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PræsidentenAinda jovem, Karl Victor von Sendlingen (Halvard Hoff) ouve do seu pai Franz Victor (Elith Pio) a história de como este engravidou uma criada e, por imposição do seu pai (Carl Meyer), a desposou. Franz Victor viria a odiar esta decisão, e por isso fez o seu filho Karl Victor jurar que nunca casaria abaixo da sua classe. Anos mais tarde, Karl Victor é o muito respeitado presidente do colégio de juízes da sua vila, quando lhe chega às mãos o julgamento do infanticídio de Victorine Lippert (Olga Raphael Linden), que ele reconhece como sua filha ilegítima, de uma relação em que ele não quis casar com a mãe dela. Sentindo-se culpado da sorte da rapariga, mas decidido a ser leal ao seu posto, Karl Victor vai tentar tudo para salvar Victorine por meios legítimos, para assim limpar a sua consciência.

Análise:

Em 1919, quando a era dourada do cinema dinamarquês já definhava, estreava-se na realização, Carl Theodor Dreyer, que seria um dos nomes mais sonantes do cinema mundial. Sintomático dessa mudança no eixo escandinavo, que mudaria o fulcro da Dinamarca para a Suécia, em virtude das hostilidades da Primeira Guerra Mundial, que afectavam principalmente a vizinha Alemanha, mercado privilegiado dos filmes dinamarqueses, é o facto de que Dreyer escolheu a ilha de Gotland, na Suécia como cenário do seu filme de estreia, “O Presidente”.

Baseado no livro de 1884, “Der Präsident”, do alemão Karl Emil Franzos, Dreyer contou uma história moral, de honra e família, num fundo ainda extraído do século XIX, mas perfeitamente actual no seu tempo.

“O Presidente” é a história da família von Sendlingen, outrora aristocrática, e detentora de um faustoso castelo, que hoje são apenas ruínas onde as crianças pobres brincam. Este confronto entre riqueza e pobreza, nas relações entre classes, é o mote da história da família que passa por episódios recorrentes, de consequências trágicas.

Tudo começa com o velho Franz Victor von Sendlingen (Elith Pio), que perto da morte chama o seu filho Karl Victor (Halvard Hoff) para lhe contar um segredo do seu passado. Franz Victor, em jovem, deixou-se enamorar por uma empregada, e acabou por a engravidar. Embora esse não fosse o seu desejo, foi forçado a casar com ela pelo seu pai (Carl Meyer), que lhe repetiu o lema, “um von Sendlingen pode errar, mas não é um vilão”. Franz Victor nunca foi feliz com essa decisão e pediu ao filho que jurasse que nunca casaria abaixo do seu nível social.

Trinta anos mais tarde, Karl Victor von Sendlingen é um respeitado juiz, presidente do colégio judicial da cidade, que recebe como novo caso o infanticídio cometido pela jovem Victorine Lippert (Olga Raphael Linden), uma mulher que engravidou do patrão, que depois a abandonou. Karl Victor, sabendo que a pena mais óbvia é a pena de morte, fica extremamente abalado, pois não só sabe que Victorine é sua filha ilegítima, como revê na história dela a maldição da sua família. Afinal, sente ser tudo culpa sua, pois, como conta ao seu melhor amigo, o advogado Berger (Richard Christensen), a sorte de Victorine foi traçada por ele, quando recusou casar com a mãe dela, a tutora de uma sua sobrinha, Hermine Lippert (Betty Kirkeby), para cumprir a promessa feita ao pai.

Como esperado Victorine é condenada à morte, num julgamento onde Karl Victor se sente forçado a aplicar a lei. Mas após a sentença, reconciliando-se com a filha, Karl Victor apela para a revogação da pena. Ao não o conseguir, Karl Victor consegue tirar Victorine da prisão, e leva-a para o estrangeiro, onde a estabelece numa mansão, e onde ela conhecerá o seu futuro marido Weiden (Jon Iversen). Não satisfeito com a sua atitude, Karl Victor regressa para se colocar à mercê da justiça pelo crime cometido, mas o novo juiz não quer ouvir falar em tal, pois reconhecendo as razões de Karl Victor, decide dar-lhe a paz de ter finalmente feito algo pela filha.

Para primeiro filme, há que reconhecer o arrojo de Dreyer, ao filmar uma história complexa, não apenas pelo tema melindroso, como pela estrutura narrativa usada. “O Presidente”, tal como Dreyer outras vezes fará, é uma crítica social, denunciando valores retrógrados e as suas consequências desastrosas para tantas vidas. Neste caso a denúncia vai para as diferenças de classes que levavam a que os mais favorecidos pudessem usar as mulheres das classes baixas como brinquedos, abandonados depois à sua sorte. Temos, no que parece um pouco uma falha de imaginação, três casos iguais. Primeiro o caso do pai de Karl Victor, que teve que casar contra sua vontade; depois o caso de Karl Victor, que não casou por pedido do pai, e que com isso votou a mulher que deixou a uma morte prematura; finalmente temos o caso da filha de Karl Victor, a qual foi abandonada por outro homem rico, o que a levou, em desespero em matar o seu filho, e com isso sujeitar-se à pena de morte.

É a habitual tendência escandinava para lidar com tabus (abuso de mulheres de classe desfavorecida, o infanticídio, a pena de morte, a fuga à justiça) onde, mais importante que o obedecer cego ao status quo, há um constante repensar das ideias e suas consequências, nem que para isso seja necessário desobedecer à lógica instituída.

É isso que faz Karl Victor, num primeiro momento fiel à justiça, mas num segundo com necessidade de aplacar a culpa que carrega pelos seus erros pessoais passados. Tal resulta na fuga da cadeia que proporciona à sua filha, assim salvando-a da pena por uma culpa que ele sente que, se legalmente é dela, moralmente é dele. Por isso Karl Victor consegue um novo futuro para a sua filha dispondo-se depois a pagar por ela. Quando o seu Vice-Presidente Werner (Axel Madsen) não aceita a culpa de Karl Victor, pois isso poria em causa a confiança do povo, este vai para as ruínas do seu castelo, onde aparentemente se suicida.

A história é tão mais complexa (com Dreyer a não deixar de fazer uso de muitos inserts de cartas e documentos oficiais), pela estrutura usada para a narrar. Esta compõe-se de vários flashbacks e elipses temporais, senão veja-se. A história começa no final do século XIX com o velho Franz Victor a falar ao filho Karl Victor. Segue-se o flashback em que vemos a história de juventude de Franz Victor. Regressamos ao momento inicial, e vemos a morte de Franz Victor. Saltamos temporalmente para vermos Karl Victor já juiz. Vemos o flashback em que Karl Victor conta a sua história a Berger. E assim sucessivamente.

Ainda longe da técnica que o imortalizaria, Dreyer filma igualmente interiores e exteriores, com elegância e cenários ricos. Nota-se já uma tendência para explorar a sombra, e alguma geometria do plano (com molduras de portas a servir de enquadramento), no que ainda são essencialmente planos fixos (note-se o travelling na sequência do casamento de Victorine para nos mostrar uma igreja quase vazia), utilizando o tingir da película (sépia para interiores e exteriores diurnos, azul para exteriores nocturnos, ou ainda o vermelho das tochas na noite) para criar ambiente.

Embora um pouco lento, e com sequências demasiado longas, como por exemplo as cerimónias de homenagem na despedida de Karl Victor, “O Presidente” funciona a nível dramático, com uma história comovente e apelativa. Ficava a promessa de um novo realizador, cuja obra passaria quase sempre pela homenagem da mulher e denúncia das penas injustas por ela vividas. Afinal Dreyer sabia do que falava, ele que nasceu filho ilegítimo e viu a sua mãe morrer quando provocou o aborto de um segundo filho ilegítimo.

Produção:

Título original: Præsidenten; Produção: Nordisk Film; País: Dinamarca; Ano: 1919; Duração: 84 minutos; Distribuição: Fotorama (Dinamarca), Universum Film (UFA) (Alemanha); Estreia: 1 de Fevereiro de 1919 (Suécia), 9 de Fevereiro de 1919 (Dinamarca).

Equipa técnica:

Realização: Carl Theodor Dreyer; Argumento: Carl Theodor Dreyer [baseado no livro de Karl Emil Franzos]; Fotografia: Hans Vaagø [preto e branco]; Direcção Artística: Carl Theodor Dreyer.

Elenco:

Carl Meyer (Governador von Sendlingen), Elith Pio (Franz Victor von Sendlingen, Pai de Franz), Halvard Hoff (Karl Victor von Sendlingen), Jacoba Jessen (Maika), Axel Madsen (Vice-Presidente Werner), Richard Christensen (Georg Berger, Advogado de Defesa), Olga Raphael-Linden (Victorine Lippert), Betty Kirkeby (Hermine Lippert, Mãe de Victorine), Hallander Helleman (Franz), Fanny Petersen (Birgitta), Jon Iversen (Weiden, Noivo de Victorine), Carl Lauritzen (Padre), Peter Nielsen (Promotor Público), Christian Engelstoft (Jornalista).

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