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La passion de Jeanne d'ArcJoana D’Arc (Maria Falconetti), heroína francesa da Guerra dos Cem Anos, que viveu e combateu no século XV, vive os seus últimos momentos na prisão, onde é julgada por heresia. Joana assegura que ouve a voz de Deus, e é este que lhe ordena que lute pelo Delfim de França. O tribunal é liderado pelo bispo inglês Pierre Cauchon (Eugene Silvain), que insiste para que a jovem confesse o seu arrependimento, e diga que foi manipulada pelo demónio. Apesar da ameaça de morte, e do ambiente hostil à sua volta, Joana mantém-se firme na sua fé, e aceita morrer sem negar aquilo em que acredita.

Análise:

Em 1928, o mais célebre realizador dinamarquês do seu tempo, Carl Theodor Dreyer, encontrava-se em França, onde realizaria dois filmes, sendo o primeiro dedicado a uma das heroínas deste país, Joana D’Arc. A quase mítica personagem da história de França havia sido canonizada pela Igreja Católica, em 1920, e a atmosfera do pós-guerra, com todos os traumas inerentes e chamadas pelo nacionalismo, foi terreno fértil para o convite a Dreyer para um filme sobre um símbolo nacional.

Podendo escolher entre Catarina de Medicis, Marie Antoinette e a donzela guerreira do século XV, Dreyer optou pela última, após um ano de pesquisas, e depois de ter encontrado a recente publicação de transcrições do julgamento de Joana D’Arc, editadas por Pierre Champion em 1921.

O filme de Dreyer acompanha, por isso, os últimos momentos da vida de Joana (interpretada pela francesa Maria Falconetti, nome de palco de Renée Jeanne Falconetti), desde o seu julgamento até à execução. Joana foi uma devota francesa, que desde muito jovem disse ouvir a voz de Deus, que segundo ela a impelia a lutar por França e por Carlos VII, o Delfim, e futuro rei de França. Vivia-se a Guerra dos Cem Anos, com o reino de Inglaterra a dominar grande parte do território francês, e a ascensão de Joana foi um trunfo importante na mobilização das tropas e luta por um objectivo. Joana seria finalmente capturada em Compiegne, pelas tropas da Borgonha, aliada de Inglaterra, e levada para Rouen, na Normandia, onde foi julgada em 1431 por um clero fiel aos ingleses, dominado pela figura do bispo de Beauvais, Pierre Cauchon (Eugène Silvain).

O que mais espanta no filme de Carl Dreyer é a sua opção pelo uso dos grandes planos, que constituem a esmagadora maioria do filme. Quase sem acção, e sem planos que nos transmitam movimento, “A Paixão de Joana D’Arc” centra-se nas emoções expressas unicamente pelos rostos, que muitas vezes preenchem a totalidade dos planos. Há ainda uma nítida influência do Expressionismo, nos cenários, plenos de linhas oblíquas e formas irregulares, e nos ângulos (note-se como Joana D’Arc surge quase sempre obliquamente quanto ao enquadramento, e os seus inquisidores filmados quase sempre de baixo), mas ao contrário do habitual chiaroscuro dessa estética, “A Paixão de Joana D’Arc” é um filme de luz, onde o branco é quase ele próprio parte do cenário, e onde o verdadeiro décor parecem ser os rostos.

Para tal, Dreyer insistiu que nenhum dos actores usasse maquilhagem, para que houvesse mais detalhe nos rostos filmados de perto. Estes são ricos, vívidos, quase contando histórias por si só. Desde a expressividade dos vários padres, inquisidores e juízes, num grotesco quase inumano, até, claro, à enorme expressividade de Maria Falconetti no papel principal, onde cada olhar, cada franzir de sobrolho, cada movimento facial, cada lágrima, contam como um filme dentro do filme.

Conseguindo uma incrível expressividade com um método aparentemente tão simples e limitado, Dreyer conseguiu um dos filmes mais emblemáticos da história do cinema, verdadeira experiência visual, que, apesar do dinheiro investido nos cenários, optou por os deixar quase de fora. Mantém-se hoje como um modelo de como, através de um olhar sereno, se consegue uma tal expressividade de sentimentos interiores, que não precisam ser usados histrionicamente no ecrã, quando a empatia com o espectador é tal que, em cada olhar da actriz, se consegue compreender um universo emocional interior, numa obra que fala de fé, da alma humana, e de sacrifício.

E como é de fé que se trata, note-se o sentido religioso do filme. De particular efeito (e numa das mais criticadas sequências do filme) é o aprisionamento de Joana, com os seus carcereiros a humilhá-la, colocando-lhe na cabeça, em jeito de coroa, uma armação em verga, no que é um claro espelho da humilhação de Jesus Cristo pelos soldados romanos no episódio bíblico da coroa de espinhos.

“A Paixão de Joana D’Arc” foi ele próprio um caminhar pelo martírio, com o filme a perder-se num fogo pouco depois da sua estreia. Sem possibilidades de o voltar a filmar, Dreyer optou por fazer uma nova montagem, a partir de takes inicialmente rejeitadas, mas esta versão viria também a perder-se. O filme viria a existir em diferentes montagens, mutiladas pela censura até que, em 1981, uma cópia da versão original foi encontrada numa instituição psiquiátrica em Oslo. A partir dessa cópia foi feita, em 1985, a restauração que hoje é a base de todas as versões editadas comercialmente. Estas versões usam como acompanhamento a peça “Voices of Light” do compositor Richard Einhorn, embora Dreyer nunca tivesse explicitado que música queria com o seu filme.

O filme foi considerado desde logo uma obra-prima em França, apesar de ser um fracasso de bilheteira, o que Dreyer considerou ser culpa dos cortes da censura. Na Inglaterra “A Paixão de Joana D’Arc” foi banido, pelo seu conteúdo anti-britânico. Com o passar dos anos, novas gerações de críticos têm sido unânimes em considerar a obra e a interpretação de Falconetti como das mais importantes da história do cinema.

Produção:

Título original: La passion de Jeanne d’Arc; Produção: Société générale des films; País: França; Ano: 1928; Duração: 80 minutos; Distribuição: Gaumont (França); Universum Film (UFA) (Alemanha); Estreia: 21 de Abril de 1928 (Dinamarca), 18 de Março de 1929 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Carl Theodor Dreyer; Argumento: Carl Theodor Dreyer, Joseph Delteil; Consultor Histórico: Pierre Champion; Música: Richard Einhorn [versão restaurada]; Fotografia: Rudolph Maté [preto e branco]; Montagem: Marguerite Beaugé [não creditada], Carl Theodor Dreyer [não creditado]; Cenários: Hermann Warm, Jean Hugo; Figurinos: Valentine Hugo.

Elenco:

Maria Falconetti [Renée Jeanne Falconetti] (Joana d’Arc), Eugene Silvain (Bispo Pierre Cauchon), André Berley (Jean d’Estivet), Maurice Schutz (Nicolas Loyseleur), Antonin Artaud (Jean Massieu), Michel Simon (Jean Lemaître), Jean d’Yd (Guillaume Evrard), Louis Ravet (Jean Beaupère), Armand Lurville [como André Lurville] (Juiz), Jacques Arnna (Juiz), Alexandre Mihalesco (Juiz), Léon Larive (Juiz).

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