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VampyrAllan Grey (Julian West) é um jovem estudante do oculto, em viagem pelo campo. Quando está hospedado numa estalagem, começa a testemunhar factos inexplicáveis, como sombras que se movem sozinhas, ou vultos que se materializam e desmaterializam. Investigando nos arredores, Allan vai ter a uma mansão, onde vê o dono (Maurice Schutz) ser assassinado. Oferecendo a sua ajuda, Allan vai vendo como um estranho ser desfere ataques entre as pessoas das redondezas, incluíndo Léone (Sybille Schmitz), filha do dono da mansão, e que parece sofrer de anemia. Allan tem consigo o livro do dono da mansão, que fala sobre vampirismo. Entretanto vigia os estranhos comportamentos de todos, sonhando com a sua própria morte.

Análise:

Em 1932 Carl Theodor Dreyer sucedia o seu famoso “A Paixão de Joana d’Arc” (La passion de Jeanne d’Arc, 1928) com um dos filmes mais difíceis da sua carreira. Baseando-se em “In a Glass Darkly”, uma colecção de contos de J. Sheridan Le Fanu, que nos traz uma vampira do sexo feminino e um funeral acompanhado de dentro do caixão, Dreyer compôs um filme que é ao mesmo tempo uma história de terror, mas muito mais.

Usando actores não profissionais, filmando em cenários naturais, tanto em exteriores como em interiores, fazendo-se valer de uma luz natural (com propositada sobre-exposição) que dá por vezes um aspecto grosseiro e cru à imagem de contrastes exagerados (em que o uso de gaze sobre a câmara ajuda a conferir às imagens um aspecto irreal), Dreyer confiou principalmente na força do seu imaginário e montagem, para contar uma história que, embora num filme sonoro, vale sobretudo pelo poder das imagens, com diálogos pouco proeminentes.

A história é a de Allan Grey (Julian West), um jovem que vive obcecado pelo oculto, e que, uma viagem pelo campo, o vai levar a Courtempierre (França), onde vai testemunhar acontecimentos bastante inquietantes. Tudo começa quando durante a noite (será enquanto sonha?), um homem idoso lhe surge no quarto, pedindo que não deixe a sua filha morrer, e lhe indica um embrulho, para ser aberto depois da sua morte. Allan passa a ver cenas estranhas de explicar, desde sombras que se movem sozinhas, até figuras estranhas, e pessoas que aparecem e desaparecem, sem explicação. A sua busca leva-o a um castelo e depois a uma mansão vizinha, cujo dono (o homem idoso do seu sonho) é morto a tiro à sua frente.

Entrando para prestar auxílio, Allan vai testemunhar o desaparecimento e ataque a Léone (Sybille Schmitz), uma das filhas do dono da mansão, a qual vai fica de cama com aparente anemia. A partir de então mais eventos estranhos se sucedem na mansão, com Allan a perder-se entre sonhos e visões, desde imaginar-se a assistir ao seu próprio funeral, até acompanhar as diligências do estranho médico local (Jan Hieronimko), que era o homem que ele vira no castelo, e que após uma transfusão de sangue vai tentar envenenar a sua paciente. Tudo termina quando Allan persegue o médico, e o velho caseiro (Albert Bras) mata a vampira, trespassando-lhe o coração.

Com os actores a comportarem-se de modo teatral e estilizado, num filme em que a expressão corporal conta mais que as palavras, “Vampiro” conta-nos uma história estranha, difícil de narrar, dados os momentos surreais, misturas entre sonhos e realidade, e enorme número de aparições fantasmagóricas (obtidas com duplas exposições que dão a alguns personagens a aparência de semi-transparência).

É todo um imaginário arrepiante e desconcertante, de passagens estreitas, portas fechadas, escadarias misteriosas, e grande número de cenários (celeiros, moinhos, oficinas, sótãos) bizarros e difíceis de definir, como sempre que se pensa no mundo dos sonhos. É um mundo de contraste entre sombra e luz (mortos-vivos e vivos), onde estas podem ser tão inquietantes como a de alguém que escava um buraco ao contrário (simbolizando talvez os mortos que abandonam o túmulo). Por esse mundo, nem todas as personagens são fáceis de definir, desde o comportamento excêntrico do médico à segunda irmã, Gisèle (Rena Mandel), que parece estar também em transe, passando pelo guarda de uma só perna, cuja sombra o abandona, até à misteriosa figura que passeia pelo cemitério (Henriette Gérard), que descobriremos alimentar-se do sangue das suas vítimas. Se pouco nos é dado em termos de explicações, “Vampiro” vale sobretudo pela sua atmosfera inquietante e estranha, que apela ao que de mais visceral pode haver no medo humano, onde o ritmo lento e os longos planos-sequência têm efeito perturbador.

Se a nível de fotografia e montagem, o filme de Dreyer é notável, por tanto nos intrigar e inquietar, mais valor ainda tem pelo elenco não profissional que tão boa conta dá da atmosfera irreal pretendida pelo realizador. De facto, Jan Hieronimko (o médico) era um jornalista polaco, Rena Mandel (Gisèle) uma modelo, e o protagonista, Julian West, (cujo verdadeiro nome era Barão Nicolas de Gunzburg e que ajudou a pagar o filme), era um nobre russo nascido em França e que nos Estados Unidos se tornaria jornalista de moda. Apenas Sybille Schmitz e Maurice Schutz eram actores profissionais.

O filme começou por ser filmado como mudo (o uso de intertítulos, e de inserts com páginas de livros assim o denuncia), passando depois a conter cenas faladas. Ao mesmo tempo foi decidido que estas seriam dobradas em inglês, francês e alemão. Tal resultou em várias versões, cujas diferentes montagens dependiam da censura de cada país, tendo posteriormente gerado reconstituições que são compósitos de versões diferentes.

Produção:

Título original: Vampyr – Der Traum des Allan Grey; Produção: Tobis Filmkunst; País: Alemanha / França; Ano: 1932; Duração: 83 minutos; Distribuição: Vereinigte Star-Film GmbH; Estreia: 6 de Maio de 1932 (Alemanha).

Equipa técnica:

Realização: Carl Theodor Dreyer; Produção: Christen Jul [não creditado], Carl Theodor Dreyer [não creditado]; Argumento: Christen Jul, Carl Theodor Dreyer [baseado no livro de Sheridan Le Fanu]; Música: Wolfgang Zeller; Fotografia: Rudolph Maté, Louis Née [não creditado] [preto e branco]; Montagem: Tonka Taldy [não creditado]; Direcção Artística: Hermann Warm; Cenários: César Silvagni [não creditado]; Efeitos Especiais: Henri Armand [não creditado].

Elenco:

Julian West (Allan Grey), Maurice Schutz (O Senhor da Mansão), Rena Mandel (Gisèle), Sybille Schmitz (Léone), Jan Hieronimko (O Médico da Aldeia), Henriette Gérard (A Velha do Cemitério), Albert Bras (O Velho Caseiro), N. Babanini (A Sua Mulher), Jane Mora (A Ama), Georges Boidin (O Perneta).

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