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Irrational ManMais um ano, mais um filme. No seu ritmo habitual, Woody Allen estreou em 2015 um filme rodado em Newport, Rhode Island, continuando a alternância entre os Estados Unidos e a Europa. No elenco continuava Emma Stone, agora contracenando com Joaquin Phoenix, para um exercício de crime e castigo, mesclado com filosofia existencialista e os caprichos do acaso, com toques de suspense hitchcockiano. Com distribuição da Sony Pictures (pela sétima vez consecutiva), este foi o último filme de Allen produzido por Jack Rollins, o qual morreria antes da estreia.

Sinopse:

Abe Lucas (Joaquin Phoenix) é um professor de filosofia, tão reputado pelos trabalhos publicados, como pela aura de depressão que o acompanha. Quando Abe vai ensinar em Braylin, Newport, é alvo do interesse da colega Rita Richards (Parker Posey) e da estudante Jill Pollard (Emma Stone). Ambas se deixam fascinar pela profundidade e sofrimento interno de Abe, o qual aceita Rita como amante, sem querer o afecto que Jill lhe oferece. Mas quando Abe e Jill ouvem uma conversa em que alguém mostra como um juiz corrupto lhe está a estragar a vida, Abe decide que é sua missão livrar o mundo de tal juiz. Nessa decisão encontra uma nova força para viver.

Análise:

De volta aos Estados Unidos, Woody Allen continuou a sua carreira, novamente com Emma Stone como heroína, a exemplo do seu anterior “Magia ao Luar” (Magic in the Moonlight, 2014). Desta vez Stone contracenava com o mais visceral Joaquin Phoenix, o novo encarregado de trazer para a tela a persona de Allen do existencialista em eterno estado de depressão e conflitos internos.

A inspiração desse existencialismo, sempre tão presente na obra de Allen, resultou no próprio título, pois “Irrational Man: A Study In Existential Philosophy” é o título do livro de William Barrett, publicado em 1958, e que serviu como primeira amostra do existencialismo francês em língua inglesa.

“Homem Irracional” é a história do existencialista e professor de filosofia, Abe Lucas (Joaquin Phoenix), um homem ainda a braços com amarguras do seu passado, que parece usá-las como desculpa para evitar viver. É num estado decadente, entregue à bebida e à beira do colapso, que Abe se apresenta no campus de Braylin, na região de Newport, Rhode Island, para leccionar em filosofia. A sua reputação de pensador inspirado, com vários trabalhos publicados fazem dele uma pequena atração entre colegas e alunos.

É o caso de Rita Richards (Parker Posey), que apesar de casada, vê em Abe um passaporte para outra vida, de preferência em Espanha, assediando-o com a sua sexualidade, quando Abe nem nisso consegue ter interesse. Do outro lado está Jill Pollard (Emma Stone), estudante brilhante, e namorada de Roy (Jamie Blackley), que se torna amiga de Abe, para se deixar fascinar com a sua intelectualidade e sofrimento.

Mas para Abe, o clique dá-se quando ouve uma conversa sobre um juiz corrupto que está a estragar a vida de uma mulher. Abe decide que o mundo ficaria melhor sem tal juiz, e concorda que, mais que escrever sobre mudanças e revoluções de pensamento, há que agir com gestos concretos. Assim assume como missão matar o juiz, o que consegue, envenenando-o de modo engenhoso. Volta a ganhar gosto pela vida (e capacidade sexual), e aceita Jill como sua amante. Mas engenhosa é também Jill, que brincando com teorias sobre a misteriosa morte, vai juntar dois e dois, e acabar por concluir aquilo que mais ninguém no mundo poderia provar, que Abe foi o assassino. Tal leva-a a romper com Abe, aceitando não o denunciar, algo que terá de mudar quando alguém é incriminado erradamente. Só que Abe, que antes justificara as suas decisões com a lógica fria da sua superioridade moral, não consegue agora racionalizar que deve entregar-se, e vê como única solução matar Jill. Quer o acaso que seja, ele próprio, vítima do seu plano.

Por entre doses doscomunais de filosofia, Woody Allen traz-nos mais uma história centrada num neurótico existencialista, que refuta a vida à sua volta, imerso nos sofrimentos pessoais, por vezes forjados por si próprio como uma forma de alienação. Nesse ponto a novidade é a interpretação de Joaquin Phoenix, que, ao invés do que tantos já fizeram (Kenneth Branagh, Jason Biggs, Larry David, Owen Wilson, Jesse Eisenberg, entre outros), consegue encarnar o protagonista alleniano, sem repetir maneirismos, compondo um personagem díspar e eficaz.

Essa é quase a única novidade do filme de Woody Allen senão vejamos. Temos uma história típica de Pigmalião, onde um tutor, mais velho, e intelectualmente estimulante, acaba por conquistar uma menina nova, e pronta para ser moldada por ele. Temos o regresso do papel do acaso, tanto discutido pelos personagens em quase todos os diálogos, como evidente no argumento, e já motivo do anterior “Match Point” de 2006. Temos o perene Crime e Castigo (com explícitas referências a Dostoievsky), tema que gerou filmes completos como a trilogia de filmes “Crimes e Escapadelas” (Crimes and Misdemeanors, 1989), o já citado “Match Point” e “O Sonho de Cassandra” (Cassandra’s Dream, 2007).

“Homem Irracional” torna-se assim, uma vez deixadas de lado as vicissitudes da personalidade de Abe e da sua relação com Jill, uma história de moralidade ou falta dela, quer do ponto de vista exterior (as convenções humanas sobre o certo e o errado, tanto as do bom senso como as intelectuais), quer do interior (o modo como essas decisões condicionam uma pessoa).

Como o personagem de Martin Landau em “Crimes e Escapadelas”, Abe planeia o crime perfeito, aquele em que ninguém o poderá ligar ao morto. Como o personagem de Jonathan Rhys Meyers em “Match Point”, Abe confia num universo amoral, onde o acaso pode jogar a seu favor. Como o personagem de Colin Farrell em “O Sonho de Cassandra”, Abe deixa que o medo de ser apanhado seja a sua perdição, numa espécie de castigo proverbial, implacável onde a moral individual e a justiça humana falham.

Há ainda a referir a referência a Hitchcock, num filme que é construído para nos dar vários pontos de suspense, os mais imediatos sendo o envenenamento do juiz e a tentativa de crime com que o filme termina. Mas mais que isso, muito de “Homem Irracional” é construído sobre as lições do mestre (ele próprio um paladino da culpa). Se a ideia do crime perfeito, descorrelacionado da vítima, remete para “Um Desconhecido no Norte-Expresso” (Strangers on a Train, 1951), a forma como Jill constrói a verdade a partir de um puro jogo de especulação lembra “Chamada para a Morte” (Dial M for Murder, 1954) e, por fim, o divertimento pessoal de Abe, assistindo à incapacidade de todos para o descobrirem, enquanto se sente moralmente superior, parece trazido de “A Corda” (Rope, 1948). Temos, portanto, uma história de crime, com ou sem castigo, onde a moralidade é matéria de debate, a superioridade de quem se julga conseguir libertar de grilhões humanos tem resultados ambíguos, e consequências moral e filosoficamente distintas para todos os personagens em seu redor (note-se como Rita está disposta a amar Abe mesmo que este seja um assassino).

Negativamente pode-se apontar vários aspectos a “Homem Irracional”. Como dito, o filme remete demasiado para outras obras (de Dostoievsky, Allen e Hitchcock). São discutíveis algumas opções que parecem pequenas vinganças pessoais (repare-se como o caso em questão é o de um juiz que quer tirar os filhos à sua mãe, e que por isso merece a morte. É isto ainda consequência de contas por ajustar pela separação de Allen e Mia Farrow, com as consequentes lutas em tribunal pela paternidade dos filhos?). As longas e omnipresentes narrações em off tornam-se entediantes e parecem preguiça de um realizador que prefere declamar em vez de mostrar, ao mesmo tempo que precisa explicar passo a passo cada pensamento e motivação dos seus personagens a um público no qual não tem muita fé.

Mas pela positiva não se pode deixar de destacar a leveza da história, a sua sinuosidade, e humor de tantas subtilezas e ironias. Note-se como a máxima de Abe era que o existencialismo ensina que é necessário bater no fundo para se ter experiência de vida necessária para se agir. E veja-se onde Abe terminou. Note-se ainda como é o prémio ganho por Jill (a lanterna que a mostrava como pessoa prática) que a salva na hora da morte. Não é esse o triunfo da racionalidade sobre o romantismo de Abe?

Pesadas as coisas, é caso para dizer, mesmo que nem sempre original e inspirado, mais ninguém conta histórias como Woody Allen.

Produção:

Título original: Irrational Man; Produção: Gravier Productions / Perdido Productions; Produtores Executivos: Ron Hez, Adam B. Stern, Allan Teh; Co-Produtor Executivo: Jack Rollins; País: EUA; Ano: 2015; Duração: 95 minutos; Distribuição: Sony Pictures Classics; Estreia: 15 de Maio de 2015 (Festival Internacional de Cannes, França), 17 de Julho de 2014 (EUA), 17 de Setembro de 2014 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Edward Walson; Co-Produção: Helen Robin; Argumento: Woody Allen; Fotografia: Darius Khondji [filmado em Panavision]; Montagem: Alisa Lepselter; Design de Produção: Santo Loquasto; Direcção Artística: Carl Sprague; Cenários: Jennifer Engel; Figurinos: Suzy Benzinger; Caracterização: Marjorie Durand; Efeitos Especiais: Adam Bellao; Efeitos Visuais: Alex Miller.

Elenco:

Joaquin Phoenix (Abe Lucas), Emma Stone (Jill Pollard), Parker Posey (Rita Richards), Jamie Blackley (Roy), Betsy Aidem (Mãe de Jill), Ethan Phillips (Pai de Jill), Paula Plum (Presidente do Colégio), Robert Petkoff (Paul), Sophie von Haselberg (April), Tom Kemp (Juiz Spangler), Susan Pourfar (Carol), Kate McGonigle (Ellie).

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