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Two-faced WomanLarry Blake (Melvyn Douglas) é um editor de uma revista de moda nova-iorquina, de férias numa estância de esqui. Quando vê a instrutora Karin Borg (Greta Garbo), apaixona-se por ela, e sem que quase percebam como, os dois casam. Só que os problemas começam quando há necessidade de voltar à vida real. É que Karin, é amante da vida ao ar livre, sem amarras ou condicionantes, enquanto Larry quer voltar para Nova Iorque, e exige que Karin o acompanhe. Esta nega-se, mas surge depois fingindo ser uma irmã gémea, Katherine, de conquistas fáceis e vida boémia, disposta a testar a fidelidade do marido, constantemente rodeado pela pretendente Griselda (Constance Bennett).

Análise:

1941 ficaria na história de Hollywood como o ano do último filme de uma das suas maiores estrelas de sempre, Greta Garbo, então com 36 anos. Essa despedida deu-se com o que se pode chamar quase uma Screwball Comedy, dirigida por George Cukor um mestre das comédias românticas e na direcção de estrelas femininas. Era uma tentativa de capitalizar a recente descoberta da comédia por Garbo, no filme precedente, “Ninotchka” (1939) de Ernst Lubitsch, que por isso contracenava de novo com Melvyn Douglas.

Com argumento de S. N. Behrman, Salka Viertel e George Oppenheimer, sugerido por uma peça Ludwig Fulda, “A Mulher de Duas Caras” é a história de um casamento imprevisto, quando o milionário, boémio e agressivo editor de revistas nova-iorquino Larry Blake (Melvyn Douglas), visita uma estância de esqui, e se apaixona pela sua instrutora, a austera e amante da vida ao ar livre Karin Borg (Greta Garbo). Só que os problemas no casal começam quando Larry, logo após o casamento, decide esquecer todas as promessas feitas de deixar a vida citadina para aprender a vida natural de Karin, e quer viajar para Nova Iorque, para retomar os seus negócios. Mais que isso, insiste que Karin o acompanhe, por ser sua mulher. Sentindo-se traída, Karin decide ficar, com a promessa de um regresso rápido de Larry. Mas o regresso não acontece, e Karin resolve surpreendê-lo em Nova Iorque. Ao vê-lo, contente na sua vida boémia, acompanhado da pretendente Griselda Vaughn (Constance Bennett), Karin faz-se passar por uma hipotética irmã gémea de si própria, de nome Katherine, e frequenta o círculo de Larry, como uma mulher fácil, entregue a conquistas efémeras e vida de bebida e festas. Larry, entretanto começa a perceber a charada, e decide jogar o jogo, para ver até onde vai, e qual se cansa primeiro, tentando conquistar Katherine, e dizendo-lhe que a ama mais do que ama Karin.

Trata-se de um argumento típico de Screwball Comedy, com um par romântico que tem tudo para não funcionar, a digladiar-se verbalmente, e através de enganos e esquemas de astúcia, na tentativa de se desarmarem um ao outro. Como sempre, as atitudes de ambos são tão guiadas por um amor cego, como por uma teimosia ainda mais cega, que leva todas as situações muito para lá do razoável, no que se torna uma linguagem própria que apenas os dois falam. Como se fosse nas tentativas de cada um desarmar o outro, que ambos encontram a união e empatia que de outro modo parecia não estar presente.

Com um Melvyn Douglas (no seu terceiro filme com Garbo) perfeito num papel que não lhe era estranho, é Garbo quem mais surpreende, na sua capacidade de mudar de personalidade, em duas irmãs completamente opostas (sendo Karin aquilo que mais esperamos da fria e distante actriz sueca). Cukor conduz a acção num ritmo acelerado, mas sem perder a elegância, onde as réplicas inspiradas e os jogos de olhares valem mais que gags burlescos. O ponto fraco do filme talvez seja a indefinição do caminho dos dois oponentes que, por isso, chegam a uma resolução muito pouco convincente e precipitada.

“A Mulher de Duas Caras” foi fortemente atacado pela Liga Nacional de Decência, por brincar com o casamento, mostrando a ideia do adultério como cómica. Larry e Karin passam a primeira noite juntos antes de casarem, Karin (como Katherine) faz o elogio das suas conquistas amorosas, elogiando a conquista de homens casados, e tentando seduzir o “cunhado” Larry, que afinal é o seu marido. Um tal jogo com o casamento era demais para as sensibilidades mais conservadoras. Como se não bastasse, sete dias após a estreia, deu-se o ataque a Pearl Harbor, e os Estados Unidos passaram a ter outras prioridades, que não passavam por comédias no cinema. A prestação de Garbo foi fortemente criticada, e ela própria chamaria ao filme o “seu túmulo”. Para a história, “A Mulher de Duas Caras” ficou como o filme que terminou a carreira de Garbo, o que faz de imediato as pessoas pensarem tratar-se de um mau filme, coisa que ele não é.

Não havia ainda a decisão de Garbo em terminar a carreira, mas esta, muito dependente do mercado europeu, viu os projectos seguintes nunca saírem do papel, por dificuldades de orçamento num momento em que a Segunda Guerra Mundial estava no seu apogeu. Tal precipitou a sua decisão, que a fez ir rejeitando papéis ao longo dos anos 40, até finalmente abandonar Hollywood. Era o fim da carreira de uma das maiores estrelas de Hollywood, quanto ao mito, esse não iria terminar.

Produção:

Título original: Two-Faced Woman; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1941; Duração: 90 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 30 de Novembro de 1941 (EUA), 9 de Fevereiro de 1943 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: George Cukor; Produção: Gottfried Reinhardt; Argumento: S. N. Behrman, Salka Viertel, George Oppenheimer [sugerido pela peça de Ludwig Fulda]; Música: Bronislau Kaper; Orquestração: Leo Arnaud; Fotografia: Joseph Ruttenberg [preto e branco]; Montagem: George Boemler; Direcção Artística: Cedric Gibbons; Cenários: Edwin B. Willis; Figurinos: Adrian; Efeitos Especiais: Warren Newcombe; Coreografia: Bob Alton.

Elenco:

Greta Garbo (Karin Borg), Melvyn Douglas (Larry Blake), Constance Bennett (Griselda Vaughn), Roland Young (O. O. Miller), Robert Sterling (Dick Williams), Ruth Gordon (Miss Ellis), Frances Carson (Miss Dunbar).

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