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The Russia HouseQuando um pequeno editor londrino, que vive em Lisboa é o destinatário de uma série de cadernos contendo o que supostamente parecem ser segredos sobre as capacidades tecnológicas do lançamento de armamento nuclear soviético, os serviços secretos britânicos decidem tomar conta do caso. O editor, Barley Scott Blair (Sean Connery) é interrogado, e quando se decide de que ele é inocente quanto a todo o caso, é enviado a Moscovo para entrar em contacto com a remetente dos cadernos, Ekaterina ‘Katya’ Borisovna (Michelle Pfeiffer) para descobrir a identidade do seu autor, apenas conhecido como Dante (Klaus Maria Brandauer), e avaliar a veracidade das informações neles contidas.

Análise:

Quando em 1990 “A Casa da Rússia” estreou nos cinemas mundiais, era apenas a segunda produção americana a ter filmagens feitas em plena União Soviética, depois de “Inferno Vermelho” (Red Heat, 1988), de Walter Hill, protagonizado por Arnold Schwarzenegger. Tratou-se de uma co-produção de várias companhias, lideradas pela Pathé Entertainment, a qual insistiu desde logo na presença de Sean Connery à frente de um elenco multinacional. As filmagens passaram por Moscovo, São Petersburgo (então ainda Leninegrado), Lisboa, Vancouver e Londres.

Curiosamente o filme começou a ser produzido ainda antes de o romance de John le Carré (publicado em 1989) chegar às lojas. Foi quase como se se percebesse que o tema estaria brevemente datado, nestes que eram anos vertiginosos da Glasnost e Perestroika. De facto o Muro de Berlim cairia durante o período das filmagens, e a própria União Soviética não resistiria mais que um ano após a estreia do filme. Ainda assim, uma história que falava desse mundo em mudança, e da sua implicação nas relações de espionagem, continuava actual.

“A Casa da Rússia”, cujo nome provém da espécie de alcunha dada ao departamento dos Serviços Secretos britânicos dedicado aos assuntos soviéticos, fala-nos de um manuscrito que, devia ter sido entregue em mãos ao pequeno editor britânico, Bartholomew ‘Barley’ Scott Blair (Sean Connery), aquando da sua visita a uma feira do áudio em Moscovo. Mas Barley não compareceu, e o manuscrito, entregue por Ekaterina ‘Katya’ Borisovna (Michelle Pfeiffer) a um seu colega, acabou nas mãos dos Serviços Secretos Britânicos.

Barley é encontrado em Lisboa, e questionado sobre o caso, que ele desconhece. Acaba por acreditar ser um manuscrito da autoria de uma pessoa que em tempos conheceu como Dante (Klaus Maria Brandauer), e os Serviços Secretos, liderados por Ned (James Fox) convencem-no a regressar para contactar Katya, e perceber quem é Dante, e que veracidade têm aqueles manuscritos que indicam a incapacidade da União Soviética para lançar mísseis de longo alcance. Barley contacta Katya, e cedo começa a ganhar-lhe afecto. Após conquistada a sua confiança, Barley encontra Dante que lhe dá mais um manuscrito para publicar, consciente de que Barley trabalha para o MI6 e a CIA, aqui representada por Russell (Roy Scheider).

Com a CIA convencida, é entregue a Barley uma lista de perguntas para Dante, mas este não volta a aparecer. Enquanto se desconfia se Dante foi ou não já capturado, Barley trabalha em segredo para salvar Katya e a família, trocando a lista pela liberdade destes, à revelia de Ned e Russell, já que a KGB começara a seguir o caso, e a lista de perguntas é importante como uma prova do desconhecimento que o Ocidente tem sobre a situação.

Fazendo extenso uso de paisagens russas, quase como num filme turístico, Fred Schepisi joga com o realismo dos locais e dos comportamentos humanos, para construir uma história que tem tanto de complexo jogo de espionagem, como de romance amoroso. É uma história de desconfianças e confianças, que começa pelo tentar perceber quem é Barley (um verdadeiro inocente, ignorante do que se passa, ou algo mais que isso?), para depois se tentar ganhar uma relação de confiança entre Barley e Katya (um correio sincero, ou algo mais?). O estabelecimento dessas confianças tem repercussões bilaterais. De montante chega-nos Dante (no livro Goethe), o homem desiludido com um regime, que não acredita na verdadeira abertura a não ser que alguém dê algum passo decisivo. Segundo ele, é necessário trair os regimes para se salvar as pátrias, e é nessa convicção que pensa ter encontrado em Barley um cúmplice. A jusante estão o MI6 e a CIA, que se querem certificar da autenticidade da informação, e quem sabe, conseguir ainda mais.

Tudo isto se traduz em várias visitas de Barley à Rússia, nas quais desenvolve uma relação com Katya. Dado a escolher eEntre as missões de pátrias que apenas querem manter um status quo que lhes seja favorável (ao Ocidente não interessa de todo provar o quão obsoleto é o poder nuclear inimigo, pois isso poria em causa o seu próprio investimento militar), e o lado pessoal, Barley vai preferir as pessoas reais, que ele pode amar, e talvez salvar.

Em fundo, neste universo cínico, delicadamente construído por Schepisi, em que as cores frias e húmidas da Rússia ajudam a pintar a frieza emocional dos profissionais, vai-se repetindo a frase de Dante de que é necessário pensar-se como herói para se agir como um ser humano decente. É essa decência que fará de Barley um herói, ao preferir tentar enganar todos, em troca da única coisa de palpável que na verdade pode mudar: a salvação de Katya. Esse é o calor humano que quebra a atmosfera fria do enredo, e vai sendo sugerido pela melancólica banda sonora de Jerry Goldsmith, pontificada pelo saxofone de Branford Marsalis.

O filme triunfa pelo seu excelente elenco, que consegue quer nos momentos de tensão verbal nas salas da epónima Casa da Rússia, quer nos momentos intimistas, entre Sean Connery e Michele Pfeiffer, apresentar-nos personagens credíveis e humanas, com motivações simples e defeitos compreensíveis. Mesmo sendo um filme onde os planos contemplativos dominam e a acção é praticamente nula, o modo como somos colocados passo a passo dentro das cabeças dos líderes da CIA e MI6 é um pano de fundo intenso no qual a história pessoal de Barley ganha mais facilmente a nossa simpatia. Como principais críticas, o argumento de Tom Stoppard foi acusado de trazer lentidão em demasia à história.

A interpretação de Sean Connery, como o complexo e tendencialmente embriagado editor de coração humano, mente desiludida e espírito irreverente, foi muito aplaudida pela crítica, assim como a de Michelle Pfeiffer, cuja serenidade mostra a ponta de um icebergue de sentimento feminino e maternal. Pfeiffer seria nomeada para os Globos de Ouro. Do mesmo modo Fred Schepisi recebeu uma nomeação aos Ursos de Ouro do Festival Internacional de Berlim.

Note-se como curiosidade a participação do excêntrico realizador Ken Russell, no papel do não menos excêntrico agente do MI6, Walter.

Produção:

Título original: The Russia House; Produção: Pathé Entertainment / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Star Partners III Ltd.; País: EUA; Ano: 1990; Duração: 123 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) (EUA), United International Pictures (UIP) (Reino Unido); Estreia: 21 de Dezembro de 1990 (EUA), 23 de Fevereiro de 1991 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Fred Schepisi; Produção: Paul Maslansky, Fred Schepisi; Argumento: Tom Stoppard [baseado no livro homónimo de John le Carré]; Música: Jerry Goldsmith; Saxofone: Branford Marsalis; Fotografia: Ian Baker [filmado em Technovision, cor por Technicolor]; Montagem: Peter Honess, Beth Jochem Besterveld [não creditado]; Design de Produção: Richard Macdonald; Direcção Artística: Roger Cain; Cenários: Simon Wakefield; Figurinos: Ruth Myers; Caracterização: Naomi Donne; Direcção de Produção: Donald L. West, Warren Carr (Vancouver), José Mazeda (Lisboa), Leonid Vereshchagin (Moscovo, Leninegrado).

Elenco:

Sean Connery (Barley), Michelle Pfeiffer (Katya), Roy Scheider (Russell), James Fox (Ned), John Mahoney (Brady), Michael Kitchen (Clive), J.T. Walsh (Quinn), Ken Russell (Walter), David Threlfall (Wicklow), Klaus Maria Brandauer (Dante), Mac McDonald (Bob), Nicholas Woodeson (Niki Landau), Martin Clunes (Brock), Ian McNeice (Merrydew), Colin Stinton (Henziger).

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