Etiquetas

, , , , , , , , , , , , , , ,

The Kremlin LetterEm 1969, o oficial da Marinha Norte Americana Charles Rone (Patrick O’Neal) é dispensado da carreira militar, para ser recrutado por uma companhia de espionagem. A sua missão é reunir um grupo de ex-espiões, que sob as ordens de Ward (Richard Boone) executarão o plano desenhado pelo famoso Highwayman (Dean Jagger), homem de confiança de um antigo espião por conta própria, conhecido por Sturdevant. A missão é entrar a União Soviética, e descobrir onde está a carta comprometedora que o antigo agente duplo, Polyanov, iria entregar a um alto oficial soviético, quando foi capturado pelo agente de contra-espionagem, Coronel Kosnov (Max von Sydow), que viria a casar com a mulher de Polyanov, a bela e instável Erika (Bibi Andersson).

Análise:

Numa variação à sua carreira, em que muitas vezes se dedicou a filmar o submundo criminoso e amoral das ruas negras dos Estados Unidos, John Huston filmava na Europa aquele que seria o primeiro de dois filmes de espionagem internacional em três anos: “A Carta do Kremlin”.

Rodado nos estúdios da Cinecittà, em Roma, com exteriores no México, e em Helsínquia, Finlândia, por ser o que de mais próximo se podia fazer da retratada União Soviética, Huston baseou-se numa obra de 1966 do escritor Noel Behn, antigo membro dos serviços secretos norte-americanos. O resultado foi um filme complexo, amargo e frio, de enorme realismo, liderado por um elenco de veteranos, excelentes actores, ainda que não cotados como estrelas.

Tendo por base a Guerra Fria, “A Carta do Kremlin” centra-se em torno de uma carta, escrita sem consentimento das autoridades norte-americanas, prometendo ajuda à União Soviética contra a China, caso esta ganhasse capacidade nuclear. A carta que poderia ser entendida como uma declaração de guerra foi pedida por Polyanov, um espião duplo russo, para um alto oficial soviético que não se sabia quem era. Com a morte de Polyanov às mãos de Kosnov (Max von Sydow), um implacável agente de contra-espionagem, havia que recuperar a carta.

Para tal é recrutado oficial de Marinha, para isso demitido, Charles Rone (Patrick O’Neal), o qual tem como missão reunir um grupo de ex-espiões, que sob as ordens de Ward (Richard Boone) e do chamado Highwayman (Dean Jagger), homem de confiança de um antigo espião por conta própria, conhecido por Sturdevant. O grupo incluirá “The Whore” (Nigel Green), traficante de droga e proxeneta, “The Warlock” (George Sanders), homossexual de gostos requintados, e com facilidade nos meios culturais, “The Erector Set” (Niall MacGinnis), um ladrão altamente especializado. Este último, a sofrer de artrite, envia a filha, por ele treinada, B.A. (Barbara Parkins). Juntos constituirão um grupo independente, ao jeito do que se fazia durante a Segunda Guerra Mundial, nos tempos do citado Sturdevant.

Em Moscovo, Charles Rone toma a liderança, reunindo a informação recebida por todos os outros, enquanto o membro do Comité Central, Bresnavitch (Orson Welles), começa a desconfiar que Kosnov, entretanto casado com Erika (Bibi Andersson), a instável viúva de Polyanov, possa não estar à altura de descobrir o grupo. Numa jogada final, Bresnavitch prende ou mata todo o grupo, com apenas Rone, entretanto amante de Erika, a escapar e a negociar a libertação de Ward, por chantagem com a carta que ele não tem.

Só nessa altura Ward se revela como o desaparecido Sturdevant, cujo objectivo era matar o seu velho inimigo Kosnov. Atingindo o seu fim, Ward deixa Rone seguir viagem, mantendo-o sob chantagem pela vida de B. A., que ele tem consigo, ao mesmo tempo que chantageia Bresnavitch em dar-lhe o lugar de Kosnov.

Como se perceberá da sinopse anterior, “A Carta do Kremlin” é um filme complexo, com um enredo sinuoso, de muitas reviravoltas, muitos personagens, nomes estranhos, e contínuas referências à história destes personagens e de alguns já desaparecidos. Como sempre acontece nas melhores destas histórias vale o “trust no one”, em que poucas personagens são o que parecem, e geralmente a missão principal é apenas fumo para disfarçar objectivos escondidos.

Como se não bastasse a sinuosidade do argumento, e o final amargo do filme, Huston enegrece mais as coisas com viagens ao submundo de prostituição, drogas, adultério, vinganças pessoais, homossexualidade, e claro, várias menções a práticas de tortura e mesmo de genocídio. Aos poucos vamos perdendo qualquer ilusão de estarmos num jogo de bons contra maus, vendo como todos jogam um jogo de vale tudo, onde quaisquer meios são lícitos, e ninguém (salvo no breve momento em que B. A. lacrimeja, quando dá o passo de entregar pela primeira vez o seu corpo como arma de espionagem) pode considerar ter ainda uma alma a salvar.

No meio de todos os personagens, será Charles Rone (o nosso mediador, e os olhos pelos quais vamos conhecendo a história) aquele que ainda mantém alguma humanidade. Verdadeiramente interessado na carta que pode evitar uma guerra, sentindo-se responsável pela jovem B. A., negociando com unhas e dentes a libertação dos colegas, e não indo tão longe como o pedido, na relação fetichista com Erika, Rone luta por alguma sanidade e coerência, num mundo negro e desumano.

Fazendo uso das ruas de Helsínquia, para simular Moscovo, “A Carta do Kremlin” destaca-se pela permanente tensão, num filme onde o mundo da espionagem nos é apresentado (à imagem do realizador), como algo negro, amoral, e muito amargo. O realismo numa história sem heróis ou qualquer tipo de glamour, bebe ainda da presença de muitos actores experientes, todos (de Orson Welles a Patrick O’Neal, passando por Max von Sydow, Richard Boone, Nigel Green, George Sanders e Dean Jagger) capazes de dominar cada cena, mas sem que nenhum seja uma estrela mediática.

Tal, juntamente com a complexidade e amargura da história, terá sido o maior pecado do filme, que foi um completo fracasso de bilheteira. Apesar disso não se pode deixar de enaltecer o brilhante argumento, design e trabalho do elenco, onde Patrick O’Neal (sem a fama dos outros considerados para o papel: Steve McQueen, Warren Beatty, Robert Redford e James Coburn) é extremamente convincente. Apesar dessa má reacção inicial, e como tantas vezes aconteceu na obra de John Huston, “A Carta do Kremlin” é hoje considerado um dos mais importantes filmes dedicados a histórias de espionagem.

“A Carta do Kremlin” foi ainda notável por, além de usar o russo como língua a par do inglês, ter muitas cenas em que os personagens começam por falar em russo, com dobragem inglesa dos próprios actores em off, para, frases depois, os actores transitarem para inglês.

Produção:

Título original: The Kremlin Letter; Produção: Twentieth Century-Fox Film Corporation; País: EUA; Ano: 1970; Duração: 115 minutos; Distribuição: Twentieth Century-Fox Film Corporation; Estreia: 1 de Fevereiro de 1970 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: John Huston; Produção: Carter De Haven, Sam Wiesenthal, John Huston [não creditado]; Argumento: John Huston, Gladys Hill [baseado no livro homónimo de Noel Behn]; Música: Robert Drasnin; Fotografia: Edward Scaife [filmado em Panavision, cor por DeLuxe]; Montagem: Russell Lloyd; Design de Produção: Ted Haworth; Direcção Artística: Elven Webb; Cenários: Dario Simoni; Figurinos: John Furniss; Caracterização: George Frost; Direcção de Produção: David C. Anderson.

Elenco:

Bibi Andersson (Erika Kosnov), Richard Boone (Ward), Nigel Green (The Whore), Dean Jagger (Highwayman), Lila Kedrova (Madam Sophie), Micheál MacLiammóir (Sweet Alice), Patrick O’Neal (Charles Rone), Barbara Parkins (B.A.), Ronald Radd (Capitão Potkin), George Sanders (Warlock), Raf Vallone (Puppet Maker), Max von Sydow (Coronel Kosnov), Orson Welles (Bresnavitch), Sandor Elès (Tenente Grodin), Niall MacGinnis (Erector Set), Anthony Chinn (Doutor Kitai), Guy Dechy (Professor), John Huston (Almirante), Fulvia Ketoff (Sonia Potkin).

Anúncios