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The MacKintosh ManJoseph Rearden (Paul Newman) é convocado por MacKintosh (Harry Andrews), dos serviços secretos britânicos, para uma missão de risco. Rearden começa por roubar um pacote de diamantes enviado por correio, mas uma denúncia leva-o à prisão. Aí conhece as pessoas que lhe propõem uma fuga em troco do dinheiro dos diamantes. Rearden aceita, já que na fuga seguirá também Slade (Ian Bannen), um prisioneiro político, acusado de ser um agente soviético. A fuga leva-os à Irlanda, onde são escondidos na casa de Mr. Brown (Michael Hordern). Mas quando confessa ao político Sir George Wheeler (James Mason) o que está a acontecer, não só Mackintosh é atropelado mortalmente, como Rearden é aprisionado por Brown. Resta-lhe fugir e, com a ajuda da filha de Mackintosh (Dominique Sanda), recapturar Slade, e provar a culpa de Sir George Wheeler.

Análise:

Em 1973 Paul Newman pôs de pé o projecto de um filme de espionagem, filmado na Europa. Newman, familiar com o género, tendo já participado em filmes como “O Prémio” (The Prize, 1963) de Mark Robson e “Cortina Rasgada” (Torn Curtain, 1966) de Alfred Hitchcock, chamou para o realizar, John Huston, um europeu com carreira e Hollywood, com o qual tinha acabado de fazer “O Juiz Roy Bean” (The Life and Times of Judge Roy Bean, 1972), e que vinha também de um filme de espionagem de algum sucesso, “A Carta do Kremlin” (The Kremlin Letter, 1970), cujo estilo frio e amargo era aquilo que Newman desejava para o seu filme.

Mas Huston, um realizador capaz do melhor e do pior, quer no que diz respeito aos resultados, quer no estado de espírito e relação com os seus filmes, levou o projecto pouco a sério, mostrando-se pouco preparado, e pouco motivado para o levar a cabo, o que muito frustrou Paul Newman, que teve de confiar no argumentista (e futuro realizador) Walter Hill e no director de fotografia Oswald Morris, para que o filme avançasse.

Com argumento baseado no livro, publicado dois anos antes, de Desmond Bagley (foi a primeira vez que uma obra de Bagley foi adaptada ao cinema), “O Misterioso Mr. MacKintosh” conta-nos a história de um elaborado plano, pensado pelo director dos serviços secretos britânicos, MacKintosh (Harry Andrews). Nele, Joseph Rearden (Paul Newman) terá de roubar um pacote contendo diamantes enviado por correio, acabando preso por denúncia. Só que a prisão é o objectivo, pois a ideia de MacKintosh é que Rearden seja levado numa fuga que inclua Slade (Ian Bannen), o que consegue dada a reputação do seu roubo de altíssimo valor.

Uma vez fora da prisão, Rearden e Slade são drogados e acordam numa herdade rural da Irlanda, propriedade de Mr. Brown (Michael Hordern), e onde tudo parece correr de acordo com o plano. Mas quando MacKintosh revela o plano ao seu amigo e membro do parlamento, Sir George Wheeler (James Mason), tudo se transfigura. Em Londres. Mackintosh é atropelado mortalmente, e na Irlanda Brown confronta Rearden com a sua traição.

Rearden consegue fugir, e reúne-se com Mrs. Smith (Dominique Sanda), filha de MacKintosh, e a única pessoa que sabe do papel de Rearden. Juntos somam dois e dois, e percebem que Sir George Wheeler é o verdadeiro traidor, e que o plano de Mackintosh, mais que para descobrir uma rede que promovia fugas de prisões, tinha como objectivo expor o parlamentar. Resta-lhes seguir Wheeler, que convenientemente passeava pela Irlanda no seu iate, e segue agora para Malta, para onde Rearden e Smith suspeitam que ele leve Slade. O confronto final dá-se naquela ilha, com a dor filial de Smith e a sua dedicação ao Ocidente a causarem a morte de Wheeler e Slade.

Mantendo-se a atmosfera negra e fria do supracitado filme de Huston, “A Carta do Kremlin”, “O Misterioso Mr. MacKintosh” é mais um filme que opta pela força do argumento, e realismo de factos e acção para construir uma história empolgante de espionagem tendo por pano de fundo a Guerra Fria. Com um enredo que lembra um pouco “O Espião Que Saiu do Frio” (The Spy who Came in from the Cold, 1965), filme de Martin Ritt baseado num livro de John le Carré (no sentido em que também ele leva o espião a ser preso para ganhar a confiança daqueles que pretende espiar), o filme de Huston vai-se-nos revelando por camadas, onde a verdade é um jogo ao alcance de poucos.

O argumento joga com essas várias camadas, revelando-nos os diferentes níveis apenas à medida de que precisamos de saber. Assim, começamos por testemunhar um roubo de diamantes e consequente aprisionamento. Passamos então para a história de uma fuga concertada que deve levar a exposição da rede responsável. E só depois percebemos que esta rede é irrelevante, e o deslize de MacKintosh que levou à descoberta dos intentos de Rearden era apenas mais um golpe que levava a tentar expor o verdadeiro alvo de toda a trama, Sir George Wheeler, o parlamentar inglês, falso patriota e agente soviético.

Filmado em cenários naturais, em Londres, na Irlanda e em Malta, mesmo com o menor envolvimento de Huston, “O Misterioso Mr. MacKintosh” tem bons momentos. É o caso dos diversos volte-faces e cenas de acção (com destaque para a fuga de Rearden e condução a velocidade vertiginosa pelas sinuosas estradas de terra da Irlanda), e alguns ambientes acertados, como as ruas escuras da sequência final em Malta que lembram um pouco “O Terceiro Homem” (The Third Man, 1949) de Carol Reed, o que é intensificado pela música de Maurice Jarre, cuja sonoridade mediterrânica lembra o tema famoso de Anton Karas.

Será, no entanto, o conteúdo político a ditar a resolução da história. Este é bastante assumido em vários momentos. Slade é para Rearden um espião como qualquer outro, e portanto um trabalho a concretizar, mas logo na prisão, onde reúnem criminosos de todos os tipos, estes olham Slade moralmente, como um monstro bem pior que todos eles, pois é comunista. Essa diferença é fatal no desenlace final, quando Rearden e Smith enfrentam Wheeler e Slade. Tendo cada um deles uma pistola apontada a um dos outros, segue-se a natural negociação, em que todos acabam por concordar que não vale a pena arriscar a vida para matar alguém só porque segue uma ideologia diferente. Rearden, o herói que em todo o filme não vemos matar ninguém, mesmo quando essa generosidade lhe pode custar a vida, aceita os argumentos, e dispõe-se a sair vivo. Mas Smith, a filha de MacKintosh encarna o ódio ao comunismo que não pode aceitar viver descansada enquanto houver um comunista vivo, ponderando mesmo matar Rearden por ser demasiado permissivo.

Sendo um filme feito à medida para Paul Newman, apesar da sua boa prestação, há algo de frio em todo o filme que não permite a empatia com a história. Tal deve-se também às presenças de James Mason como um estereotipado aristocrático vilão hitchcockiano, e de uma lacónica Dominique Sanda, pouco à vontade no seu primeiro filme de língua inglesa. Era ainda uma fase em que o cinema de espionagem era já liderado por filmes de maior acção, o que ajudou a que “O Misterioso Mr. MacKintosh”, não sendo um mau filme, passasse despercebido junto do grande público.

Produção:

Título original: The MacKintosh Man; Produção: Newman-Foreman Company; Produtor Executivo: Paul Newman [não creditado]; País: EUA / Reino Unido; Ano: 1967; Duração: 99 minutos; Distribuição: Warner Bros. (EUA), Columbia-Warner Distributors (Reino Unido); Estreia: 25 de Julho de 1973 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: John Huston; Produção: John Foreman; Produtor Associado: William Hill; Argumento: Walter Hill, William Fairchild [não creditado] [a partir do livro “The Freedom Trap” de Desmond Bagley] Música: Maurice Jarre; Fotografia: Oswald Morris [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Montagem: Russell Lloyd; Design de Produção: Terence Marsh; Direcção Artística: Alan Tomkins; Cenários: Peter James; Guarda-roupa: Elsa Fennell; Caracterização: George Frost, Hugh Richards; Efeitos Especiais: Cliff Richardson, Ron Ballinger, Gerry Johnston [não creditado].

Elenco:

Paul Newman (Joseph Rearden), Dominique Sanda (Mrs. Smith), James Mason (Sir George Wheeler), Harry Andrews (Mackintosh), Ian Bannen (Slade), Michael Hordern (Brown), Nigel Patrick (Soames-Trevelyan), Peter Vaughan (Inspector Brunskill), Roland Culver (Juiz), Percy Herbert (Taafe), Robert Lang (Jack Summers), Jenny Runacre (Gerda), John Bindon (Buster), Hugh Manning (Advogado de Acusação), Wolfe Morris (Comissário da Polícia de Malta), Noel Purcell (O’Donovan), Donald Webster (Jervis), Keith Bell (Palmer), Niall MacGinnis (Warder), Eddie Byrne (Pescador), Shane Briant (Cox), Michael Poole (Mr. Boyd), Eric Mason (O Carteiro).

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