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ErotikonO Professor Leo Charpentier (Anders de Wahl) é um entomologista, que estuda comportamentos sexuais de insectos, não prestando atenção às carências da sua esposa Irene (Tora Teje), esta ocupa o tempo com os homens que a cortejam, como o escultor Preben Wells (Lars Hanson) e o aventureiro aviador Barão Felix (Vilhelm Bryde). Suspeitas de um envolvimento entre Irene e o Barão lançam a fúria sobre Preben, apaixonado por ela, e que num ataque de ciúmes vai lançar a confusão sobre o distraído Leo, o qual é motivo de interesse da sua sobrinha Marte (Karin Molander).

Análise:

Já com alguns sucessos na carreira, Mauritz Stiller era nome de proa da recém-criada AB Svensk Filmindustri, a principal produtora sueca, resultante da fusão da AB Svenska Biografteatern e da Filmindustri AB Skandia, em Dezembro de 1919. Coube-lhe no ano seguinte realizar o filme, escrito por si, “Erotikon”, descrito como um conto de amor moderno, uma comédia romântica de sátira social, baseada num tema que parecia demasiado avançado para a época: os comportamentos românticos, sobretudo quando são as necessidades da mulher a surgir em primeiro plano.

A partir de uma peça de 1917 do dramaturgo húngaro Ferenc Herczeg, Stiller e os seus colaboradores criaram uma comédia sofisticada, passada entre pessoas da alta sociedade sueca. Nela vemos o casal Charpentier, Leo (Anders de Wahl) um brilhante e distraído entomologista, mais preocupado em estudar os comportamentos sexuais de insectos, que em corresponder aos da esposa, Irene (Tora Teje), a qual procura distracção fora de casa. Destacam-se entre as amizades de Irene, o escultor Preben Wells (Lars Hanson) e o aventureiro aviador Barão Felix (Vilhelm Bryde). Sobre ambos recaem suspeitas de serem amantes de Irene, o que Leo aceita com desportivismo. Só que estas suspeitas levam ao ciúme, não do marido Leo, mas do amante Preben, que teme não ser o único. Orgulhosa, Irene sai de casa e não quer falar com ninguém, até Preben conseguir descobrir que o interesse do Barão está noutro lado, e que tudo não passara de um mal entendido. Feitas as pazes e confessados os amores de Irene e Preben, Leo é carta fora do baralho, mas este pouco se preocupa, mais interessado no interesse que lhe devota a sobrinha Marte Marte (Karin Molander).

“Erotikon” trata assim da romantização, ou falta dela, dentro de um casal. Tendo como mote uma introdução que Leo faz sobre os comportamentos sexuais dos insectos, onde se descreve a propensão de alguns para a monogamia, de outros para a bigamia, e de outros para a poligamia, fica desde logo aberta a possibilidade de que se está a tratar dessas possibilidades também nos seres humanos. A ideia é tão mais subversiva, que no caso humano é a mulher (Irene) o centro de relações poligâmicas, conseguindo à sua volta vários machos em disputa (o marido, Preben e o Barão).

O restante é uma série de situações e alguns mal entendidos, que nos mostram o desinteresse de Leo, as escapadelas de Irene, os momentos de tensão ligados à sedução de um dos pretendentes, e finalmente a cena de ciúmes feita por Preben (e não pelo marido, note-se), quando surge a suspeita de esta ter uma relação ilícita com o Barão.

Embora muito disto surja de forma velada, e simbólica (com a apresentação de um bailado, quase como um filme dentro do filme, a servir de paralelo à história dos protagonistas, já que também ali a mulher se apaixona pelo amigo do marido), Irene é uma personagem forte, independente que sabe o que quer, e lutará para o obter fora de casa, se necessário. Isto pode ter parecido chocante ao público dos anos 20, mas foi todo esse jogo de ideias subversivas que agradou a Stiller, e constituiu o cerne do seu filme.

A juntar a tudo isto, temos ainda a sobrinha Marte, sempre solícita para com o tio, que parece gostar mais da sua atenção (talvez pela aparente submissão da moça) que daquela da própria esposa. Embora perdido entre os seus estudos, num mundo bem exemplificado pelo caricatural Professor Sidonius (Torsten Hammarén), Leo não hesita em procurar a companhia da sobrinha, que até já cozinha para ele receitas especiais. É por isso certeira e altamente ambígua a frase da esposa, quando Leo lhe pergunta porque o deixa: “nunca quiseste comer o meu estufado”, uma das mais provocantes respostas do cinema de então, exemplo das tantas réplicas sarcásticas de “Erotikon”.

Filmando numa tonalidade sépia, que dá ao filme tons dourados, Stiller beneficia de imensos cenários interiores, de enorme elegância (dos salões dos Charpentier ao interior da Ópera), e arriscados planos exteriores, como as imagens filmadas de um avião. Embora quase sempre com planos fixos e de conjunto, Stiller consegue, numa montagem bastante dinâmica, uma decoupage interessante, mostrando o quanto o cinema do seu tempo avançava a passos largos.

Pelo seu carácter subversivo e original, “Erotikon” foi um enorme sucesso, suscitando uma vasta procura nos mercados internacionais. É hoje um filme datado, mas ainda assim de grande importância histórica.

Produção:

Título original: Erotikon [aka Riddaren av i går]; Produção: Svensk Filmindustri (SF); País: Suécia; Ano: 1920; Duração: 93 minutos; Distribuição: Svenska Bios Filmbyrå (Suécia), Decla-Bioscop AG (Alemanha); Estreia: 8 de Novembro de 1920 (Suécia) 30 de Junho de 1978 (Fundação Calouste Gulbenkian, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Mauritz Stiller; Produção: Charles Magnusson; Argumento: Mauritz Stiller [como Mauritz Rellits], Arthur Nordén [como Arthur Nedron], Gustaf Molander [a partir da peça “A Kék róka” de Ferenc Herczeg]; Intertítulos: Alva Linbohm-Lundin; Fotografia: Henrik Jaenzon [preto e branco]; Direcção Artística: Axel Esbensen; Figurinos: Carl Gille; Coreografia: Carina Ari.

Elenco:

Anders de Wahl (Professor Leo Charpentier), Tora Teje (Irene Charpentier, Esposa do Professor), Karin Molander (Marte, Sobrinha de Leo), Elin Lagergren (Mãe de Irene), Lars Hanson (Preben Wells, O Escultor), Vilhelm Bryde (Barão Felix), Bell Hedqvist (Amigo do Barão), Torsten Hammarén (Professor Sidonius), Vilhelm Berndtson (Jean, O Mordomo), Stina Berg (Criada), John Lindlöf (Amigo de Preben), Greta Lindgren (Modelo de Preben), Carl Wallin (Vendedor de Peles), Gucken Cederborg (Cozinheira), Tora Wibergh (Jenny).