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NinotchkaDe Moscovo chegam a Paris Iranoff (Sig Ruman), Buljanoff (Felix Bressart) e Kopalski (Alexander Granach), três oficiais russos encarregados de vender as jóias da grã-duquesa Swana (Ina Claire), confiscadas durante a revolução. Mas não só eles se deixam deslumbrar pelo luxo parisiense, como são ludibriados pelo conde Léon d’Algou (Melvyn Douglas), que impugna a venda, reclamando as jóias para a grã-duquesa em tribunal. Chega então a enviada-especial Ninotchka (Greta Garbo), célebre pela sua frieza e austeridade. Cabe a Léon quebrar o gelo, o que consegue apaixonando-se e fazendo Ninotchka apaixonar-se por si. Só que, findo o processo, Ninotchka é obrigada pela grã-duquesa a regressar, sob pena de perder as jóias, e Léon não tem como entrar na União Soviética.

Análise:

Em 1939, surgia nos cinemas um filme com a frase publicitária “Garbo Laughs!”. Conhecida pelos seus papéis dramáticos, e persona de enorme sobriedade e reserva (dentro e fora da tela), só o facto de Greta Garbo interpretar uma comédia era, mais que uma novidade, uma completa surpresa. Tudo aconteceu pelas mãos do celebérrimo Ernst Lubitsch, o rei da comédia sofisticada de Hollywood dos anos 30 e 40, e que a MGM tinha conseguido contratar para um par de filmes que se tornariam dos mais emblemáticos da carreira do realizador de origem alemã.

Claro que “Ninotchka” estava longe de ser o primeiro filme onde Garbo ri. A sua sonora gargalhada era já conhecida dos fãs. Era, no entanto a sua primeira comédia, como que numa tentativa de refrescar a imagem da actriz, que vinha do fracasso de “Maria Walewska” (Conquest, 1937), mesmo que a própria tivesse muitas reservas quanto ao resultado.

O filme fora primeiro entregue a George Cukor, que entretanto se envolveu em “E Tudo o Vento Levou” (Gone with the Wind, 1939), que não chegou a terminar. Ficou o argumento de Gottfried Reinhardt e S. N. Behrman, mas Lubitsch não gostou. Para o reescrever, o realizador trouxe homens da sua confiança, entre os quais o futuro realizador Billy Wilder, e foi em equipa que foi encontrado o novo filme que se chamaria “Ninotchka”.

“Ninotchka” conta, em modo de sátira, uma história de confronto de ideias entre a comunista e austera União Soviética, e a capitalista e boémia Paris. Da primeira chegam inicialmente Iranoff (Sig Ruman), Buljanoff (Felix Bressart) e Kopalski (Alexander Granach), que, embora trazendo bem estudadas as lições de devoção a uma causa, cedo deitam tudo a perder, pelo fascínio da grandiosidade parisiense. É sua missão vender as jóias da grã-duquesa Swana (Ina Claire), confiscadas durante a revolução. Mas quer o destino que a grã-duquesa viva em Paris e seja prontamente informada da intenção. Através do seu homem de confiança, o galã conde Léon d’Algou (Melvyn Douglas), a grã-duquesa vai impugnar a venda, tornando-a um disputa em tribunal. Para desbloquear a situação chega a ainda mais austera enviada-especial, Nina Ivanovna Yakushova, de diminutivo Ninotchka (Greta Garbo).

Inicialmente condenando toda a decadência de costumes permitida pelos três enviados russos, Ninotchka vai tratar Paris e os parisienses sobranceiramente, como objectos de estudo. Exemplo é o tratamento dado a Léon, que conhece casualmente, sem saber quem é. Só que Léon, imediatamente fascinado por Ninotchka, não vai descansar até quebrar o gelo. Apaixonados finalmente, o casal tem só uma nuvem negra, o final do processo judicial. Mas enganada pela grã-duquesa, que consegue roubar as jóias do hotel onde Ninotchka se instalara, esta vai ter que ceder à sua exigência de abandonar imediatamente Paris.

De novo em Moscovo, não resta a Ninotchka mais que reviver as memórias dos momentos de felicidade em Paris, com a cumplicidade dos também regressados Iranoff, Buljanoff e Kopalski. Mas quando estes são recolocados em Constantinopla, para logo deitarem por terra a imagem da austeridade soviética, Ninotchka é mais uma vez enviada, pelo temido comissário Razinin (Bela Lugosi), para os controlar. Na capital turca, Ninotchka vai descobrir que tudo havia sido planeado por Léon para a retirar da União Soviética, e finalmente poderem ficar juntos.

Com uma sátira elegante e corrosiva, Lubitsch é um dos primeiros autores a fazer humor com a situação política da União Soviética, quando isso ainda não era moda (estava-se no início da Segunda Guerra Mundial). Embora não possa deixar de se notar o tom excessivamente caricatural, é exactamente nesse exacerbar de contrastes que reside grande parte do humor de “Ninotchka”. Os russos fascinam-se com qualquer ponta de luxo, imaginam os maiores mitos sobre o Ocidente, vivem miseravelmente em casas divididas por várias famílias, estão constantemente à espera de serem enviados para a Sibéria, e têm de fazer uma colecta de ovos para uma simples omelete. Quanto aos parisienses, vivem para o prazer, têm gastos exagerados, não conhecem grandes valores morais, e não levam nada a sério.

Com os quatro russos de um lado (três deles rapidamente conquistáveis, e Ninotchka, a mais irredutível nas suas convicções) e o ocidental Léon do outro, todos têm o condão de, nas suas fraquezas e convicções exageradas, despertarem a nossa simpatia. Cabe à grã-duquesa Swana o papel mais detestável, e este acontece, não por convicções políticas ou filosóficas (as quais são diversamente debatidas sempre com uma ponta de humor), mas sim pelas suas atitudes pessoais.

Era como se Lubitsch nos dissesse que, embora fossem as diferenças políticas a motivar o humor do filme, elas eram irrelevantes para a nossa avaliação das pessoas, e eram no fundo os comportamentos humanos que ditavam de quem devíamos ou não gostar.

Política à parte, “Ninotchka” é uma comédia romântica de diálogos fabulosos, situações imaginativas, e um conjunto de interpretações admiráveis. Se os “russos” Sig Ruman, Felix Bressart e Alexander Granach estão perfeitos nos seus papéis cómicos de funcionários pategos e deslumbrados, Melvyn Douglas (pela segunda vez com Garbo) faz excelente uso do papel do sofisticado, e algo cínico parisiense, rapidamente convertido ao amor, e disposto a converter Ninotchka, mesmo que para isso acabe motivo de riso, num papel que fora disputado por Spencer Tracy, William Powell, Robert Montgomery e Cary Grant. Acima de todos, brilha Greta Garbo, cuja personagem austera que só aos poucos vai quebrar para se tornar uma romântica, parece assentar como uma luva à sueca, conhecida pela sua personalidade fria e elusiva.

Com o toque de Midas de Lubitsch, tudo em “Ninotchka” resulta, do enredo aos gags individuais, dos personagens à direcção artística, do drama ao humor, no que seria um dos filmes mais frequentemente citados nas listas de melhores comédias de sempre.

Por motivos óbvios, o filme foi banido na União Soviética. Tornar-se-ia um dos preferidos do realizador.

Produção:

Título original: Ninotchka; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Produtor Executivo: Ernst Lubitsch [não creditado]; País: EUA; Ano: 1939; Duração: 110 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 6 de Outubro de 1939 (EUA), 5 de Novembro de 1940 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ernst Lubitsch; Produtor Associado: Sidney Franklin [não creditado]; Argumento: Charles Brackett, Billy Wilder, Walter Reisch [baseado no livro homónimo de Melchior Lengyel]; Música: Werner R. Heymann; Fotografia: William H. Daniels [preto e branco]; Montagem: Gene Ruggiero; Direcção Artística: Cedric Gibbons; Cenários: Edwin B. Willis; Figurinos: Adrian; Caracterização: Jack Dawn.

Elenco:

Greta Garbo (Nina Ivanovna “Ninotchka” Yakushova), Melvyn Douglas (Conde Léon d’Algout), Ina Claire (Grã-duquesa Swana), Bela Lugosi (Comissário Razinin), Sig Ruman (Iranoff), Felix Bressart (Buljanoff), Alexander Granach (Kopalski), Gregory Gaye (Rakonin), Rolfe Sedan (Gerente do Hotel), Edwin Maxwell (Mercier), Richard Carle (Gaston), George Tobias (Empregado Russo do Balcão de Vistos) [não creditado].

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