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The Ipcress FileQuando o cientista britânico, Radcliffe (Aubrey Richards), protegido pelos serviços secretos, dada a matéria sensível em que trabalhava, é raptado, o Coronel Ross (Guy Doleman), director no Ministério da Defesa, convoca Harry Palmer (Michael Caine), para o informar que será transferido para a secção dos serviços secretos liderada pelo Major Dalby (Nigel Green), que investiga o caso. Dado o seu passado criminoso no exército, Palmer desconfia desta transferência, percebendo que é um peão num jogo onde as culpas podem não estar apenas no suspeito Eric Ashley Grantby (Frank Gatliff), que pode estar a ser ajudado por alguém dos próprios serviços secretos.

Análise:

Baseado no romance de espionagem “The IPCRESS File” de Len Deighton, publicado em 1962, o filme britânico “O Caso Ipcress” surgiu como uma tentativa de desmistificar o universo de pompa e brilho da série 007. Realizado pelo canadiano Sidney J. Furie, então já com alguns filmes no seu curriculum, embora sem sucessos de nomeada (se descontarmos alguns filmes feitos para promover Cliff Richard), o filme teve produção de Harry Saltzman, curiosamente um dos nomes então por detrás da franchise de James Bond, e música do também habitual compositor de 007, John Barry.

Mas onde James Bond transpira charme e elegância, resolvendo cada problema com um sorriso nos lábios e uma bela mulher no seu braço, o protagonista de “O Caso Ipcress”, Harry Palmer (Michael Caine), destaca-se pelo seu contraste. Palmer é um ex-criminoso, conhecido pela sua insolência e cinismo (estes sim, pontos de contacto com Bond), que vive numa área suja de Londres, numa vida sem charme, e habituado a lidar com burocracias e problemas internos do seu departamento. Para marcar ainda mais a diferença, Palmer usa óculos de aros grossos, fazendo-o um dos primeiros heróis do cinema de óculos, talvez desde Harold Lloyd.

Assim, partindo de um ponto que poderia lembrar os filmes da série 007, o rapto de um cientista importante para os serviços secretos, o filme de Furie vai seguir um caminho diferente, longe de localizações exóticas, armas secretas e cenas de acção vertiginosa. Palmer tem essencialmente que seguir o seu suspeito pacientemente pelas áreas mais desinteressantes de Londres, e jogar um jogo de inteligência dentro do seu departamento de pessoas rezingonas e aparentemente com motivos escondidos.

Tudo começa quando Palmer é transferido pelo seu chefe, o Coronel Ross (Guy Doleman), para a secção liderada pelo Major Dalby (Nigel Green), que investiga o caso do rapto do cientista Radcliffe (Aubrey Richards). Promoção ou castigo, cabe a Palmer fazer o seu trabalho, conhecer os colegas, decidir se a prestável e sedutora colega, Jean Courtney (Sue Lloyd), o espia, e que guerras de influências travam verdadeiramente Ross e Dalby, ou para o incriminarem, ou talvez um contra o outro. Pelo meio Palmer investiga Eric Ashley Grantby (Frank Gatliff), de nome-código Bluejay, que pode estar ligado a um protocolo de lavagem cerebral de cientistas famosos.

Como dito atrás, “O Caso Ipcress” destaca-se pela atmosfera suja, e o nítido evitar de tudo quanto seja romântico no mundo da espionagem. Nesse sentido, Michael Caine, com o seu papel de cinismo e insolência, é perfeito no definir de um personagem que na verdade pouco mais quer que receber o seu cheque no final do mês, sem preocupações éticas sobre o seu trabalho. Há ainda assim um crescente de tensão à medida que Palmer se aproxima cada vez mais da verdade escondida. Temos então, como momentos altos, a sequência de tortura a Palmer, e o confronto final, que tem tanto de acção como de duelos psicológicos.

Furie filmou “O Caso Ipcress” em cenários naturais pelas ruas de Londres, e em interiores de casas londrinas. Apesar das enormes divergências entre Harry Saltzman e Sidney J. Furie (que terão inclusivamente levado ao despedimento do realizador ainda durante a produção) o filme tornou-se notado pela sua atmosfera e abordagem realista e fria, tornando-se uma influência para filmes seguintes do género. O próprio produtor de televisão, Bernard L. Kowalski, confessou que “O Caso Ipcress” foi a principal influência por detrás da sua série “Missão Impossível”, que estrearia no ano seguinte.

“O Caso Ipcress” venceu o BAFTA de Melhor Filme Britânico e de Melhor Direcção Artística, tendo entrado na competição à Palma de Ouro de Cannes.

Michael Caine voltaria a interpretar o papel de Harry Palmer, em mais quatro filmes de espionagem, “O Meu Funeral em Berlim” (Funeral in Berlin, 1966) de Guy Hamilton, “Um Cérebro Por Um Milhão” (Billion Dollar Brain, 1967) de Ken Russell, ambos baseados e livros de Len Deighton, e mais tarde “O Comboio do Leste” (Bullet to Beijing, 1995), de George Mihalka, e “Tensão Máxima em St. Petersburgo” (Midnight in Saint Petersburg, 1996) de Douglas Jackson, ambos feitos para televisão, e apenas inspirados nos personagens anteriores.

Produção:

Título original: The Ipcress File; Produção: The Rank Organisation / Lowndes Productions Limited [não creditada] / Steven S.A. [não creditada]; Produtor Executivo: Charles D. Kasher; País: Reino Unido; Ano: 1965; Duração: 103 minutos; Distribuição: J. Arthur Rank Film Distributors (Reino Unido) / Universal Pictures (EUA); Estreia: 18 de Março de 1965 (Reino Unido).

Equipa técnica:

Realização: Sidney J. Furie; Produção: Harry Saltzman; Produtor Associado: Ronald Kinnoch; Argumento: W.H. Canaway [como Bill Canaway], James Doran [baseado no livro homónimo de Len Deighton]; Música: John Barry; Fotografia: Otto Heller [filmado em Techniscope, cor por Technicolor]; Montagem: Peter R. Hunt; Design de Produção: Ken Adam; Direcção Artística: Peter Murton; Cenários: Michael White; Guarda-roupa: Muriel Dickson; Caracterização: Philip Leakey; Direcção de Produção: Denis Johnson

Elenco:

Michael Caine (Harry Palmer), Nigel Green (Major Dalby), Guy Doleman (Coronel Ross), Sue Lloyd (Jean Courtney), Gordon Jackson (Jock Carswell), Aubrey Richards (Dr. Radcliffe), Frank Gatliff (Eric Ashley Grantby ou Bluejay), Thomas Baptiste (Barney), Oliver MacGreevy (Housemartin), Freda Bamford (Alice), Pauline Winter (Charlady), Anthony Blackshaw (Edwards), Barry Raymond (Gray), David Glover (Chilcott-Oakes), Stanley Meadows (Inspector Keightley), Peter Ashmore (Sir Robert), Michael Murray (Inspector do Raid), Anthony Baird (Sergeant do Raid),Tony Caunter (Homem da O.N.I.), Charles Rea (Taylor), Ric Hutton (Oficial de Registos), Douglas Blackwell (Murray), Richard Burrell (Telefonista), Glynn Edwards (Sargento da Estação de Polícia), Zsolt Vadaszffy (Médico da Prisão), Josef ef Behrmann (Guarda da Prisão), Max Faulkner (Guarda da Prisão), Paul S. Chapman (Guarda da Prisão).

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