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Funeral in BerlinHarry Palmer (Michael Caine) é chamado a Berlim para supervisionar a fuga para o Ocidente do Coronel Stok (Oskar Homolka), o alto oficial soviético encarregue da vigilância do Muro de Berlim. Embora Palmer não acredite nos motivos do velho coronel, acede a contratar o especialista Kreutzman (Günter Meisner), ao mesmo tempo que percebe estar a ser investigado pela bela Samantha Steel (Eva Renzi). As desconfianças aumentam quando o nome e documentos falsos que os serviços secretos fornecem para a nova identidade de Stok parece ser a de alguém que Samantha persegue. Em breve Harry Palmer percebe ser vítima de jogos que o tornam essencialmente uma vítima dispensável.

Análise:

Bastou apenas um ano para que Harry Saltzman, o homem por detrás de “O Caso Ipcress” (The Ipcress File, 1965), estreasse um novo filme do personagem Harry Palmer, baseado nos livros de Len Deighton. A ideia era construir uma série paralela à de James Bond (na qual Saltzman e parte da equipa destes filmes também trabalhava), também dedicada a espionagem internacional, mas sem a fantasia de 007, com histórias mais realistas e um protagonista que fosse o oposto do glamour e atitude de quase super-herói, apresentada pela personagem baseada nos livros de Ian Fleming.

A dirigi-lo estava agora Guy Hamilton, que já realizara “007 – Contra Goldfinger” (Goldfinger, 1964) e realizaria pouco depois outros três filmes da série do mais famoso espião do mundo (tendo ele próprio experiência como agente dos serviços secretos durante a Segunda Guerra Mundial). No papel principal continuava Michael Caine, como o cínico e insolente Harry Palmer, que vive de salário mínimo, e precisa de uns óculos de lentes espessas que não lhe dão nenhum do charme habitual em Bond.

Desta vez, Palmer (Caine), agora em melhores graças com o seu superior Ross (de novo Guy Doleman), é enviado a Berlim, porque o responsável soviético da vigilância sobre o Muro de Berlim, o veterano Coronel Stok (Oskar Homolka), quer fugir para o Ocidente. Tal é a convicção do homem no terreno, Johnny Vulkan (Paul Hubschmid), que mantém o contacto com Stok. Embora Palmer não acredite nas razões de Stok, e se sinta incomodado por estar a ser seguido, e ter a investigá-lo a bela Samantha Steel (Eva Renzi, com voz dobrada por Nikki Van der Zyl), pressão superiora leva-o a fazer os preparativos com o especialista Kreutzman (Günter Meisner), condição imposta por Stok.

De volta a Inglaterra, Palmer obtém documentos falsos para Stok, para descobrir que estes estão em nome de Paul Louis Broum, um nome investigado por Samantha Steele, que se revela uma espia de Israel em busca de ex-nazis com dinheiro roubado a judeus. Quando ocorre a troca, num caixão, Palmer recebe o corpo de Kreutzman em vez de Stok, percebendo que foi tudo uma maquinação para se matar o especialista em fugas. Ao mesmo tempo Johnny Vulkan revela-se como o verdadeiro Paul Louis Broum, que congeminara tudo com Stok para ter uma forma de receber os documentos que provem a sua identidade e o façam recuperar o dinheiro escondido na Suíça. Assim, Palmer tem não só de escapar a Vulkan, como obter provas de que é este o culpado, enquanto tenta evitar que os israelitas o eliminem.

Mais movimentado que o seu predecessor, “O Meu Funeral em Berlim” perde talvez um pouco da atmosfera cinzenta e amarga daquele filme, para nos dar uma trama complexa, e onde Harry Palmer surge agora com um cinismo apurado, resultando em diversas tiradas de um humor fino e mordaz.

O ponto mais alto do filme é, obviamente, o seu argumento, por vezes demasiado inteligente para o espectador menos atento, e tocando pontos sensíveis no seu tempo, como ex-nazis empregados pelos aliados nos seus serviços secretos e contas na Suíça com dinheiro roubado aos judeus. Nele, devido a uma série de trapaças que vão enrolando o protagonista até, apenas muito tarde, perceber de facto o que se está a passar, Palmer surge quase como um anti-herói de um filme noir, onde a fria e inóspita Berlim representa tudo o que de mau o homem enclausurou numa cidade, e onde ele está sozinho, sem poder confiar em ninguém.

Tal como acontecera com “O Caso Ipcress”, o filme de Guy Hamilton destaca-se pela caracterização do protagonista, pelo realismo da história, que nos faz lembrar o mundo de John le Carré, e pelo uso dos cenários exteriores naturais, neste caso filmados com beleza na Berlim da Guerra Fria (segundo se conta, com os soldados do lado oriental a tentar boicotar algumas filmagens com espelhos) e em Londres.

Harry Palmer voltaria aos ecrãs, de novo protagonizado por Michael Caine e a partir de novo livro de Len Deighton, em “Um Cérebro Por Um Milhão” (Billion Dollar Brain, 1967) de Ken Russell.

Produção:

Título original: Guy Hamilton; Produção: Jovera / Lowndes Productions Limited / Paramount Pictures; Produtor Executivo: Harry Saltzman; País: Reino Unido / EUA; Ano: 1966; Duração: 98 minutos; Distribuição: Paramount British Pictures (Reino Unido), Paramount Pictures (EUA); Estreia: 22 de Dezembro de 1966 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Funeral in Berlin; Produção: Charles D. Kasher; Argumento: Evan Jones [baseado no livro homónimo de Len Deighton]; Música: Konrad Elfers; Direcção Musical: Harry Rabinowitz; Fotografia: Otto Heller [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Montagem: John Bloom; Design de Produção: Ken Adam; Direcção Artística: Peter Murton; Cenários: Vernon Dixon, Michael White [não creditado]; Guarda-roupa: Barbara Gillett, Brian Owen-Smith; Caracterização: Freddie Williamson, Benny Royston; Direcção de Produção: Karl Heinz Elsner, Clifford Parkes.

Elenco:

Michael Caine (Harry Palmer), Paul Hubschmid (Johnny Vulkan), Oskar Homolka (Coronel Stok), Eva Renzi (Samantha Steel), Guy Doleman (Coronel Ross), Hugh Burden (Hallam), Heinz Schubert (Aaron Levine), Wolfgang Völz (Werner), Thomas Holtzmann (Reinhardt), Günter Meisner (Kreutzman), Herbert Fux (Artur), Rainer Brandt (Benjamin), Rachel Gurney (Mrs. Ross), Ira Hagen (Monica), John Abineri (Rukel), David Glover (Chico).