldwin (Sam Murach), Tammy Blanchard (Laura), Billy Crudup (Arch Cummings), Robert De Niro (Bill Sullivan), Keir Dullea (Senator John Russell, Sr.), Michael Gambon (Dr. Fredericks), Martina Gedeck (Hanna Schiller), William Hurt (Philip Allen), Timothy Hutton (Thomas Wilson), Mark Ivanir (Valentin Mironov #2), Gabriel Macht (John Russell, Jr.), Lee Pace (Richard Hayes), Joe Pesci (Joseph Palmi), Eddie Redmayne (Edward Wilson Jr.), John Sessions (Valentin Mironov #1 / Yuri Modin), Oleg Shtefanko [como Oleg Stefan] (Ulysses / Stas Siyanko), John Turturro (Ray Brocco).

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