Etiquetas

, , , , , , , , , , , , ,

Herr Arnes PengarNo século XVI, na Suécia, mercenários escoceses usados em guerras internas são depois condenados à prisão quando deles já não há necessidade. É o caso de Sir Archie (Richard Lund), Sir Filip (Erik Stocklassa) e Sir Donald (Bror Berger), que conseguem escapar, dirigindo-se através do penoso Inverno sueco, para onde há barcos de regresso à Escócia. No caminho deparam com a aldeia onde vive Herr Arne, o pastor local, que enriqueceu juntando tesouros das paróquias dos arredores. Os escoceses, tomados pelo álcool, matam e queimam toda a família, roubando o tesouro. A única sobrevivente é Elsalill (Mary Johnson), filha de Herr Arne, que é levada para viver com o pescador Torarin (Axel Nilsson) na vila marítima de Marstrand. Quando os escoceses chegam a Marstrand para encontrar um navio, Sir Archie conhece e apaixona-se por Elsalill. Só que esta ouve os escoceses falar do seu feito, e percebe que o seu amado é um dos responsáveis pela morte da família.

Análise:

Em 1919 Mauritz Stiller era já um realizador consagrado na Suécia, sendo hoje visto como um dos fundadores do cinema daquele país. Embora tenha principalmente ficado para a história como o homem que descobriu Greta Garbo (e provavelmente que lhe encontrou o nome artístico), Stiller contava já com várias dezenas de filmes quando a deu a conhecer ao mundo com “A Lenda de Gösta Berling” (Gösta Berlings Saga, 1924).

Um dos seus filmes mais conceituados foi “O Tesouro de Arne”, um filme de época, baseado numa história da nobelizada Selma Lagerlöf, autora tantas vezes adaptada ao cinema sueco. O livro de Selma Lagerlöf fora já adaptado ao teatro, na Alemanha, e houve mesmo o projecto de fazer dele um filme naquele país. Mas seria a toda poderosa Svenska Biografteatern, companhia máxima do cinema sueco da era muda (actual AB Svensk Filmindustri) a produzir a obra, filmando nos seus estúdios em Lindingö (nos arredores de Estocolmo), uma história que, como quase sempre em Lagerlöf se passava na província, neste caso nas regiões geladas de Bohuslän, pequeno distrito a oeste, junto ao mar e perto da Noruega.

Conhecida pelas suas histórias rurais, de apelo a uma identidade tradicional, onde natureza e uma certa religiosidade natural fabricam personagens do povo, Selma Lagerlöf conta em “O Tesouro de Arne” uma história épica passada no século XVI e onde (no livro, mas não no filme) vários elementos sobrenaturais ajudam a desenvolver o enredo.

Com argumento de Gustaf Molander e do próprio realizador, Mauritz Stiller mostra-nos como três mercenários escoceses (entre tantos usados em guerras internas e descartados para a prisão quando deles não havia necessidade), escapam para viajarem para o mar, famintos e com frio, até depararem com a pequena aldeia de Solberga. Eles são Sir Archie (Richard Lund), Sir Filip (Erik Stocklassa) e Sir Donald (Bror Berger), que em Solberga, sob efeito do álcool vão roubar, matar e queimar, na casa de Herr Arne, o rico pastor religioso local.

Resta apenas uma sobrevivente, Elsalill (Mary Johnson), filha de Herr Arne, que fica em estado de choque, sendo levada para viver com o pescador Torarin (Axel Nilsson) de Marstrand. Só que os escoceses vão também para Marstrand, e para cúmulo da ironia, Sir Archie e Elsalill vão-se apaixonar, enquanto ele espera por um barco que o leve de volta à sua terra natal. Trabalhando no bar que os escoceses frequentam, Elsalill acaba por os ouvir falar do roubo, e descobre que são os causadores pela desgraça da sua família. Resta-lhe decidir se deve perdoar por amor, ou entregar à justiça aquele que ama.

Dividido em cinco actos, numa clara influência teatral, “O Tesouro de Arne” é uma obra de grande fôlego, com imagens de grande fulgor, nomeadamente as passadas na neve. Embora filmando quase sempre em planos fixos, Stiller mostra um grande domínio na linguagem cinematográfica com uma decoupage complexa, raccord perfeito, e uma subtil criação de ambientes. A película é tingida na criação destes ambientes (sépia nos interiores, azul na noite, etc.), e os actores, embora com interpretações estilizadas, são bastante naturais, com a protagonista Mary Johnson (nome artístico de Astrid Maria Carlsson) a ter já sido comparada à célebre Lillian Gish.

Embora um filme de época, “O Tesouro de Arne” lida obviamente com temas actuais, como a culpa, o remorso, e o sentido de dever. Elsalill é, nesse sentido, o motor de toda a história, a vítima, a sobrevivente (sentindo culpa por essa sobrevivência), e por fim a detentora da verdade, e da possibilidade de decidir os futuros dos assassinos.

Não deixando de lado algum misticismo (baseado afinal no misticismo e superstições próprias das sociedades rurais), Stiller mostra-nos profecias de uma velha senhora, visões fantasmagóricas (usando múltiplas exposições para criar personagens semi-transparentes), e como o sacrifício de Elsalill não é vão, e se liga indelevelmente com as forças que controlam o congelar do fiorde, e com ele atrasam a partida do barco, até os criminosos serem apanhados.

Bem sucedido no seu tempo, “O Tesouro de Arne” o filme teria um remake em 1954, sob o título original da história de Lagerlöf, “Herr Arnes Penningar”, e realizado por Gustaf Molander.

“O Tesouro de Arne” foi restaurado em 2000 pelo Swedish Film Institute Archive, a partir de cópias originais descobertas em Londres e Copenhaga.

Produção:

Título original: Herr Arnes pengar; Produção: Svenska Biografteatern AB; País: Suécia; Ano: 1919; Duração: 106 minutos; Distribuição: Svenska Bios Filmbyrå; Estreia: 22 de Setembro de 1919 (Suécia).

Equipa técnica:

Realização: Mauritz Stiller; Produção: Charles Magnusson; Argumento: Mauritz Stiller, Gustaf Molander [baseado em “Herr Arnes penningar” de Selma Lagerlöf]; Intertítulos (versão restaurada): Ingrid Eng-Rundlöw; Música (versão restaurada): Matti Bye, Fredrik Emilson; Fotografia: Gustaf Boge, Julius Jaenzon [preto e branco]; Design de Produção: Alexander Bako, Axel Sørensen; Figurinos: Axel Esbensen; Caracterização: Ester Lundh, Manne Lundh.

Elenco:

Erik Stocklassa (Sir Filip), Bror Berger (Sir Donald), Richard Lund (Sir Archie), Axel Nilsson (Torarin), Hjalmar Selander (Herr Arne), Concordia Selander (Mulher de Herr Arne), Gösta Gustafson (Padre), Mary Johnson (Elsalill), Wanda Rothgardt (Berghild), Stina Berg (Senhoria), Gustav Aronson (Capitão do Navio), Jenny Öhrström Ebbesen (Katri).

Anúncios