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Du skal ære din hustruVictor Frandsen (Johannes Meyer) é um marido tirânico, que se levanta tarde, exige tudo arranjado ao seu gosto, e espera que a esposa Ida (Astrid Holm) lhe obedeça como escrava, passando o dia a limpar, cozinhar, tratar dos filhos, da roupa, e ainda cosendo para fora, para juntar algum dinheiro. Enquanto Isso Victor apenas exige e protesta, infernizando a vida da esposa e dos filhos. Um dia, a antiga ama de Victor, Mads (Mathilde Nielsen) enfrenta-o, impele Ida a ir passar uma temporada no campo com a sua mãe, e fica ela a tomar conta da casa, voltando a tratar Victor como o fazia quando ele era criança. A saudade de Ida, o medo de a perder, e a consciencialização dos trabalhos de casa vão aos poucos tornando Victor mais humilde, até ao momento em que Mads considere seguro para Ida regressar ao marido.

Análise:

Em 1925, Carl Theodor Dreyer já dividia a sua carreira entre a Dinamarca e a Alemanha, levando o seu jeito peculiar de tratar a luz e o papel do rosto humano à escola expressionista que o inspiraria e que ele ajudaria a crescer. Depois do seu filme alemão “Michael” (1924), curiosamente interpretado pelo seu conterrâneo e também realizador, Benjamin Christensen, Dreyer voltou à Dinamarca, para filmar mais um drama doméstico, desta vez para a Palladium Film, de Copenhaga.

Baseado numa peça de Svend Rindom, que também colaborou no argumento, Carl Theodor Dreyer conta a história de Victor Frandsen (Johannes Meyer) um homem casado, e marido tirânico, passa o dia com exigências, esperando que a sua mulher, a pacífica e benevolente Ida (Astrid Holm) lhe obedeça como escrava. Ida passa o dia a limpar a casa, a cozinhar, a tratar dos filhos, e da roupa e caprichos do marido, e ainda cosendo para fora, para ajudar a família com algum dinheiro extra. Em contrapartida recebe críticas, mau feitio e ainda mais exigências do marido que a inferniza e aos filhos.

Um dia, a antiga ama de Victor, e companheira de costura de Ida, Mads (Mathilde Nielsen), resolve enfrentá-lo e convence Ida a ir passar uma temporada no campo com a sua mãe. Mads fica a tomar conta da casa, mas impõe um regime diferente, voltando a tratar Victor como o fazia quando ele era criança, obrigando-o a trabalhar em casa, não lhe satisfazendo os caprichos, e fazendo-o compreender o peso do trabalho doméstico, e a necessidade de ajuda externa. Victor vai aceitando resignado, mas sempre tentando subornar a filha mais velha, Karin (Karen Frandsen) a revelar onde está a mãe. Karin compreende a importância da firmeza e segue as instruções de Mads, pelo que Victor, cada vez mais amargurado pela saudade de Ida, pelo medo de a perder, e pela consciencialização do que significa o trabalho doméstico vai-se tornando mais humilde. Só então, quando ele já é capaz de pedir desculpa, é que Mads considera seguro que Ida regresse para o marido.

Com o cuidado de dizer nos intertítulos iniciais que isto é um tipo de situação que já não acontece na Dinamarca, mas ainda no estrangeiro, Carl Theodor Dreyer construiu com “O Senhor da Casa” uma das mais mordazes e directas sátiras domésticas do cinema. Continuando a tradição escandinava de abordar temas difíceis e socialmente dolorosos, por contraste com um cinema mais alegre de temas nobres e gloriosos como se fazia nos Estados Unidos e noutras partes da Europa, Dreyer traz-nos uma história de violência doméstica, onde um marido prepotente coloca em permanente tensão toda a família, com as suas exigências, críticas, mau feitio e castigos.

“O Senhor da Casa” é, por isso, um alerta contra comportamentos que talvez noutros países ainda fossem olhados com um simples encolher de ombros, mas que aqui eram denunciados como errados e perigosos. É também uma história de redenção, que nos ensina que a mudança é possível, uma vez educado o homem, e sendo-lhe mostrado o lado da mulher, das suas penas e trabalhos. Esta educação acontece por intermédio da antiga ama do marido, que depois de adulto o volta a tratar como criança, com a mesma firmeza, e uma espécie de crueldade educacional, que lhe podia doer mais a ela que a ele, mas que era o único caminho para essa desejada redenção.

Num filme longo, de um enorme realismo, onde cada tarefa doméstica e cada agrura familiar nos é mostrada com um detalhe quase documental, Dreyer conta-nos, com todo o tempo do mundo, as rotinas familiares, as mecânicas de conjunto, e os vários pontos de tensão que levam ao quase esgotamento de Ida. É por nos apercebermos disso que vamos, desde logo, tomar o partido de Mads, a salvadora, que vem tratar da educação de Victor, como um abrir de olhos. Também ele é doloroso, também ele consiste em muitos detalhes, como o é o colocar dos sapatos junto ao forno para os aquecer, como por hábito a filha Karin ainda faz.

Filmando quase toda a história numa única divisão de uma casa, e fazendo um extenso uso da íris, Dreyer consegue que o ambiente pareça sempre vivo, e que a história, ainda que lenta, e de certo modo previsível, seja carregada de tensão. Dreyer parte de planos de conjunto e sequências com muitos detalhes a ocorrer em simultâneo, para uma progressiva desaceleração, em que cada vez mais os grandes planos, e por fim os seus famosos close-ups, vão preenchendo o ecrã, levando a um acto final repleto de emoção, que é a de querermos saber se é possível a reconciliação do casal.

Apesar do amargo do tema, “O Senhor da Casa” é ainda salpicado por algum humor negro, mostrado de forma subtil, como por exemplo, quando a ler uma história o filho pergunta à mãe “O que é um tirano?”. Continuava o caminho de Dreyer em direcção aos seus maiores sucessos.

O filme existe hoje em versão restaurada, a qual inclui uma partitura original de Lars Fjeldmose. Os nomes foram entretanto mudados para nomes anglófonos (John, Mary, Nana onde estes estavam Viktor, Ida e Mads).

Produção:

Título original: Du skal ære din hustru [título literal en inglês: Thou Shalt Honor Your Wife]; Produção: Palladium Film; País: Dinamarca; Ano: 1925; Duração: 107 minutos; Estreia: 5 de Outubro de 1925 (Dinamarca), 4 de Abril de 1927 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Carl Theodor Dreyer; Argumento: Carl Theodor Dreyer, Svend Rindom [a partir da peça “Tyrannens fald” de Svend Rindom]; Fotografia: George Schnéevoigt [preto e branco]; Montagem: Carl Theodor Dreyer; Direcção Artística: Carl Theodor Dreyer; Cenários: Carl Theodor Dreyer.

Elenco:

Johannes Meyer (Viktor Frandsen), Astrid Holm (Ida Frandsen), Karin Nellemose (Karen Frandsen), Mathilde Nielsen (Mads, Velha Ama de Victor), Clara Schønfeld (Alvilda Kryger), Johannes Nielsen (Médico), Petrine Sonne (Lavadeira), Aage Hoffman (Dreng, Filho), Byril Harvig (Barnet, Filho), Viggo Lindstrøm, Aage Schmidt.

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