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Ed WoodEdward D. Wood Jr. (Johnny Depp) é um realizador e argumentista de Hollywood, cheio de ideias que poucas ou nenhumas vezes podem ser concretizadas. A sua fraca reputação fica ainda mais toldada quando, em 1953, consegue completar “Glen ou Glenda” um filme onde assume publicamente gostar de vestir roupas femininas, para desespero da esposa Dolores Fuller (Sarah Jessica Parker). Ao conhecer e tornar-se amigo do decadente Bela Lugosi (Martin Landau), distante dos seus dias de glória, Ed Wood vai ganhar força para mais uma série de filmes de qualidade duvidosa e produção apressada que incluam a velha lenda, e envolvendo gente tão incaracterística como o lutador Tor Johnson (George ‘The Animal’ Steele), o vidente Criswell (Jeffrey Jones), e a apresentadora de TV Vampira (Lisa Marie).

Análise:

Tim Burton era em 1994 o realizador que o mundo conhecia pelos sucessos de “Batman” (1989) e “Batman Regressa” (Batman Returns (1992), os filmes que tornaram de novo moda as histórias de super-heróis, conferindo ao homem-morcego um ambiente gótico muito elogiado. Era ainda o homem por trás do sucesso inesperado da obra “Eduardo Mãos de Tesoura” (Edward Scissorhands, 1920), uma fantasia gótica de alguns aspectos surreais, e que ficou para a história tanto como a afirmação da nova estrela Johnny Depp, como o último filme com a lenda Vincent Price.

E é o próprio Vincent Price a chave para se perceber “Ed Wood”. Estrela do terror gótico americano dos anos 50, 60 e 70, Price foi uma inspiração para Burton, que lhe dedicou mesmo uma das suas primeiras curtas-metragens de animação, “Vincent” (1982), e cuja aura e imaginário de filmes de série B, sempre acompanhou o realizador. A amizade travada com Vincent Price no final da sua vida recordou a Tim Burton a amizade entre outra estrela em fim de carreira (Bela Lugosi) e um jovem realizador à procura de se afirmar, e responsável por um universo de filmes que lembravam a Burton o início da sua própria carreira. Este era, claro, Edward D. Wood Jr., e assim Burton aceitava o projecto “Ed Wood”, desenvolvido e escrito pelos argumentistas Scott Alexander e Larry Karaszewski, produzido pela Touchtoune Pictures (subsidiária da Disney) depois de a Columbia o haver rejeitado pela insistência de Burton em filmá-lo a preto e branco.

“Ed Wood” conta a história daquele que ficaria mais tarde conhecido como o pior realizador de sempre. O filme inicia-se quando Wood (Johnny Depp) tenta vender a sua ideia de um filme sobre um homem que gostava de se vestir de mulher (ele próprio afinal), e que resultaria em “Glen ou Glenda” (1953), a sua primeira longa-metragem. Por entre exemplos da sua produção apressada, ideias descabidas, e tratamento pouco profissional de cenas e métodos de filmagem, relatam-se os seus desencontros com a esposa e protagonista Dolores Fuller (Sarah Jessica Parker), o modo como tenta financiar os filmes seguintes, a escolha de actores sem experiência como Loretta King (Juliet Landau), ou o lutador Tor Johnson (George ‘The Animal’ Steele), como se faz acompanhar de personagens sexualmente ambíguos como Bunny Breckinridge (Bill Murray), como é patrocinado por gente suspeita como o vidente Criswell (Jeffrey Jones) e a apresentadora de TV conhecida como Vampira (Lisa Marie). Vemos depois a produção de “A Noiva do Monstro” (Bride of the Monster, 1955) e “Plano 9 do Vampiro Zombie” (Plan 9 from Outer Space, 1959), bem como a relação nascente entre Wood e aquela que seria a sua segunda esposa, Kathy O’Hara (Patricia Arquette), e o modo como estes projectos são recebidos.

Mas sobretudo, “Ed Wood” mostra-nos a relação entre o realizador e um decadente Bela Lugosi (Martin Landau), actor em fim de vida, sem emprego, e a braços com dívidas e a dependência de drogas. Encontrando Lugosi por acaso, Wood procura-o como um fã, logo imaginando ser o protagonista do regresso do veterano Drácula à sua melhor forma. Enquanto isso, vivendo parte pela saudade de outros tempos, parte na sua negra realidade, Lugosi começa a ver Wood como o seu único amigo, e dispõe-se a viver com ele os seus devaneios, como se cada produção de decidido mau gosto fosse uma hipótese de regresso ao estrelato.

Há portanto muito de pessoal em “Ed Wood” para Tim Burton, ele próprio um rebelde que sempre lutou contra a maré do bom gosto previamente ditado, sendo conhecido pela excentricidade dos seus filmes. É como uma forma de dizer que Ed Wood é um percursor de Tim Burton, no que existe de sonho e optimismo num cinema que parece provir do lado infantil e descomprometido (e porque não dizer lunático) do realizador.

Por isso “Ed Wood” (tanto o filme como o personagem) nos surgem de certo modo infantilizados, e impregnados de uma inocência pura e infantil, também presente nas personagens de Sarah Jessica Parker e Patricia Arquette, cuja linearidade exagerada e modos simplistas de falar e agir as faz parecer más personagens desenhadas pelo próprio Wood.

Sentindo-se génio quando todos o acham louco, Ed Wood Jr. marca-nos pelo seu constante optimismo, como se todos os revezes fossem uma oportunidade, e todos os fracassos um caminho para o sucesso. Claro que, pela negativa, isso revela-se na forma pouco profissional como aborda as filmagens, aceitando todos os erros como naturais. Pela positiva, o resultado é uma fé inabalável, e um sonho tornado realidade de filmes fantásticos de histórias surreais, monstros impossíveis e combinações estranhas, mesmo que para tal use filme de arquivo (como o polvo) que mistura inadequadamente com cenas filmadas por si, ou que use imagens de Lugosi, para sugerir que ele entra num filme para o qual contratou um duplo que surge sempre de cara coberta.

O “suspension of desbelief” nunca foi tão necessário como para quem assiste a um filme do realizador, onde só com muita imaginação e boa vontade nos deixamos levar pela história, e esquecer o mau argumento, diálogos risíveis, efeitos especiais inconcebíveis e actuações dos piores talentos de Hollywood. Mas é esse encantamento, cujos meios técnicos e artísticos não conseguem sugerir, mas que a mente de Wood tanto quer partilhar, que comove Tim Burton e que através de Johnny Depp e Martin Landau (este com uma interpretação muito elogiada que lhe valeria o Oscar de Melhor Actor Secundário) nos passa a comover a nós.

Porque o cinema não é sempre uma história de sucesso, é no fracasso de Ed Wood Jr. que Tim Burton nos dá a viver muita da sua magia, com o seu olhar arguto e descomprometido, aqui a meio caminho entre a comédia satírica e uma história comovente de amizade e sonho.

O filme venceu ainda o Oscar de Melhor Maquilhagem, e Martin Landau juntou ao seu Oscar um Globo de Ouro e o prémio da Screen Actors Guild.

Produção:

Título original: Ed Wood; Produção: Touchstone Pictures; Produtor Executivo: Michael Lehmann; País: EUA; Ano: 1994; Duração: 126 minutos; Distribuição: Touchstone Pictures; Estreia: 23 de Setembro de 1994 (EUA), 2 de Junho de 1995 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Tim Burton; Produção: Denise Di Novi, Tim Burton; Co-Produção: Michael Flynn; Argumento: Scott Alexander, Larry Karaszewski [a partir do livro “Nightmare of Ecstasy” de Rudolph Grey]; Música: Howard Shore; Fotografia: Stefan Czapsky [filmado em Panavision, preto e branco]; Montagem: Chris Lebenzon; Design de Produção: Tom Duffield; Direcção Artística: Okowita; Cenários: Cricket Rowland; Figurinos: Colleen Atwood; Caracterização: Ve Neill; Efeitos Especiais: Howard Jensen; Efeitos Visuais: Paul Boyington; Direcção de Produção: Michael Polaire.

Elenco:

Johnny Depp (Ed Wood), Martin Landau (Bela Lugosi), Sarah Jessica Parker (Dolores Fuller), Patricia Arquette (Kathy O’Hara), Jeffrey Jones (Criswell), G. D. Spradlin (Reverendo Lemon), Vincent D’Onofrio (Orson Welles), Lisa Marie (Vampira), Bill Murray (Bunny Breckinridge), Mike Starr (Georgie Weiss), Max Casella (Paul Marco), Brent Hinkley (Conrad Brooks), Juliet Landau (Loretta King), George ‘The Animal’ Steele (Tor Johnson).

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