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ConquestMaria Walewska (Greta Garbo) é uma bela condessa polaca, esposa do muito mais velho conde Anastas Walewski (Henry Stephenson). Ambos vivem o desconforto da guerra, e quando as tropas de Napoleão (Charles Boyer) chegam como salvadoras, é-lhes impossível não sentir fascínio pelo imperador. Quando todos percebem que Napoleão está igualmente fascinado pela beleza de Maria, os políticos polacos pedem-lhe que ela se lhe entregue como moeda de troca para uma aliança política. A princípio relutante, Maria resigna-se pelo bem da sua pátria, e acaba, também ela, por se apaixonar pelo imperador. Sabendo que tem de o partilhar com as campanhas militares, Maria ama Napoleão, mesmo nas esperas, respeitando-lhe as decisões, que crê, sirvam para salvar a Europa. Mas quando este se divorcia de Josefina, Maria sonha finalmente com o casamento, descobrindo então que é intenção do seu amante casar com uma princesa habsburga, para cimentar uma sua dinastia, e no fundo, tornar-se igual a todas as velhas casas reais que ele tanto combateu.

Análise:

Continuando a interpretar personagens históricas famosas, Greta Garbo encarnou, em 1937, a Condessa Marie Walewska, uma nobre polaca, que se tornou amante de Napoleão Bonaparte, no início do século XIX, quando o Imperador fazia já a sua influência chegar a toda a Europa. O filme, intitulado em português “Maria Walewska” seria o sétimo e último filme de Garbo realizado pelo experiente Clarence Brown.

A partir de um romance de Waclaw Gasiorowski, acompanhamos a vida da condessa Maria Walewska (Greta Garbo) a partir do momento em que a mansão do seu marido (Henry Stephenson) é pilhada por cossacos russos, e salva pelas tropas polacas, e seus aliados franceses. Para a Polónia, Napoleão (Charles Boyer) é um salvador, que traz as luzes da civilização e valores de liberdade, e é com esse fascínio que Maria se escapa de casa para o ver. A este primeiro encontro furtivo segue-se um oficial, e o imperador fica apaixonado. Maria é fiel ao marido, mas todos concordam que a relação dela com Napoleão é o melhor para a Polónia, e Maria é entregue a Napoleão como amante.

O casal vive momentos de paixão, sempre intercalados pelas campanhas francesas. Maria compreende e nunca exige nada, tendo por isso o respeito do amante. Quando este decide divorciar-se da Imperatriz Josefina, Maria acredita poder finalmente ter uma vida com ele, mas este revela a intenção de casar com uma princesa dos Habsburgos, pelo que ela não lhe revela estar grávida. A revelação chegará mais tarde, já no exílio em Elba, mas, embora emocionado com a reunião com Maria e o seu filho, Napoleão planeia o regresso à Europa, que culminará em novas derrotas e o exílio final em Sta. Helena.

Sempre guiada pelo brilho de Greta Garbo, a MGM preparou mais um épico, agora com a estrela a contracenar, mais que com o actor Charles Boyer, com a figura de Napoleão. Esse confronto vai-se percebendo ao longo do filme. Este começa por ser a história de Maria Walewska, a decidida condessa polaca, fascinada pela revolução que Napoleão traz à Europa. Casada com um homem muito mais velho, é-lhe fiel, até ao momento em que lhe é ordenada a traição. Mas a partir de meio do filme Napoleão começa a ganhar preponderância, e chegamos a esquecer-nos de Walewska, para a recordarmos no momento em que a sentimos traída pelos planos políticos do imperador que, pelos olhos dela, vemos agora como mais um déspota, que já traiu os ideais libertários que fizeram da França uma chama de esperança em toda a Europa.

“Conquest”, o título original do filme, funciona portanto como o tema da vida dessa personagem central que foi Napoleão, mas também como uma chamada de atenção para a conquista impossível de Maria, que era a de ter o imperador a escolhê-la acima dos seus sonhos políticos. Ou visto de outra forma, é o paralelo de conquistas falhadas (como salientado no último acto passado em Elba), que no campo político, quer no amoroso, com Napoleão a escolher erradamente, e por isso a tudo perder.

Fosse ou não essa a intenção, a verdade é que Napoleão é uma figura demasiado centralizadora, para se limitar a uma presença lateral. E então o filme torna-se Charles Boyer, preocupado, no fundo, em criar uma imagem que perdure e que aceitemos como a do imperador de que todos já ouvimos falar. Seja ou não fiel nos maneirismos e idiossincrasias, a interpretação de Boyer torna-se o ponto central do filme (Boyer receberia uma nomeação aos Oscars), para além do qual tudo (mesmo Garbo) começa a parecer secundário.

Filmado com um orçamento vastíssimo, Clarence Brown dá a “Maria Walewska” toda a grandiosidade das suas obras mais famosas, desde o guarda-roupa aos interiores dos palácios e salões de baile, nada é descurado. Mesmo se as cenas de exteriores são filmadas em estúdio, por vezes (como no episódio da retirada da frente russa) de um modo muito estilizado, estilização essa que trespassa o fundo histórico da história, onde os russos são mostrados como puros selvagens. Visualmente o filme resulta, não se podendo deixar de salientar a fotografia de Karl Freund.

A nível do argumento o filme não se deixa arrastar, sabendo sempre saltar no tempo, para os episódios em que há evolução na relação entre Napoleão e Maria, sem se prender com a necessidade de nos dar uma lição de história, a qual é suposto já conhecermos. Ainda assim, pese essa boa opção, o filme torna-se muito longo, com o dramatismo de Garbo a parecer deslocado (ou talvez se notasse que o seu tempo começava a passar e se pedia mais agora dos actores), e todo o filme a tornar-se um repetir de momentos sem outra saída que não fosse a caracterização dos dois personagens centrais, com total desprezo para todos os outros.

Embora tendo sido bem recebido pelo público, “Maria Walewska”, dado o seu enorme orçamento seria um dos maiores prejuízos da MGM na era clássica. O que, e já com Irving Thalberg desaparecido, faria a companhia rever a sua política, como se veria logo no filme seguinte de Garbo, a comédia ligeira “Ninotchka” (1938).

Produção:

Título original: Conquest; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1937; Duração: 111 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 22 de Outubro de 1937 (EUA), 19 de Abril de 1938 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Clarence Brown, Gustav Machatý [não creditado]; Produção: Bernard H. Hyman; Argumento: Samuel Hoffenstein, Salka Viertel, S. N. Behrman, Talbot Jennings [não creditado], Carey Wilson [não creditado] [a partir do livro “Pani Walewska” de Waclaw Gasiorowski, e da dramatização de Helen Jerome]; Música: Herbert Stothart [baseado em temas de Piotr Tchakovski]; Fotografia: Karl Freund [preto e branco]; Montagem: Tom Held; Direcção Artística: Cedric Gibbons, William A. Horning; Figurinos: Adrian.

Elenco:

Greta Garbo (Condessa Maria Walewska), Charles Boyer (Napoleão Bonaparte), Reginald Owen (Tallyrand), Alan Marshal (Capitão d’Ornano), Henry Stephenson (Conde Anastas Walewski), Leif Erickson (Paul Lachinski), Dame May Whitty (Laetitia Bonaparte), Maria Ouspenskaya (Condessa Pelagia Walewska), C. Henry Gordon (Príncipe Poniatowski), Claude Gillingwater (Stephan), Vladimir Sokoloff (Soldado Moribundo), George Houston (Grande-Marechal George Duroc).