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Gösta Berlings SagaGösta Berling (Lars Hanson) é o jovem pastor religioso de uma comunidade rural, mas a sua devoção à bebida leva-o a cometer excessos e ser expulso. É então acolhido pela condessa de Borg, Märtha Dohna (Ellen Hartman-Cederström) como tutor da sobrinha Ebba (Mona Mårtenson), para que esta se apaixone e case com ele, pois caso case com abaixo da sua classe a propriedade para para o filho da condessa, Henrik (Torsten Hammarén), o qual casou com a bela mas pobre Elizabeth (Greta Garbo). A descoberta do passado de Gösta Berling leva à morte por desgosto de Ebba, e a nova expulsão dele, que acaba como um dos cavaleiros de vida decadente, de Ekeby, propriedade da mulher do major Samzelius (Gerda Lundequist), a qual tem também um passado a esconder, e que levará à ruína de Ekeby.

Análise:

Hoje vulgarmente descrito como o filme que deu a conhecer Greta Garbo, “A Lenda de Gösta Berling” é um drama épico dispendioso de Mauritz Stiller, o mais caro até então da produtora líder na Suécia, AB Svensk Filmindustri, destinado a impressionar o mundo com a sua grandiosidade.

Partindo mais uma vez de um livro da nobelizada autora Selma Lagerlöf, como tantas vezes sucedeu nas produções de Charles Magnusson, Stiller volta a filmar a Suécia rural, de lagos gelados, noites longas, mansões aristocráticas perdidas na natureza, e um modo de estar tradicional, ligando superstição e lenda.

É esse o mundo de Gösta Berling (Lars Hanson), um jovem elegante que começamos por ver em partidas de fim de ano com os seus companheiros de vida decadente, os chamados cavaleiros de Ekeby, que vivem da caridade do major Samzelius (Otto Elg-Lundberg) e da sua esposa Margaretha (Gerda Lundequist). Aprendemos depois, em flashback, que Gösta Berling começou como um pastor protestante, mas a bebida desviou-o do seu caminho. Foi de seguida tutor da jovem Ebba Dohna (Mona Mårtenson) em Borg, já que a tia desta, a condessa Märtha (Ellen Hartman-Cederström) planeava casá-los, pois só casando a sobrinha abaixo da sua classe, Borg passaria para o filho Henrik (Torsten Hammarén) entretanto casado com a bela Elizabeth (Greta Garbo), também ela ex-aluna de Gösta Berling.

Mas Elizabeth, ainda apaixonada por Gösta Berling conta a verdade sobre ele, provocando o desgosto e futura morte de Ebba. Ao tutor não resta senão juntar-se aos cavaleiros de Ekeby, entretenimento da mulher do major. Numa das suas festas, não só um dos cavaleiros, por ciúmes denuncia a riqueza dos Samzelius como vinda das relações ilícitas de Margaretha, como Gösta Berling beija Marianne Sinclaire (Jenny Hasselqvist) à frente de todos. O resultado é a expulsão de Margaretha pelo marido que dá Ekeby aos cavaleiros, e a expulsão de Marianne pelo pai.

Para se livrar da maldição que um dia lhe fora imposta pela mãe, Margaretha decide queimar Ekeby. Gösta Berling, que entretanto salvara Marianne da morte no frio para a ver agora reputada de viver com ele, e doente, decide mais uma vez fugir, quando é encontrado por Elizabeth Dohna, que o impele a ganhar de volta o seu valor. Gösta Berling decide então reconstruir Ekeby, e com isso merecer o amor de Elizabeth, que nunca teve o casamento com Henrik legalizado.

Como épico, evocativo do mundo romântico de Selma Lagerlöf, “A Lenda de Gösta Berling” é um produto do seu tempo, com o quanto isso nos possa parecer datado, graças às relações aristocráticas e condutas morais que hoje parecem tão longínquas. Mas é acima de tudo uma história complexa, e cheia de enredos paralelos, da culpa e redenção de um homem, envolvido numa série de tragédias, quedas e renascimentos.

Conduzido pela interpretação de Lars Hanson (o qual teria depois uma carreira em Hollywood), “A Lenda de Gösta Berling” vive das transformações do seu protagonista, que passa por momentos de paixão, erros, culpa, cinismo, desprezo, compaixão, e finalmente redenção. Na sua história envolvem-se tantas outras. São elas, a paixão romântica de Ebba, os esquemas da condessa Märtha, o casamento falhado de Elizabeth, o papel degenerado dos cavaleiros de Ekeby, a história de Marianne e o beijo que lhe valeu a expulsão de casa, e a maldição de Margaretha que um dia desrespeitou a sua mãe.

De interiores faustosos, a cenas enigmáticas como o demónio da secção inicial, de longas paisagens naturais a incêndios feéricos ou uma louca fuga a lobos famintos sobre um lago gelado, de cortar a respiração, Stiller consegue que a acção e o enredo sejam sempre envolventes compelindo-nos a querer descobrir mais. O resultado é um verdadeiro épico, com uma série de interpretações fabulosas, que, mesmo mutilado pela montagem para o mercado americano, fez de Stiller e Garbo figuras desejadas em Hollywood.

Com a saída de Stiller e Garbo, quando Sjöström estava já em Hollywood, para onde Lars Hanson iria pouco depois, e com Charles Magnusson a perder o controlo da Svenska Filmindutri, “A Lenda de Gösta Berling” representa ainda o canto do cisne da época dourada do cinema sueco.

“A Lenda de Gösta Berling” foi inicialmente exibido em duas partes (estreadas em semanas diferentes), foi depois encurtado para um filme único, para exibição nos mercados internacionais, tendo sido essa a versão a perdurar, e a partir da qual se fez aquela que proliferou em VHS (88 minutos). Em 1975, a partir de novas fontes encontradas, surgiu a versão restaurada pelo Svenska Filminstitutet, de 184 minutos, com intertítulos em inglês e música original de Matti Bye, resultando no DVD da Kino International editado em 2006. Segundo consta esta versão tem ainda em falta cerca de 450 metros de fita que nunca foram recuperados.

Produção:

Título original: Gösta Berlings Saga; Produção: Svensk Filmindustri (SF); País: Suécia; Ano: 1925; Duração: 184 minutos; Estreia: 9 de Março de 1924 (Finlândia), 10 de Março de 1924 (Suécia), 1 de Agosto de 1927.

Equipa técnica:

Realização: Mauritz Stiller; Produção: Charles Magnusson [não creditado]; Argumento: Mauritz Stiller, Ragnar Hyltén-Cavallius [a partir do livro de Selma Lagerlöf]; Fotografia: Julius Jaenzon [preto e branco]; Direcção Artística: Vilhelm Bryde; Caracterização: Ester Lundh [não creditada], Manne Lundh [não creditado]; Efeitos Especiais: Nils Elffors [não creditado], Olof Ås [não creditado].

Elenco:

Lars Hanson (Gösta Berling), Sven Scholander (Sintram), Ellen Hartman-Cederström (Märtha Dohna), Mona Mårtenson (Ebba Dohna), Torsten Hammarén (Henrik Dohna), Greta Garbo (Elizabeth Dohna), Gerda Lundequist (Mulher do Major, Margaretha Samzelius), Jenny Hasselqvist (Marianne Sinclaire), Sixten Malmerfeldt (Melchior Sinclaire), Karin Swanström (Gustafva Sinclaire), Oscar Byström (Patron Julius), Hugo Rönnblad (Beerencreutz), Knut Lambert (Örneclou), Svend Kornbeck (Christian Bergh), Otto Elg-Lundberg (Major Samzelius).

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