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The PlayerGriffin Mill (Tim Robbins), um executivo de Hollywood encarregado de escolher guiões entre as centenas que chegam ao estúdio todos os anos, começa a receber postais ameaçadores de um argumentista rejeitado. Sem saber quem é, Griffin desconfia de David Kahane (Vincent D’Onofrio), e confronta-o, o que acaba mal, com Griffin a matar David. Ao mesmo tempo, Griffin e a namorada de David, June Gudmundsdottir (Greta Scacchi) iniciam uma relação romântica, enquanto a polícia aperta o cerco, e Griffin faz os possíveis para se livrar da concorrência do novo produtor Larry Levy (Peter Gallagher).

Análise:

Em 1992, Robert Altman, um realizador já várias vezes considerado um rebelde dentro de Hollywood, estreou “O Jogador”, um filme feito a partir de um livro de Michael Tolkin (que foi também o argumentista), e que lida com as políticas de Hollywood, desde os critérios que presidem às escolhas dos filmes a fazer, aos equilíbrios de poderes e lutas internas entre produtores.

Tudo isto nos surge na história de Griffin Mill (Tim Robbins), um produtor de Hollywood, que tem por tarefa escolher argumentos, entre as centenas que lhe chegam por ano, e decidir o que merece passar a filme. Isso vale-lhe não só uma sensação de poder, e um séquito que o bajula, como a formação de inimigos, entre os argumentistas rejeitados. Um destes começa a atormentar Griffin com postais ameaçadores, algo que Griffin mantém em segredo, numa altura em que vê o lugar ameaçado pela chegada do rival Larry Levy (Peter Gallagher).

Investigando por conta própria, Griffin acredita que o argumentista que o ameaça é David Kahane (Vincent D’Onofrio), e procura-o para tentar domá-lo. Mas a conversa não corre bem, e Griffin acaba num recontro violento com David, resultando na morte deste. Não só Griffin consegue esconder o facto, como se envolve romanticamente com a namorada de David, a pintora June Gudmundsdottir (Greta Scacchi), ao mesmo tempo que a polícia o começa a investigar.

Resta ainda a Griffin livar-se de Levy, o que tenta impingindo-lhe um guião do inglês Tom Oakley (Richard E. Grant), cuja relutância em adaptá-lo ao star system e ao Hollywood ending, serão previsíveis fracassos. Mas também Oakley acaba por se vender, dando um sucesso a Levy, e a promoção a Griffin, que começa depois a receber telefonemas de chantagem sobre a morte de David Kahane.

Naquilo que Altman chamou uma sátira muito leve que não ofende ninguém, são demasiadas as referências internas a Hollywood para que possamos, por um segundo que seja, deixar de nos questionar sobre o alcance de cada detalhe. Com um constante uso de episódios reais como pano de fundo para as conversas dos personagens, e mesmo uso de actores a fazer de si próprios (são mais de 60 os cameos de pessoas famosas, tendo ficado quase outros tantos de fora em cenas filmadas, mas não usadas), destaca-se, por exemplo a proposta de um “The Graduate 2” feita pelo… argumentista do filme original.

Todas as conversas e situações são sobre o mundo cinema, sejam reuniões executivas, propostas de argumentos, ou simples coscuvilhice de bastidores. De fora fica quase a ideia de cinema como arte, a qual é defendida numa gala, passando, de resto, ao lado de todo o filme, onde se mostram apenas preocupações com lucro, e com relações de poder dentro do estúdio.

Nesse mundo, Griffin Mill é igual a todos os outros. Se por um lado simpatizamos com ele, quer pelas ameaças que recebe, quer pelo medo de ser considerado obsoleto, quer ainda pela sinceridade sentimental que deixa entrar vinda de June (a única pessoa nas suas relações, completamente fora do meio do cinema), esse lado humano nunca nos deixa esquecer como trata os outros, como toma decisões, e como gosta do poder, ao ponto de espezinhar mesmo aqueles que mais confiam nele, como é o caso de Bonnie (Cynthia Stevenson).

Curioso o final, em que, não só vemos que o filme dentro do filme teve de obedecer a todas as transformações exigidas pelos estúdios (estrelas como protagonistas, um final feliz), com conluio do autor que antes gritava que não se vendia, como vemos ainda que Griffin passou a ser chantageado pelo seu crime, por alguém que exige em troca que se faça um filme que é afinal o próprio “O Jogador”, misturando assim realidade e ficção para lá da própria história. Afinal, se tivermos atenção veremos que o filme começa com um “Acção” e bater de claquete, que nos fazem quase crer que o tudo o que vemos é o filme como ele é produzido, numa total osmose entre realidade e ficção.

Mas as referências ao cinema vão dos personagens, situações e conversas, à própria técnica. É por isso que “O Jogador” começa com um travelling de mais de oito minutos, em que entramos e saímos de espaços, passamos de conversa em conversa, aproximamo-nos de janelas, para sermos levados por mais alguém que passa. Tudo numa coreografia incrível, e um entrelaçar de conversar, personagens e situações, que nos apresentam quase todo o elenco principal, e os temas do filme. Tal travelling a abrir um filme remete logo para “A Sede do Mal” (Touch of Evil, 1958) de Orson Welles, que, para não deixar equívocos, é nomeado durante esse tempo. Altman decide então usar esse registo, e os travellings (embora de menor duração e fôlego) continuam a ocupar grande parte do filme, com conversas a ser interrompidas quando um zoom out nos mostra em primeiro plano outros personagens, e com os movimentos dos actores a servir de mote a movimentos de câmara entre diferentes cenários.

O resultado é um filme frenético, com muita coisa sempre a acontecer, diálogos rápidos, acção dentro e fora de campo, dinamismo de montagem e de espaços e, como dito atrás, demasiadas referências cinematográficas (e cartazes de filmes famosos nas paredes) para se poder absorver num único visionamento. Mas o que fica é principalmente o personagem de Griffin Mill, numa excelente prestação de Tim Robbins, que consegue ser em partes iguais prepotente e temeroso, arrogante e humilde.

Destaque ainda para as presenças de Whoopi Goldberg e Lyle Lovet, nos papéis policiais, num filme com cameos de gente como Karen Black, Cher, James Coburn, Peter Falk, Louise Fletcher, Scott Glenn, Jeff Goldblum, Elliott Gould, Anjelica Huston, Jack Lemmon, Marlee Matlin, Nick Nolte, Sydney Pollack, Burt Reynolds, Julia Roberts, Susan Sarandon, Rod Steiger, Bruce Willis, muitos interpretando-se a si próprios, quase todos improvisando as suas linhas de diálogo.

Embora vindo marginalmente de dentro do sistema de Hollywood (a Fineline Pictures era uma subsidiária da New Line Cinema) o “O Jogador” considera-se um filme independente, e foi um inesperado sucesso, principalmente na Europa, onde foi nomeado para o prémio BAFTA de melhor filme, e onde Altman foi premiado como o melhor realizador em Cannes. O filme foi ainda nomeado aos Oscars e recebeu o Globo de Ouro para Melhor Filme Musical ou de Comédia. Já Tim Robbins foi galardoado tanto nos Globos de Ouro como em Cannes.

Produção:

Título original: The Player; Produção: Avenue Pictures Productions / Spelling Entertainment / David Brown/Addis-Wechsler Pictures / Guild [não creditada]; Produtor Executivo: Cary Brokaw; Co-Produtor Executivo: William S. Gilmore; País: EUA; Ano: 1992; Duração: 124 minutos; Distribuição: Fine Line Features; Estreia: 3 de Abril de 1992 (EUA), 27 de Novembro de 1992 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Robert Altman; Produção: David Brown, Michael Tolkin, Nick Wechsler; Co-Produção: Scott Bushnell; Produtor Associado: David Levy; Argumento: Michael Tolkin [a partir do seu próprio livro]; Música: Thomas Newman; Orquestração: Thomas Pasatieri; Fotografia: Jean Lépine [cor por DeLuxe]; Montagem: Geraldine Peroni; Design de Produção: Stephen Altman; Direcção Artística: Jerry Fleming; Cenários: Susan Emshwiller; Figurinos: Alexander Julian; Caracterização: Deborah K. Larsen; Efeitos Especiais: John C. Hartigan; Direcção de Produção: Tom Udell.

Elenco:

Tim Robbins (Griffin Mill), Greta Scacchi (June Gudmundsdottir), Fred Ward (Walter Stuckel), Whoopi Goldberg (Detective Avery), Peter Gallagher (Larry Levy), Brion James (Joel Levison), Cynthia Stevenson (Bonnie Sherow), Vincent D’Onofrio (David Kahane), Dean Stockwell (Andy Civella), Richard E. Grant (Tom Oakley), Sydney Pollack (Dick Mellon), Dina Merrill (Celia), Angela Hall (Jan), Lyle Lovett (Detective DeLongpre), Leah Ayres (Sandy), Paul Hewitt (Jimmy Chase), Randall Batinkoff (Reg Goldman), Jeremy Piven (Steve Reeves).

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