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Barton FinkEm 1941, Barton Fink (John Turturro) acabou de conseguir o seu primeiro triunfo como dramaturgo em Nova Iorque. O seu objectivo é criar um novo teatro, mais real, onde o homem comum seja ponto central. Mas isto é atalhado quando Fink recebe uma proposta de Hollywood, e é impelido a aceitá-la, pelo dinheiro envolvido. Uma vez em Hollywood, Fink é intimidado pela cidade, o calor, a figura seu patrão Jack Lipnick (Michael Lerner), e as parcas condições do Hotel Earle, onde se estabelece. Aí trava amizade com outro hóspede, o ruidoso Charlie Meadows (John Goodman), ao mesmo tempo que, bloqueado na sua inspiração, se vai deixando distrair por uma série de acontecimentos quase surreais.

Análise:

Em 1991 os irmãos Joel e Ethan Coen estreavam o seu quarto filme em parceria. Como sempre até então, Joel realizava (com participação não creditada de Ethan), Ethan produzia (com participação não creditada de Joel) e o argumento tinha a assinatura de ambos. Desta vez a vítima do olhar corrosivo dos irmãos era o sistema de Hollywood, do ponto de vista de um argumentista recém-chegado, e inadaptado a este novo mundo.

O filme tem o seu lado autobiográfico, já que foi inspirado pelo bloqueio dos Coen, quando tentavam escrever “História de Gangsters” (Miller’s Crossing, 1990), e baseou-se em de William Faulkner (que inspirou o personagem W. P. Mayhew), cujo primeiro argumento em Hollywood foi para “Uma Mulher Que Passou” (Flesh, 1932), um filme de lutadores, protagonizado por Wallace Beery, tal como o tratado em “Barton Fink”.

“Barton Fink”, o filme, conta-nos a história de Barton Fink, o escritor (John Turturro), que acabou de ter o seu primeiro sucesso como dramaturgo em Nova Iorque. Fink é um idealista, que pretende renovar o teatro centrando-o no homem comum e em problemas reais, ao invés das históricas grandiosas em que ele se baseia tantas vezes. Só que entretanto chega um convite para que Fink se mude para Hollywood onde escreverá para cinema e, embora inicialmente relutante, o escritor acaba por se convencer a mudar.

Começam então os problemas, numa completa inadaptação, que passa pelo desconfortável hotel onde é instalado, pela personalidade gritantemente dominante do seu novo patrão, Jack Lipnick (Michael Lerner), e pela relação com o seu barulhento vizinho Charlie Meadows (John Goodman), que se vai tornando a única pessoa com quem Fink conversa. Segue-se o natural bloqueio de inspiração, que Fink tenta resolver privando com outro escritor, W.P. Mayhew (John Mahoney). Mas Mayhew está pior que Fink, desacreditado, desinspirado, entregue à bebida e a acessos de depressão e violência, dos quais a vítima é a secretária e amante Audrey Taylor (Judy Davis).

Barton Fink acaba por se apiedar de Audrey, e os dois acabam na cama, só que ao acordar Fink descobre Audrey barbaramente assassinada ao seu lado. Recruta então a ajuda de Charlie, para mais tarde descobrir que este é um assassino em série conhecido como Madman Mundt. Pelo meio Fink resolve o seu bloqueio e escreve o que considera uma obra-prima, que é, obviamente considerada lixo por Lipnick.

Com tanto a acontecer em “Barton Fink”, a primeira coisa que se pode dizer do filme é que este é multidimensional, dando mais perguntas que respostas, sobre temas que só aos poucos se vão tornando perceptíveis. À cabeça, obviamente, a relação de um argumentista com a sua inspiração, e com aqueles que esperam a sua obra. Se por um lado temos o filme como uma metáfora dos medos, inadaptações, e constantes distracções que levam ao aumentar do bloqueio e insegurança de alguém que sente querer fazer algo grandioso, mas não acredita estar perante o meio adequado (e aí tudo, desde o hotel a Charlie e à relação com Mahoney e Audrey, resulta como obstáculo para Fink), por outro temos uma crítica directa a Hollywood, ao seu modo de triturar artistas como uma linha de montagem que exige resultados previamente formatados, decididos por homens de negócios sem a menor vocação artística.

Mas “Barton Fink” é muito mais que isto. Usando um universo muito seu, que passa por uma palete de cores típica, personagens eternamente fala-baratos, um surrealismo de conversas inconsequentes, temas elusivos (há ou não uma constante referência ao advento do nazismo e perseguição dos judeus?) e o uso de actores fetiche que os acompanhariam em tantos filmes (John Turturro, John Goodman, Jon Polito, Steve Buscemi), os Coen constroem uma história críptica, dada a muitas interpretações, e que deixa propositadamente muitas perguntas em aberto (o que estava na caixa? o que aconteceu a Charlie? qual o futuro de Fink?)

Algumas teorias apontam para o carácter onírico do filme, como sendo um pesadelo sobre um bloqueio de escrita, e onde Hollywood funciona como um inferno metatórico. Por isso o hotel tem o aspecto medonho que tem, com paredes a desfazer-se e um eterno calor a importunar os hóspedes (note-se como o paquete – Steve Buscemi – surge pela primeira vez vindo das profundezas, e o operador de elevador repete o andar três vezes, 6-6-6). Nesse sentido Charlie, primeiro como simpático amigo, depois como violento assassino é a Némesis demoníaca de Fink, o qual sente a sua queda precipitar-se ao deixar-se tentar pela mulher de outro. Esse lado labiríntico de pesadelo não deixa de dever algo ao universo de Federico Fellini, sendo ainda um filme que tem alguns pontos de contacto com o surreal (Naked Lunch) de David Cronenberg, curiosamente estreado no mesmo ano, e também com Judy Davis.

Seja como for que o queiramos encarar, sátira a Hollywood, exercício sobre o bloqueio de um escritor, luta metafórica com demónios internos, descida a um inferno onírico, ou uma simples transfiguração de distracções procrastinadoras como episódios surreais, “Barton Fink” é um filme surpreendente, marcado quer pelo lado visual (veja-se como os corredores se alongam para o infinito, e os cenários fora do quarto de Fink geralmente o fazem sentir pequeno), quer pela força das interpretações, na verborreia de vendedores de banha da cobra em que os personagens dos Coen muitas vezes se tornam.

Mais apreciado pela crítica que pelo público, “Barton Fink” foi o primeiro filme a vencer os três principais prémios do Festival de Cannes (Palma de Ouro, Melhor Realizador e Melhor Actor). Foi ainda nomeado para três Oscars, não tendo vencido nenhum.

Produção:

Título original: Barton Fink; Produção: Circle Films / Working Title Films; Produtores Executivos: Ted Pedas, Jim Pedas, Ben Barenholtz, Bill Durkin; País: EUA / Reino Unido; Ano: 1991; Duração: 117 minutos; Distribuição: Twentieth Century Fox Film Corporation; Estreia: Maio de 1991 (Festival Internacional de Cannes, França), 21 de Agosto de 1991 (EUA), 1 de Novembro de 1991 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Joel Coen, Ethan Coen [não creditado]; Produção: Ethan Coen, Joel Coen [não creditado]; Co-Produção: Graham Place; Argumento: Ethan Coen, Joel Coen; Música: Carter Burwell; Direcção Musical: Sonny Kompanek; Fotografia: Roger Deakins; Montagem: Ethan Coen [como Roderick Jaynes], Joel Coen [como Roderick Jaynes]; Design de Produção: Dennis Gassner; Direcção Artística: Leslie McDonald, Robert C. Goldstein [como Bob Goldstein]; Cenários: Nancy Haigh; Figurinos: Richard Hornung; Caracterização: Jean Ann Black; Efeitos Especiais: Robert Spurlock; Direcção de Produção: Alma Kuttruff

Elenco:

John Turturro (Barton Fink), John Goodman (Charlie Meadows), Judy Davis (Audrey Taylor), Michael Lerner (Jack Lipnick), John Mahoney (W.P. Mayhew), Tony Shalhoub (Ben Geisler), Jon Polito (Lou Breeze), Steve Buscemi (Chet), David Warrilow (Garland Stanford), Richard Portnow (Detective Mastrionotti), Christopher Murney (Detective Deutsch), I.M. Hobson (Derek), Meagen Fay (Poppy Carnahan), Lance Davis (Richard St. Claire), Harry Bugin (Pete).

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