Etiquetas

, , , , , , , , , , , , ,

S. O. B.Felix Farmer (Richard Mulligan) é um produtor de cinema a braços com o maior fracasso da sua carreira, e o iminente divórcio da sua mulher, e actriz principal, Sally Miles (Julie Andrews). Tal deixa-o à beira do suicídio, que tenta de várias formas, sempre frustradas pelos amigos Tim Culley (William Holden), Dr. Irving Finegarten (Robert Preston) e Ben Coogan (Robert Webber). Até que Felix tem uma idea para converter o fracasso num sucesso. Transformar Sally de uma assexuada estrela de filmes de família, num símbolo de erotismo, num filme sexualmente ousado. Falta só convencer Sally e, claro, o estúdio, na pessoa de David Blackman (Robert Vaughn).

Análise:

Como explicado a meio do filme, o acrónimo que lhe dá o título, “S.O.B.”, significa “Standard Operational Bullshit”. Trata-se de uma forma de dizer que por vezes a mentira e o engano através de caminhos sinuosos torna-se institucionalizada, e quase aceite por todos. Este é um dos temas de um filme que tenta demonstrar, de uma forma cómica, a confusão, improviso, e guerras de bastidores que podem estar na origem e produção de um filme em Hollywood.

Falando por experiência própria, e usando episódios da sua própria vida, Blake Edwards escreveu e realizou um filme que lida com os bastidores de Hollywood, nomeadamente com a pressão posta pelos estúdios sobre os autores. Segundo se diz habitualmente, a ideia do filme surgiu após a recepção que “Querida Lili” (Darling Lili, 1970) teve por parte da crítica, sendo esse um filme em que Edwards tentava mudar a imagem de Julie Andrews, dando à sua personagem uma sexualidade ausente nos seus típicos papéis assexuados. A interferência dos estúdios nos projectos seguintes, “Vagabundos Selvagens” (Wild Rovers, 1971) e “Um Caso de Urgência” (The Carey Treatment 1972), fizeram-no mesmo abandonar Hollywood para refazer a sua carreira na Europa, o que conseguiria graças à série “Pink Panther” com Peter Sellers.

Essas frustrações são visíveis no alter-ego de Edwards, o produtor Felix Farmer (Richard Mulligan), a braços com o maior fracasso da sua carreira, e o anunciado divórcio da sua mulher e actriz principal, Sally Miles (Julie Andrews). Na sua casa de praia Felix tenta várias vezes suicidar-se, no que é impedido por um grupo de amigos e colegas, que vai aparecendo como se de uma festa se tratasse, entre eles Tim Culley (William Holden), Dr. Irving Finegarten (Robert Preston) e Ben Coogan (Robert Webber). Pelo meio Felix tem uma ideia, mudar a ênfase do filme, transformando Sally de uma frígida e assexuada estrela de filmes de família, num símbolo de erotismo, num filme sexualmente ousado. Mas nem tudo será fácil, pois Felix tem ainda de convencer o chefe do estúdio, David Blackman (Robert Vaughn), a financiar o projecto. Caso contrário terá de investir toda a sua fortuna pessoal, incluindo a metade devida à furiosa Sally.

Sendo um filme sobre cinema, não falta a “Tudo Boa Gente” um filme-dentro-do-filme, isto é, aquilo que os personagens estão a produzir. Este é “Night Wind” e surge logo na sequência inicial, como uma cena musical, dançada por Sally, por entre brinquedos gigantes, como um típico filme de família de Julie Andrews, cantando “Polly Wolly Doodle”, tema popularizado décadas antes por Shirley Temple. Esta cena é mais tarde mudada para uma em que o cenário tem contornos de sonho erótico, com os desejos sexuais da personagem a ganharem vida, e esta a entregar-se na famosa cena em que arranca parte do vestido para mostrar os seios nus.

Tal como a Sally, esposa de Felix, tem de ser por este transformada, para perder a aura de personagem de filmes infantis, também Julie Andrews, esposa de Blake Edwards (e que participou em oito dos filmes do realizador), ao revelar-se em topless está a chocar os fãs para dizer que há muito mais na sua persona de tela, que a Mary Poppins (1964) da Disney ou a Maria von Trapp de “Música no Coração” (The Sound of Music, 1965).

Com a histeria, paranóia, e loucura que Edwards vê nas relações entre estúdios e autores, “Tudo Boa Gente” torna-se um carrossel de acontecimentos, que se sucedem a velocidades vertiginosas, com resultados catastróficos, por um número ruidoso de pessoas, a maior parte das vezes sob efeito de substâncias químicas (da simples adrenalina a complicados cocktails de comprimidos).

Por comparação com as melhores comédias de Edwards falta a “Tudo Boa Gente” algum equilíbrio, sentindo-se que, por vezes, o argumento é levado histericamente por algum dos personagens, à beira de um ataque de nervos (em particular pelo histriónico Richard Mulligan). No seu melhor, o filme traz algumas caracterizações deliciosas, e um interessante intrincar de acontecimentos para efeito cómico.

“Tudo Boa Gente” é por isso uma comédia mordaz, que nos traz um olhar algo inovador sobre a indústria do cinema e a relação entre alguns dos seus intervenientes, ao mesmo tempo que nos faz considerar o quanto de biográfico podemos aprender sobre Blake Edwards, e a famosa Julie Andrews, de uma forma como (literalmente) nunca a víramos. Profeticamente, e tal como o próprio filme nele retratado, também “Tudo Boa Gente” ultrapassou o orçamento previsto, necessitou de pós-produção, foi mutilado pelo estúdio, e confirmou a má relação entre Edwards e os estúdios.

Dividindo os críticos, “Tudo Boa Gente”, que foi o último filme de William Holden, que morreu logo após terminar o filme, seria nomeado para dois Golden Raspberry Awards (os Razzies), Pior Realizador e Pior Argumento. Ao mesmo tempo era nomeado pela Writers Guild of America como Melhor Argumento, e para os Globos de Ouro como Melhor Filme de Comédia ou Musical.

Produção:

Título original: S. O. B.; Produção: Artista Management / Geoffrey Productions / Lorimar Film Entertainment; Produtor Executivo: Michael Wolf; País: EUA; Ano: 1981; Duração: 121 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 1 de Julho de 1981 (EUA), 13 de Janeiro de 1982 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Blake Edwards; Produção: Blake Edwards, Tony Adams; Produtor Associado: Gerald T. Nutting; Argumento: Blake Edwards; Música: Henry Mancini; Fotografia: Harry Stradling Jr. [filmado em Panavision, cor por Metrocolor]; Montagem: Ralph E. Winters; Design de Produção: Rodger Maus; Direcção Artística: William Craig Smith; Cenários: Jack Stevens; Figurinos: Theadora Van Runkle; Caracterização: Rick Sharp, Ron Snyder; Efeitos Especiais: John Burke; Coreografia: Paddy Stone; Direcção de Produção: Lynn Guthrie.

Elenco:

Julie Andrews (Sally Miles), William Holden (Tim Culley), Marisa Berenson (Mavis), Larry Hagman (Dick Benson), Robert Loggia (Herb Maskowitz), Stuart Margolin (Gary Murdock), Richard Mulligan (Felix Farmer), Robert Preston (Dr. Irving Finegarten), Craig Stevens (Willard), Loretta Swit (Polly Reed), Robert Vaughn (David Blackman), Robert Webber (Ben Coogan), Shelley Winters (Eva Brown), Jennifer Edwards (Lila), Rosanna Arquette (Babs), John Pleshette (Vice-Presidente da Capitol Studios), John Lawlor (Director da Capitol Studios), Ken Swofford (Harold Harrigan, o Polícia), Hamilton Camp (Mr. Lipschitz), Paul Stewart (Harry Sandler), Mimi Davis (Joyce Benson), Benson Fong (Cozinheiro), Bert Rosario (Jardineiro), Larry Storch (Guru), David Young (Sam Marshall).

Anúncios