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AtlantisDr. Friedrich Kammacher (Olaf Fønss) vive atormentado pela doença da esposa, Angele (Lily Frederiksen), e trabalha no sentido de conseguir avanços médicos que a possam curar. Quando a comunidade científica recusa os seus trabalhos, em desespero, o Dr. Kammacher decide viajar. No cruzeiro em que viaja para os Estados Unidos, o Dr. Kammacher conhece muita gente, como a bailarina Ingigerd Hahlstroem (Ida Orloff), por quem se apaixona. O navio afunda a meio do Atlântico, e os passageiros são levados por um cargueiro. Nos Estados Unidos sucedem-se as desilusões amorosas de Dr. Kammacher, que desiste de Ingigerd, e sabe da morte da esposa. Vai então para uma casa de campo nas montanhas, onde adoece, e é tratado pela escultora Eva Burns (Ebba Thomsen).

Análise:

Em 1912 acontecia a tragédia do RMS Titanic, e um ano depois estreava “Atlantis”, um filme dinamarquês que ficaria famoso por recriar o afundamento trágico de um transatlântico. Tal seria ao mesmo tempo motivo de críticas, e de entusiasmo junto do público, que queria ver a recriação de uma tragédia, algo que seria importante na carreira do dinamarquês August Blom.

Figura de proa da Nordisk Films, então a mais importante produtora cinematográfica da Dinamarca, Blom foi o primeiro grande realizador dinamarquês, trazendo o cinema daquele país para um patamar técnico invejável, e nada inferior ao que se se começava a praticar na emergente Hollywood.

A partir do livro “Atlantis” do almão Gerhart Hauptmann, publicado em 1912 (ano em que Hauptmann venceria o prémio Nobel), Blom construiu um filme épico, centrado nas figuras de algumas das maiores estrelas dramáticas de então, como o actor dinamarquês Olaf Fønss e a cantora lírica austríaca Ida Orloff.

A história de “Atlantis” centra-se no Dr. Friedrich Kammacher (Olaf Fønss), o qual vive em desespero pela doença mental da sua esposa Angele (Lily Frederiksen), que o leva a trabalhar numa cura. Quando a comunidade científica recusa os seus trabalhos, o Dr. Kammacher opta por internar a esposa, e viajar, para limpar a sua cabeça. Em Berlim, o Dr. Kammacher conhece a bailarina Ingigerd Hahlstroem (Ida Orloff), por quem se apaixona, e ao saber que esta irá viajar para Nova Iorque, decide ele próprio seguir no mesmo navio, o Roland. Só que, e apesar de tudo parecer correr bem, com o Dr. Kammacher a conhecer várias pessoas, como o artista sem braços, Arthur Stoss (Charles Unthan), a tragédia ocorre quando o Roland atinge um destroço que lhe rompe o casco e o afunda. Os passageiros tentam salvar-se em salva-vidas, e são recolhidos por um cargueiro.

Em Nova Iorque, o Dr. Kammacher percebe que Ingigerd está demasiado abalada para continuar a sua carreira, e desinteressa-se dela, por a ver constantemente bajulada por outros. Torna-se entretanto próximo do grupo de amigos do artista Willy Snyders (Torben Meyer), conhecendo a escultora russa Eva Burns (Ebba Thomsen), de quem se torna amigo. Continuando à procura de paz, o Dr. Kammacher aceita a oferta do seu colega Dr. Schmidt (Carl Lauritzen) para passar um tempo na sua casa na montanha. Só que ao receber notícia da morte da sua esposa, o Dr. Kammacher adoece gravemente. Ao saber disto, Eva Burns viaja para o encontrar, e cuida dele até que ele se cure. Os dois desenvolvem a sua ligação, e Eva promete cuidar dos filhos de Kammacher, que assim a desposa e a leva de volta a casa na sua natal Dinamarca.

Sendo um filme pioneiro, “Atlantis” poderá hoje parecer arcaico, desde a sua apresentação, onde os principais actores cumprimentam o espectador em planos extra-diegéticos, até ao quase permanente uso de planos fixos, e de conjunto (sem um único grande plano). É escasso uso da montagem, com as cenas a sucederem-se cronologicamente, mudando apenas quando a acção muda de cenário.

Deve, no entanto, notar-se a grande qualidade da fotografia, a iluminação, e claro, a direcção que levou à produção de cenas complexas com muitos figurantes e cenários elaborados. A cereja no topo do bolo acaba mesmo por ser a longa sequência do afundamento do navio, filmada com grande realismo e detalhe, onde nada é deixado ao acaso, e onde Blom trabalha uma decoupage riquíssima, e uma montagem ao nível do que melhor se fazia no cinema mundial.

Curioso é que esse momento do afundamento é quase irrelevante para o resto da história que é, afinal, a das deambulações (interiores e exteriores) de um homem amargurado com uma vida que lhe trouxe tantas agruras. É, ainda assim, estranho que o Dr. Kammacher, com uma esposa à beira do internamento, e dois filhos crianças, tenha decidido que o melhor seria correr o mundo, deixando a família a cargo dos seus idosos pais (um dos quais morreria entretanto). Deixando isso de lado, “Atlantis” foca-se sobre as viagens do Dr. Kammacher, as pessoas que conhece, os mundos diferentes que vê, as mulheres que ele pensa deixar entrar na sua vida, e as fugas que vai fazendo por um retiro espiritual que o deixe recuperar em paz.

Com defeitos e virtudes, “Atlantis” torna-se demasiado extenso, coleccionando momentos díspares, muitas vezes laterais à história principal, onde não deixamos de sentir que a sua presença, tal como num circo, é proporcionar ao espectador um conjunto de experiências novas. Tal é notório na sequência onde vemos Arthur Stoss (Charles Unthan), o homem sem braços, desempenhar a sua rotina de circo em palco.

Apesar de ser um motivo de curiosidade para o público, tal foi o custo de produção de “Atlantis”, que o filme resultou num fracasso financeiro. Ainda assim, a Nordisk Films e August Blom tornavam-se nomes conceituados no panorama cinematográfico internacional.

Como curiosidade acrescente-se que August Blom teve como assistente um jovem húngaro chamado Mihály Kertész, o qual teria também um papel secundário na tela. Mais tarde, emigrado para os EUA, Kertész tornar-se-ia um dos maiores nomes da idade de ouro de Hollywood, sob o nome de Michael Curtiz.

Para além do final aqui descrito foi ainda filmado outro, mais triste, para o público russo, este está incluído na edição em DVD, a qual se baseia na restauração da película, feita em 1993, e que inclui inter-títulos simultâneos em dinamarquês e inglês.

Produção:

Título original: Atlantis; Produção: Nordisk Films Kompagni; País: Dinamarca; Ano: 1913; Duração: 114 minutos; Distribuição: Fotorama (Dinamarca), Great Northern Film Company (EUA); Estreia: 26 de Dezembro de 2013 (Dinamarca).

Equipa técnica:

Realização: August Blom; Produção: Ole Olsen; Argumento: Karl-Ludwig Schröder, Axel Garde [baseado no livro de Gerhart Hauptmann]; Fotografia: Johan Ankerstjerne [preto e branco].

Elenco:

Olaf Fønss (Dr. Friedrich von Kammacher), Frederik Jacobsen (Dr. Georg Rasmussen), Carl Lauritzen (Dr. Schmidt), Ida Orloff (Ingigerd Hahlstroem, Bailarina), Ebba Thomsen (Eva Burns), Charles Unthan (Arthur Stoss, Homem sem Braços), Torben Meyer (Willy Snyders, Artista), Cajus Bruun (Pai de Friedrich), Marie Dinesen (Mãe de Friedrich), Lily Frederiksen (Angèle, Mulher de Friedrich), Michael Curtiz [como Mihály Kertész] (Hans Fuellenberg, Colega de escola de Friedrich), Thomas P. Hejle (Escriturário), Alma Hinding (Emigrante Russa), Musse Kornbech (Jovem Emigrante Canadiana), Svend Kornbeck (Capitão do Navio), Bertel Krause (Empresário Artístico), Albrecht Schmidt (Pai de Eva), Christian Schrøder (Pai de Ingigerd), Franz Skondrup (Criado de Stoss), Svend Bille, Oluf Billesborg, Maja Bjerre-Lind, Vera Esbøll.

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