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The Deadly AffairCharlie Dobbs (James Mason) é um agente da contra-espionagem britânica, a cargo de investigar uma carta anónima que indica um funcionário governamental, Samuel Fennan (Robert Flemyng), como comunista. A conversa entre ambos é agradável, mas Dobbs recebe a notícia do subsequente suicídio de Fennan. Não acreditando que o homem com quem falou se fosse suicidar, Dobbs vai investigar o caso, começando pela viúva de Fennan (Simone Signoret), sendo em breve seguido, e vítima de um atentado. Isto enquanto em casa vê a mulher (Harriet Andersson) cada vez mais distante, pensando trocá-lo pelo seu amigo austríaco, Dieter Frey (Maximilian Schell).

Análise:

Com “Duas Plateias para a Morte”, a partir do seu livro “Call For The Dead”, John le Carré era pela segunda vez adaptado ao cinema, depois do sucesso de “O Espião Que Saiu do Frio” (The Spy Who Came in from the Cold, 1955) de Martin Ritt. Era de novo o filmar de histórias frias e desapaixonadas de agentes que eram, acima de tudo, pessoas com problemas e vidas monótonas, longe do romantismo das grandes histórias de acção.

Depois de Richard Burton, desta vez o protagonista era outro peso pesado de Hollywood, o também britânico James Mason, numa realização (e produção), entregue a Sydney Lumet, um realizador afamado pelos seus olhares negros sobre o mundo do crime e da alma humana, sempre com enorme realismo e jogos de tensão. Como a Paramount detinha os direitos do livro de le Carré (por sinal o seu primeiro), Lumet teve de fazer algumas alterações, com o célebre George Smiley a mudar de nome para Charlie Dobbs (Mason).

Tudo começa quando, após uma carta anónima, Dobbs agente da contra-espionagem britânica, vai entrevistar o visado pela carta, Samuel Fennan (Robert Flemyng), um funcionário governamental que aquela acusa de ser um espião comunista. Satisfeito com a entrevista, Dobbs é surpreendido quando no dia seguinte é informado do suicídio de Fennan. Não podendo acreditar que Fennan se fosse suicidar, Dobbs começa por entrevistar a viúva, Elsa Fennan (Simone Signoret), e mais detalhes o fazem acreditar que algo se passa.

Quando as coisas em casa pioram, com Dobbs a descobrir que a mulher (Harriet Andersson), que ele ama, e que frequentemente o trai, está a iniciar um caso com o amigo dele, Dieter Frey (Maximilian Schell), Dobbs demite-se. Mas as coisas não melhoram, com Dobbs a ser seguido, e sobrevivendo a um atentado quando investigava uma pista com o polícia reformado Mendel (Harry Andrews). A perseguição àquele que tentou matar Dobbs, e que seguramente matou Fennan, acaba por indicar que Elsa Fennan mentia. Resta preparar-lhe uma armadilha para ver de quem ela recebe ordens, o que vai misturar a vida profissional e pessoal de Dobbs de uma forma que ele não esperava.

Filmado numa Inglaterra permanentemente fria, húmida, cinzenta e desolada, “Duas Plateias para a Morte” é um exemplo, tanto das histórias realistas e despojadas de glamour de John le Carré, como da atmosfera fria e crua, mas de emoções intensas, das obras de Sydney Lumet.

Poucas vezes um filme de espionagem foi tão carregado de uma história pessoal, dir-se-ia mesmo de um drama passional. Tudo porque Charlie Dobbs, que é agressivo no trabalho, mas meigo em casa, vê o seu casamento desmoronar-se. Ann ama-o ao seu jeito, mas confessa que os seus desejos sexuais a levam a procurar o máximo de parceiros possível. Quanto a Dobbs, prefere não saber das escapadas de Ann, desde que esta o deixe amá-la. O seu maior medo é que um dia ela se apaixone e o queira deixar.

Por isso Dobbs é um cego em casa, e é arguto na profissão, não deixando pista por investigar, mesmo que isso o coloque em maus lençóis com os superiores. É dessa teimosia, e do seu instinto natural que nasce a investigação de um caso que todos preferem esquecer como suicídio. Esta vai trazer o perigo do comunismo infiltrado no governo inglês, as lealdades ambíguas do pós-guerra, de quem sofreu com o nazismo e procura agora vingar-se, lutando por conta própria. Como o próprio Dobbs afirma a certo momento, é daqueles que querem a paz que os comunistas se sabem servir.

A conclusão, depois de uma investigação de episódios detectivescos, que tornam “Duas Plateias para a Morte” quase um policial clássico, é a de que quem usa os outros usa também o casal Dobbs. Isto é, o amigo suíço, protegido de Dobbs durante a guerra, Dieter Frey, que tinha surgido convenientemente em Londres, e que, ironicamente, será apanhado quando Dobbs usa um dos truques que lhe tinha ensinado anos antes (a marcação de um encontro com o envio de um postal ilustrado).

Servido por interpretações poderosas de James Mason e Simone Signoret, “Duas Plateias para a Morte” é um filme discreto, mas que marca, tanto pela qualidade do argumento, como pela intensidade emocional que coloca constantemente Dobbs em cheque, quer nos confrontos com a esposa Ann, quer nas discussões humanitárias com o seu alvo, Elsa Fennan.

Em termos técnicos o filme ficou conhecido como a estreia da técnica de fotografia que Lumet chamou de “colorless color” (cor sem cor), criada por Freddie Young, e que consistia em pré-expor o negativo do filme a uma pequena quantidade de luz, antes de o usar na filmagem propriamente dita, criando assim um cinzentismo com o aspecto de uma permanente neblina.

“Duas Plateias para a Morte” recebeu cinco nomeações para os BAFTA (incluindo a de Melhor Filme), não tendo vencido em nenhuma das categorias.

Produção:

Título original: The Deadly Affair; Produção: Sidney Lumet Film Productions; País: EUA; Ano: 1966; Duração: 102 minutos; Distribuição: British Lion-Columbia Distributors (BLC) (Reino Unido), Columbia Pictures (EUA); Estreia: Outubro de 1966 (Reino Unido).

Equipa técnica:

Realização: Sidney Lumet; Produção: Sidney Lumet; Produtor Associado: Denis O’Dell; Argumento: Paul Dehn [baseado no livro “Call For The Dead” de John le Carré]; Música: Quincy Jones; Canção Tema: Astrud Gilberto; Orquestração: Leo Shuken, Jack Hayes; Fotografia: Freddie Young [cor por Technicolor]; Montagem: Thelma Connell; Direcção Artística: John Howell; Cenários: Pamela Cornell; Figurinos: Cynthia Tingey; Caracterização: Jill Carpenter; Direcção de Produção: Victor Peck; Direcção da Sequência Teatral: Peter Hall.

Elenco:

James Mason (Charles Dobbs), Simone Signoret (Elsa Fennan), Maximilian Schell (Dieter Frey), Harriet Andersson (Ann Dobbs), Harry Andrews (Inspector Mendel), Kenneth Haigh (Bill Appleby), Roy Kinnear (Adam Scarr), Max Adrian (Adviser, Marlene Dietrich), Lynn Redgrave (Virgin (segment “Macbeth”), Robert Flemyng (Samuel Fennan), Leslie Sands (Inspector), Corin Redgrave (David), The Royal Shakespeare Company.

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