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ChaplinBiografia de Charles Chaplin contada em jeito de confissão ao biógrafo George Hayden (Anthony Hopkins). Charles (Robert Downey Jr.) começa a narrativa na sua infância em Londres, nos teatros de vaudeville, acompanhando a sua mãe (Geraldine Chaplin), e vendo-a ser internada por demência. Já na companhia de Fred Karno (John Thaw), com o seu irmão Sydney (Paul Rhys), Charles viaja para os Estados Unidos, deixando-se fascinar pelo cinema. Contratado por Mack Sennett (Dan Ackroyd), fixa-se em Hollywood, onde rapidamente atinge a fama e a riqueza. Chaplin passa a ter o sucesso rivalizado pelas suas polémicas relações pessoais, como são os casamentos com Mildred Harris (Milla Jovovich) e Lita Grey (Deborah Moore), o romance escandaloso com Joan Barry (Nancy Travis) e as acusações de comunismo que lhe valem o ódio de J. Edgar Hoover (Kevin Dunn). Já casado com Oona O’Neil (Moira Kelly), Chaplin vai viver para a Suíça, regressando aos Estados Unidos apenas para receber o Oscar de carreira, em 1972.

Análise:

Se há uma figura incontornável, que espelha a afirmação do cinema como arte para multidões, fenómeno de popularidade quer na comédia quer no drama, misto de personagem maior que a vida, e vida pessoal apaixonante e polémica, essa pessoa é Charles Chaplin. Um dos mais famosos actores e realizadores de sempre, o inglês que fez carreira nos Estados Unidos foi a figura que originou uma das mais famosas biopics de Richard Attenborough, um realizador conhecido pelo seu academismo, e já antes famoso pela biografia de Gandhi (1982).

Contando a vida pessoal do pequeno e popular comediante, “Chaplin” dedica-se a explorar as origens, amores, motivações e preocupações de Charles Spencer Chaplin (Robert Downey Jr.), desde o momento em que saltou para os palcos do vaudeville londrino, ainda em tenra idade, até começar a ganhar a sua vida como actor cómico, no momento em que a sua mãe (por curiosidade com Geraldine Chaplin a interpretar o papel da sua própria avó) teve de ser internada por demência. Segue-se a sua contratação por Fred Karno (John Thaw), ao lado do irmão Sydney (Paul Rhys), com quem integrou uma digressão aos Estados Unidos.

No novo mundo, Chaplin descobriu (e foi descoberto) por Hollywood, com Mack Sennett (Dan Ackroyd) a lançá-lo na comédia burlesca ao lado de Mabel Normand (Marisa Tomei). Segue-se o sucesso imediato, com Chaplin a tornar-se maior que Sennett e Normand, e a gerir o seu próprio estúdio, controlando produções, e entrando na alta sociedade de Hollywood, fundando mesmo a sua própria distribuidora, a United Artists, com os actores Douglas Fairbanks (Kevin Kline) e Mary Pickford (Maria Pitillo) (e D. W. Griffith, que curiosamente não é mencionado no filme).

Vemos depois as suas relações amorosas, e os escândalos pela preferência de menores, como o caso da sua primeira esposa, Mildred Harris (Milla Jovovich), com quem as coisas não correm bem. Segue-se um segundo casamento com Lita Grey (Deborah Moore), o romance escandaloso com Joan Barry (Nancy Travis), o terceiro casamento com a sua actris Paulette Godard (Diane Lane) e as acusações de comunismo que lhe valem o ódio de J. Edgar Hoover (Kevin Dunn). Finalmente Chaplin casa Oona O’Neil (Moira Kelly), e vai viver para a Suíça com a sua família, regressando aos Estados Unidos apenas para receber o Oscar de carreira, em 1972.

Com música do consagrado John Barry, “Chaplin” olha essencialmente para o lado humano de Charles Chaplin. Attenborough mostra-nos um comediante que sabia melhor que ninguém o que era o sofrimento. Com qualidades e defeitos, Chaplin surge-nos como um humanista que podia ser egocêntrico, um romântico que convivia de perto com os poderes que mais tarde o trairiam, um rei da alienação que se preocupava com a condição humana, uma pessoa boa com uma reputação toldada por relações amorosas ilegítimas.

Por entre todas estas características, o filme de Attenborough, marcado pelo seu habitual academismo que o leva a tratar cada cena com uma elegância e ambiente clássicos, é tanto um estudo de personalidade, como um olhar secreto para os bastidores do quotidiano de um homem que continua a ser maior que a vida. Com quase duas horas e meia, “Chaplin” é uma viagem pela história do cinema, onde se sente a reverência de Attenborough, mas também a sua curiosidade sobre uma personalidade ímpar.

O filme torna-se ainda quase um quem é quem do cinema dos anos 10 e 20 do século XX, com muitos actores famosos a fazerem pequenos papéis de monstros sagrados de Hollywood (Dan Aykroyd, Marisa Tomei, Penelope Ann Miller, Kevin Kline, Maria Pitillo, Milla Jovovich, Deborah Moore, Diane Lane, Nancy Travis), na maioria das vezes sem espaço para desenvolverem uma personalidade que não seja acessória do estado que Chaplin está a viver.

Curioso é o uso de Moira Kelly no duplo papel do primeiro amor do comediante (Hetty Kelly), e do seu último casamento (Oona O’Neill), como que pretendendo dizer que Chaplin procurou sempre em todas as mulheres que conheceu a inocência dos primeiros tempos, tal justificando a idade das mulheres procuradas.

Ênfase especial é atribuída à posição política de Chaplin, um humanista, cujas preocupações sociais são patentes nos seus últimos filmes americanos, e por isso foi perseguido politicamente pela direita paranóica americana, no filme representada por J. Edgar Hoover.

Com uma estrutura desenvolvida a partir de flashbacks, motivados por uma conversa com Chaplin e o seu biógrafo George Hayden (Anthony Hopkins), um personagem fictício, mas que pode representar os verdadeiros biógrafos que com ele privaram, “Chaplin” é sempre uma visão na primeira pessoa, que assim nos dá a ilusão de estarmos perto do pensar do actor. Essa proximidade, que nos fará sempre sentir ao seu lado, durante todo o filme, compensa-nos com a explosão emocional final que é a cerimónia de consagração nos Oscars de 1972, com a qual Hollywood recebeu de volta numa homenagem sentida, um dos seus maiores génios.

Inesquecível, e universalmente admirada, foi a prestação de Robert Downey Jr. Perfeito nos maneirismos e na impulsividade cómica, assim como no lado dramático, atormentado e contemplativo, Downey Jr. conseguiu uma interpretação contra as quais qualquer outra terá de se medir, sempre que alguém tente interpretar Charles Chaplin.

O filme foi nomeado para três Oscars (Actor, Banda Sonora, e Direcção Artística) e para quatro Globos de Ouro, não tendo ganho nenhum desses prémios. Melhor sorte teria nos BAFTA com o prémio de Melhor Actor a ser entregue a Robert Downey Jr.

Produção:

Título original: Chaplin; Produção: Carolco Pictures / Japan Satellite Broadcasting (JBS) / Le Studio Canal+ / RCS Video / Lambeth Productions; País: USA / Japão / França / Itália; Ano: 1992; Duração: 144 minutos; Distribuição: TriStar Pictures (EUA) / Guild Film Distribution (Reino Unido); Estreia: 18 de Dezembro de 1992 (Reino Unido), 25 de Junho de 1993 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Richard Attenborough; Produção: Richard Attenborough, Mario Kassar; Co-Produção: Terence A. Clegg; Produtora Associada: Diana Hawkins; Argumento: William Boyd, Bryan Forbes, William Goldman; História: Diana Hawkins [a partir dos livros “My Autobiography” de Charles Chaplin e “Chaplin – His Life and Art” de David Robinson]; Música: John Barry; Fotografia: Sven Nykvist [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Montagem: Anne V. Coates; Design de Produção; Stuart Craig; Direcção Artística: Norman Dorme; Cenários: Robert A. Blackburn, Chris Butler; Figurinos: John Mollo, Ellen Mirojnick; Caracterização: Wally Schneiderman; Efeitos Especiais: David Harris, Alan E. Lorimer; Efeitos Visuais: Syd Dutton, Bill Taylor; Direcção de Produção: Chris Coles, Basil Somner.

Elenco:

Robert Downey Jr. (Charles Spencer Chaplin), Geraldine Chaplin (Hannah Chaplin), Paul Rhys (Sydney Chaplin), John Thaw (Fred Karno), Moira Kelly (Hetty Kelly / Oona O’Neill Chaplin), Anthony Hopkins (George Hayden), Dan Aykroyd (Mack Sennett), Marisa Tomei (Mabel Normand), Penelope Ann Miller (Edna Purviance), Kevin Kline (Douglas Fairbanks), Maria Pitillo (Mary Pickford), Milla Jovovich (Mildred Harris), Kevin Dunn (J. Edgar Hoover), Deborah Moore (Lita Grey), Diane Lane (Paulette Goddard), Nancy Travis (Joan Barry), James Woods (Joseph Scott), Hugh Downer (Charlie, 5 Anos), Nicholas Gatt (Sydney, 9 Anos), Bill Paterson (Director de Palco), Anthony Bowles (Maestro), Thomas Bradford (Charlie, 14 Anos), Mary Healey (Mrs. Karno), David Duchovny (Rollie Totheroh), Jack Ritschel (William Randolph Hearst), Heather McNair (Marion Davies), Sean O’Bryan (Lewis Seeley), Norbert Weisser (Diplomata Alemão), John Standing (Mordomo).

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