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MikaëlMichael (Walter Slezak) é um jovem de grande beleza, que se tornou modelo e musa do grande pintor Claude Zoret (Benjamin Christensen), e agora é seu discípulo e amante. Mas Michael pretende libertar-se da ligação com Zoret, o que acontece quando princesa Lucia Zamikoff procura o pintor para que a pinte. Michael e Lucia começam uma relação romântica que afasta Michael do seu mentor, mesmo que ela use Michael apenas para que ele lhe consiga dinheiro, o que ele faz roubando e vendendo os quadros de Zoret. Ao descobrir o que se passa, a desilusão de Zoret põe em perigo a sua saúde.

Análise:

Michael foi a quinta longa-metragem de Carl Theodor Dreyer, o realizador dinamarquês, de ascendência sueca, que fez carreira na Alemanha do expressionismo, de que retirou os ensinamentos que marcariam grande parte das suas obras. Filmado para a famosa UFA, dirigida por Erich Pommer, e escrito a meias entre Dreyer e a grande argumentista do expressionismo alemão, Thea von Harbou, “Michael” é a adaptação do livro de Herman Bang, “Mikaël”, publicado em 1902. O filme mostra-nos um triângulo amoroso algo surpreendente para a época, uma vez que trata de modo bastante ostensivo de uma relação homossexual, ainda que o facto não seja explicitamente abordado em nenhuma ocasião.

Michael (Walter Slezak) é um jovem de grande beleza, anteriormente escolhido para modelo do grande pintor Claude Zoret (interpretado pelo realizador Benjamin Christensen). Todos elogiam a obra de Zoret, e entre esta, os quadros em que o motivo é Michael, a sua grande fonte de inspiração. Só que quando a princesa Lucia Zamikoff se dirige a Zoret para que este pinte o seu retrato, Michael começa a interessar-se por ela. Os dois começam a encontrar-se às escondidas desenvolvendo uma relação romântica que retira Michael do seu mentor, mesmo que a princesa apenas use Michael para que ele lhe consiga dinheiro, o que ele faz roubando e vendendo os quadros de Zoret. Entretanto Zoret, sabendo que perdeu Michael, adoece e acaba por morrer, junto ao seu velho amigo (e porventura anterior amante) Charles Switt (Robert Garrison), que nunca o abandonara. Como últimas palavras, Zoret pronuncia “Agora já posso morrer em paz, pois conheci amor verdadeiro.”

“Michael” é um filme notável pela forma como aborda um tema tabu, mostrando como a Alemanha de entre as guerras era uma sociedade aberta intelectualmente (facto esse que seria considerado decadente pelo emergente Partido Nazi). Começando por filmar um ambiente algo boémio de intelectuais que discutem arte em salas de fumo, ricamente decoradas, Dreyer rapidamente nos leva ao fulcro do seu filme: a adoração de Zoret por Michael. Cedo se percebe que esta relação, ainda que em tempos possa ter sido correspondida, já não o é. Ao encantamento de Zoret, Michael responde com indiferença, agora que parece ter ultrapassado a fascinação pelo amante que foi também mestre.

Há um tanto de “Pigmalião” na relação, com Zoret orgulhoso da sua criação, um Michael que é agora também ele pintor. Só que o discípulo emancipou-se do seu mestre, facto que se ilustra na sequência em que Zoret pede ao amante que seja ele a pintar os olhos da princesa Zamikoff, pois ele não lhes consegue dar o toque certo. Michael supera o mestre, e isso como que simboliza o fim do seu interesse naquela relação.

Paralelo a tudo isto está a posição de Charles Switt, amigo e confidente de Zoret, claramente seu admirador, e talvez seu anterior amante. Switt ressente-se de Michael, mas nada diz, para não ferir Zoret. Numa demonstração do seu altruísmo e amor puro, é Switt quem manda chamar Michael para que venha ver Zoret no leito da morte, e é ele quem resta ao lado do pintor, sendo ele, e não Michael o receptor da frase final do pintor.

Sendo um filme da fase inicial de Dreyer, conseguem ver-se nele alguns traços do expressionismo quer temáticos quer estéticos (a estilização dos personagens, o dramatismo interior, a implícita metáfora de uma sociedade em perda de valores, o uso de linhas rectas a definir contornos, os planos filmados por entre portas abertas, o contraste de luz, etc.), e também um pouco das características que definiriam os filmes mais importantes de Dreyer, como, por exemplo, o modo de iluminar os protagonistas e o uso dos close-ups para fazer contrastar serenidade exterior com convulsão interior.

Baseado na mesma obra, o sueco Mauritz Stiller filmara anteriormente “The Wings” (Vingarne, 1916) que apresenta maiores diferenças em relação ao livro de Herman Bang.

Produção:

Título original: Mikaël; Produção: Universum Film (UFA); País: Alemanha; Ano: 1924; Duração: 90 minutos; Distribuição: Universum Film (UFA); Estreia: 17 de Novembro de 1924 (Dinamarca).

Equipa técnica:

Realização: Carl Theodor Dreyer; Produção: Erich Pommer; Argumento: Thea von Harbou, Carl Theodor Dreyer [baseado no livro homónimo de Herman Bang]; Música: Hans Joseph Vieth; Fotografia: Karl Freund, Rudolph Maté [preto e branco]; Cenários: Hugo Häring.

Elenco:

Benjamin Christensen (Claude Zoret), Walter Slezak (Michael), Max Auzinger (Jules – Mordomo), Nora Gregor (Princesa Lucia Zamikoff), Robert Garrison (Charles Switt – Jornalista), Didier Aslan (Duc de Monthieu), Alexander Murski (Mr. Adelsskjold), Grete Mosheim (Mrs. Alice Adelsskjold), Karl Freund (LeBlanc – Coleccionador de Arte), Wilhelmine Sandroc (Viúva de Monthieu).

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